O impacto cultural de Game of Thrones ao longo dos 8 anos em que esteve no ar, foi algo nunca antes visto na indústria da televisão. 

Não me encontro no lote de pessoas que começou a ver Guerra dos Tronos desde o seu início. Séries, simplesmente, não eram algo que me cativasse (não que hoje em dia o panorama seja muito diferente), mas a insistência para dar oportunidade a Guerra dos Tronos no meu círculo social era alguma. Quando “apanhei” a série, esta tinha acabado de exibir a sua 4ª temporada.  Todas essas 4 temporadas, culminando na 4ª que foi a cereja no topo do bolo, foram de excelente qualidade. Facilmente as coloco a par do melhor entretenimento que já consumi, independentemente do formato.

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Veio então a 5ª temporada, a primeira que assisti em tempo real, e a descida de qualidade foi notória. Não coincidentemente, foi a temporada em que os guionistas (David Benioff e D.B. Weiss) começaram a tomar mais liberdades, devido à escassez de material base nos livros. A 6ª temporada, analisada num vácuo, até foi das melhores da série. A 7ª, nesse mesmo vácuo, também pode ser considerada satisfatória. Até à 7ª temporada, os momentos de impacto ainda se faziam sentir em força. A falta de coerência, no entanto, começou a manifestar-se em diferentes vertentes já na 5ª, e persistiu até esta 8ª e derradeira temporada da série, com uma intensidade que foi crescendo gradualmente.

Guerra dos Tronos

Personagens cujas longas jornadas seguimos com afinco começaram a agir de forma diferente àquilo a que estávamos habituados sem razão aparente. A história começou a favorecer a imprevisibilidade em detrimento da lógica. Subverter o espectador tornou-se para os guionistas uma regra mais importante do que seguir a história que havia sido construída até então. Essa mesma história foi vaga e superficialmente seguida, sustentada em facilitismos narrativos que quebraram várias complexidades previamente estabelecidas, que por sua vez davam a esta história de alta-fantasia o seu lado mais real, tão apreciado pelos fãs.

A partir deste ponto encontrarão fortes spoilers da 8ª temporada, prossigam por vossa conta e risco.

Ainda que a 5ª temporada da série tenha sido aquela que menos entretenimento me proporcionou, esta temporada final foi a principal ré das transgressões descritas no parágrafo prévio. Poucas foram as personagens cujos arcos, recentes ou duradouros, tiveram desenvolvimento e conclusão satisfatórios. Neste pacote incluo uma infinidade de personagens, entre as quais Jon, Daenerys, Tyrion, Bran, Varys ou o próprio Night King. Alguns destes, de forma particularmente frustrante.

Guerra dos Tronos

O primeiro grande acontecimento da temporada foi a batalha travada contra o Night King e o seu exército. É uma frase que, só por si, já me deixa algumas reservas. A execução poderia ter minorado a circunstância, mas não o fez. Momentos como a demonstração de poder da Melisandre, a investida de Lyanna Mormont, e os sacrifícios de Jorah, Edd e Beric Dondarrion foram memoráveis. Uma palavra principalmente para o arco de Theon, que foi concluído na perfeição. Estes foram os únicos pontos positivos de uma batalha que deixou muito a desejar, e cujas marcas aparentaram ser esquecidas em pouco tempo. Desde a primeira cena do primeiro episódio que os Outros se afiguraram como a maior ameaça aos sete reinos. Tudo isto para serem descartados da história como uma peça menor, cuja ausência da história não teria praticamente qualquer impacto naquele que acabou por ser o verdadeiro final.

Os White Walkers não foram vistos em combate uma(!) única vez durante a série, e nem o Night King teve as suas capacidades postas à prova. Toda a jornada de Jon Snow desde a 1ª temporada pedia que fosse ele a ter o momento de destaque e livrar-se desta ameaça, mas dá a ideia que os escritores intencionalmente o impediram de brilhar ao longo de toda esta temporada. Por 7 temporadas o Jon foi a epítome máxima de personagem heróica, com toda a fibra do seu ser, e merecia mais do que ser transformado num personagem passivo. Não esperava que fosse ele a ficar no trono, mas o seu epílogo não foi satisfatório. Conceptualmente não é indefensável, há algo poético no facto de tomar a posição que outrora fora de Mance Rayder, mas pedia-se que pelo menos fosse o próprio Jon a fazer a escolha.

Por muito vil que seja a personagem da Cersei, não foi fácil aceitá-la como a grande vilã depois de tudo isto (e acabou por não ser). Não vimos muito dela, mas vimos o suficiente para notar que a subtileza que a caracterizava já não estava presente. Esta é uma versão da Cersei que não tem nada a perder, e que finalmente, antes de perecer, mostrou o seu lado mais vulnerável. Muita gente está desapontada pelo Jaime ter voltado para o lado da Cersei, mas sempre fui da opinião que o amor pela irmã o definia mais do que qualquer outra coisa. O momento da morte de ambos não teve todo o impacto que seria desejável, mas considero ainda assim que ambos terminaram a sua jornada numa nota positiva. A cena de Tyrion em frente aos cadáveres do seu irmão e irmã foi mais impactante do que a própria morte.

No meio disto tudo há o Euron, que é mais uma caricatura do que uma personagem. Tanto potencial…

É ponto assente que, desde muito cedo, a Daenerys se tornou obcecada pelo trono. A minha opinião acerca dela ao longo de todos estes anos foi expressa na sua plenitude pelo Tyrion durante a sua conversa com o Jon no 6º episódio. As sementes haviam sido plantadas. O trono sempre foi para si o bem maior, e eventualmente mostrou-se capaz de fazer tudo para o conseguir. O seu discurso tirânico foi brilhante, e em muito contribuiu para isso a prestação de Emilia Clarke. Não obstante, a transição de obsessão subtil para obsessão maníaca foi um pouco apressada, um mal que afligiu a generalidade dos episódios desta temporada. A sua morte, às mãos de Jon, foi desconfortavelmente anti-climática.

Guerra dos Tronos

Desde a 5ª temporada, e até ao último episódio desta, o intelecto e capacidade analítica de Tyrion andaram ao sabor do vento. Depois de todo o caos que se instalou em King’s Landing, e de se ver numa situação complicada, o “saudoso” Tyrion que em tempos chegou a ser a minha personagem favorita, regressou com pujança. Mas tê-lo feito no último episódio, sem qualquer explicação satisfatória para os seus constantes erros prévios (pelos quais não sofreu consequências, por sinal), é pouco. Se a intenção era mostrar que, tal como Jon, não conseguiu escapar ao charme hipnotizante da Daenerys, espero que o George R. R. Martin seja mais corajoso.

O último episódio respondeu igualmente à questão de quem se sentaria no (agora apenas figurativo) trono. Dizer que Bran não seria a primeira escolha de muita gente é um eufemismo. Bem, se há um arco individual que foi desapontante, é sem dúvida o de Bran. Todas as alusões à sua ligação com o Night King, bem como todo o seu poder fruto de ser o Three-Eyed Raven, não tiveram ponto de culminação. E não, ser rei não conta. As suas irmãs, por sua vez, terminaram a série de forma igualmente exuberante. A Sansa conseguiu o poder que sempre quis, e a Arya, ainda que demasiado protegida, acabou por não trair os seus valores.

Vários mistérios que foram sendo introduzidos ao longo da série acabaram por não ter resolução. Não pude escapar ao pensamento de que, uma vez findo o material dos livros para adaptar, os escritores fugiram deliberadamente destas explicações, talvez por falta de confiança nas suas capacidades de não deixar pontas soltas. Os elementos de fantasia foram, também eles, diminuindo. Vejamos: Qual era o objetivo dos Outros? Qual era o objetivo dos Children of the Forest? O que está a acontecer em Dorne? Qual é verdadeiramente o alcance dos poderes de Bran e porque é que o Night King estava tão obcecado por ele? Podia continuar.

No que diz respeito aos aspetos técnicos, a realização foi maioritariamente competente, assim como a edição. A falta de luz durante a batalha de Winterfell foi um pouco desagradável, acabando por ser um elemento de distração. Os efeitos especiais não foram constantes, mas brilharam a espaços. A banda sonora de Ramin Djawadi, essa, nunca desilude, e acaba por dar algum do impacto que falta a certas cenas.

Em suma, o guião foi mesmo o ponto fraco da temporada. E por muito que as peças ao seu redor estejam bem oleadas, sem um bom guião uma história ficará sempre longe do seu potencial. Este final deixou-me, essencialmente, a ansiar que George R. R. Martin tenha uma vida longa e nos presenteie com os dois livros que restam na saga.