Embora visualmente criativo e com ótimas performances, Alex Strangelove é um filme coming of age com poucas novidades.

No final da minha crítica a Ibiza, escrevi que “Party movies há aos montes. Este não passa de uma reciclagem desnecessária.” Pergunto-me se o mesmo pode ser dito sobre este Alex Strangelove, que se insere, neste caso, no género de filmes coming of age.

Bom, verdade seja dita, este original da Netflix não introduz nada de novo ao género. Porém, o mesmo se aplica a No Limiar dos 18, com Hailee Steinfeld, uma metragem que me encantou profundamente e se tornou uma das minhas favoritas de 2016. Então, qual é a diferença? O facto de que vi uma parte de mim refletida na Nadine, a personagem principal? Hm, não me parece que seja só isso. Afinal de contas, também me identifiquei de certa maneira com a Saoirse Ronan no Lady Bird, e essa foi uma obra que, honestamente, me pareceu meramente satisfatória.

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Alex

Uma coisa não precisa de ser original para ser boa. Sem excluirmos o facto de que o Boyhood: Momentos de Uma Vida foi filmado ao longo de 12 anos, o que nos resta? Um filme que retrata a vida tal como ela é. Chama-me Pelo Teu Nome é uma obra brilhante, e, no papel, é apenas mais um filme sobre a descoberta da sexualidade. No entanto, eleva-se, no final, como uma obra verdadeiramente humana sobre o estado mais puro do amor. Já Moonlight, é a jornada da vida em três atos de um homem negro, gay e pobre. É, também, um grito universal sobre a condição humana.

Este é o grande problema de Alex Strangelove. É sobre um jovem (Daniel Doheny) que está a descobrir a sua sexualidade, e ponto final. Vai a festas, sente-se tanto ansioso como receoso para perder a sua virgindade, e conversa sobre isso com a namorada (Madeline Weinstein), conhece um rapaz gay (Antonio Marziale) e sente-se atraído por ele. São as descobertas da idade.

Estas tramas são-nos familiares. Já as vimos vezes sem conta.

Mesmo assim, vale a pena mencionar o ótimo trabalho do elenco. Com destaque para o protagonismo do Daniel Doheny, que se certifica de “construir” um Alex complexo, que não cai no estereótipo de menino bem comportado, organizado, bom aluno e sempre penteadinho, ainda que, teoricamente, ele seja tudo isso. Por sua vez, a Madeline Weinstein faz a melhor performance do filme como uma figura feminina forte, tridimensional e, por isso, extremamente humana. É uma personagem com muitas camadas, muito bem escrita. Já o Antonio Marziale merecia mais tempo em cena. O filme avança e ele é esquecido, fica em segundo plano. No final, não nos parece um personagem mas sim um recurso narrativo para simbolizar a mudança na vida do protagonista.

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Entretanto, Craig Johnson assume-se como um realizador versátil. É curioso fazer um paralelo com uma das suas obras anteriores. Portanto, se o excelente Gémeos Para Sempre se assumia como uma dramédia com uma identidade visual cinzenta para dar atmosfera a um filme com temas puramente adultos, já Alex Strangelove é um retrato adolescente cheio de energia e sensações fortes, e com uma estética imensamente colorida e criativa, que inclui, aliás, o vómito mais bonito que alguma vez vi na minha vida. Sim, o vómito.

No fim, há um pequena observação sobre o receio das minorias face aos “olhares” e aos comentários das maiorias. Sê quem tu és. Não te escondas. A mudança só virá através da inclusão. Uma mensagem positiva, bonita, mas que já foi transmitida de formas mais inventivas e eficazes.

O que nos move são as histórias, mas, acima de tudo, a maneira como elas são contadas. A história de Alex Strangelove já foi contada. E de maneiras melhores.