CinemaCríticas de CinemaDestaquesA Balada de Buster Scruggs – as várias facetas do western

Vencedor do prémio de Melhor Argumento no Festival de Veneza de 2018, A Balada de Buster Scruggs, o novo filme dos irmãos Coen, já se encontra disponível na Netflix. Depois de terem prestado uma homenagem assumidamente caricata à Era de Ouro de Hollywood em Salve, César!, os irmãos Coen regressam agora com A Balada de Buster Scruggs. Um western antológico composto por seis “Contos da Fronteira Norte-Americana”. O primeiro deles, que dá título ao filme,...
Nov 17, 201880/10010 min
Duração
132 minutos
Género
Western, Comédia, Drama
Estreia
16 NOV. 2018
Distribuidor
Netflix
Overall Score
Rating Overview
Realização
90%
Argumento
80%
Representação
80%
Música
65%
Montagem
75%
Fotografia
95%
Rating Summary
A Balada de Buster Scruggs não é nenhuma reescrita de um velho género. Em vez disso, é uma obra que aborda todas as facetas de um dos géneros mais importantes da História do Cinema, ao mesmo tempo que dois dos seus maiores génios reafirmam as suas marcas autorais.

Vencedor do prémio de Melhor Argumento no Festival de Veneza de 2018, A Balada de Buster Scruggs, o novo filme dos irmãos Coen, já se encontra disponível na Netflix.

Depois de terem prestado uma homenagem assumidamente caricata à Era de Ouro de Hollywood em Salve, César!, os irmãos Coen regressam agora com A Balada de Buster Scruggs. Um western antológico composto por seis “Contos da Fronteira Norte-Americana”.

O primeiro deles, que dá título ao filme, introduz solidamente alguns dos elementos que persistirão ao longo deste. Como já é habitual dos Coen, temos o uso subversivamente cómico da violência e a presença de sequências musicais e oníricas, que ajudam a empregar um tom singular à narrativa. No meio de tudo isto, Tim Blake Nelson, que surge em cena vestido de um branco intenso e mítico (e que contrasta com as roupas escuras dos outros cowboys com caras de poucos amigos), diverte-se ao oferecer uma das performances mais cativantes da sua carreira como o personagem-título.

Buster Scruggs

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Já a segunda história, Perto de Algodones, acrescenta humor numa situação de agonia e apresenta-nos um James Franco que abraça fortemente o papel de forasteiro misterioso, sem cair, no entanto, numa caricatura fácil. Mérito não só do ator, mas também da incrível habilidade dos cineastas ao darem uma personalidade distinta a cada personagem… Não excluindo os figurantes. Tudo isto fruto de um sofisticado trabalho de caracterização. O conto acaba numa nota impressionista, demonstrando a imensa criatividade do trabalho de realização. Nada aqui é banal. Um filme dos manos é sempre uma caixa de surpresas.

Assim sendo, no terceiro “episódio”, O Ganha-Pão, somos transportados para uma atmosfera mais melancólica e menos cómica, reforçada pelos cenários inverniços e por uma dura história sobre sobrevivência. O Liam Neeson encontra-se bem em cena, mas o verdadeiro destaque aqui é a atuação do expressivo e subestimado Harry Melling (o Dudley da saga Harry Potter).

Em contrapartida, no quarto segmento, O Desfiladeiro de Ouro, a gloriosa fotografia digital do Bruno Delbonnel (O Fabuloso Destino de Amélie, A Hora Mais Negra) chega ao ápice da sua beleza ao descrever visualmente detalhes exteriores fantásticos, como uma borboleta a pousar sobre uma flor. Nunca os Coen filmaram a Mãe Natureza com tamanha paixão e delicadeza como aqui. A intensidade do verde é de cortar a respiração.

Buster Scruggs

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Esta serenidade atmosférica persiste em A Moça Que se Enervou.  Apesar do seu título promissor, é, na verdade, uma história com menos energia e com um senso estético menos inspirado. No entanto, traz um final intenso e a excelente performance da Zoe Kazan merece ser mencionada na award season que está à porta.

O último conto, Os Restos Mortais, passa-se quase todo dentro de uma carruagem. Faz-nos lembrar o quão talentosos os Coen são com as palavras. São diálogos que nos deixam colados ao ecrã.

Em suma, A Balada de Buster Scruggs não é nenhuma reescrita de um velho género. Em vez disso, é uma obra que aborda todas as facetas dum dos géneros mais importantes da História do Cinema. Isto, ao mesmo tempo que dois dos seus maiores génios reafirmam as suas marcas autorais. Da mitologia ao vazio existencial do Oeste. Do épico ao íntimo. Do romantismo à dureza da realidade. Da comédia satírica à tragédia violenta.

Nenhuma destas histórias é extraordinária. Mas cada uma delas é, inegavelmente, dona de um encanto singular.

Alex Vieira

Alex Vieira

Um ser que pensa que percebe de cinema e da vida.