CinemaCríticas de CinemaDestaques“Chungking Express” – Cinema espontâneo

Um dos mais conhecidos filmes de Kar-Wai Wong, “Chungking Express” mostra-nos o cineasta chinês no auge da sua liberdade criativa. Certa vez perguntaram a Kar-Wai Wong qual conselho ele daria para quem ambiciona fazer filmes. “Peguem numa câmara”, ele disse. A simplicidade e a informação contida na sua resposta não me pareceram tão verdadeiras até ver “Chungking Express”. Nunca vi o cineasta tão desprendido da sua típica delicadeza formal. Abordando o amor (e a falta...
Alex Vieira Alex VieiraJan 27, 201978/1009 min
Duração
102 minutos
Géneros
Comédia, Crime, Drama
Estreia
12 ABR. 1996
Overall Score
Rating Overview
Realização
70%
Argumento
60%
Representação
80%
Montagem
80%
Fotografia
100%
Rating Summary
Um dos mais conhecidos filmes de Kar-Wai Wong, Chungking Express mostra-nos o cineasta chinês no auge da sua liberdade criativa.

Um dos mais conhecidos filmes de Kar-Wai Wong, “Chungking Express” mostra-nos o cineasta chinês no auge da sua liberdade criativa.

Certa vez perguntaram a Kar-Wai Wong qual conselho ele daria para quem ambiciona fazer filmes. “Peguem numa câmara”, ele disse. A simplicidade e a informação contida na sua resposta não me pareceram tão verdadeiras até ver Chungking Express”. Nunca vi o cineasta tão desprendido da sua típica delicadeza formal. Abordando o amor (e a falta dele) como tema principal da obra, ele encontra-se aqui livre como um pássaro.

Este é um filme pouco pensado e que, nos seus melhores momentos, respira. É sobre He Zhiwu (Takeshi Kaneshiro) e uma mulher que usa uma peruca loira e uns óculos de sol vermelhos (Brigitte Lin). Ele é polícia e ela gere um negócio de narcotráfico. À primeira vista, esta parece-nos uma história sobre uma inesperada união, seguida de um intenso jogo de gato e rato, assim que os protagonistas descobrem o que um e outro fazem da vida. Mas o convencional e o esperável não moram na arte de Kar-Wai Wong. E, assim, na segunda metade da metragem, passamos a acompanhar um casal diferente – um outro polícia (Tony Leung) e Faye (Faye Wong), uma empregada de bar que gosta de ouvir música alta.

Chungking Express

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Os personagens são bastante abertos, expressivos, cómicos. Numa determinada cena, é-nos narrado que Zhiwu comeu 30 latas de ananás. Digo “é-nos narrado”, porque nós nunca vemos isto efetivamente a acontecer. E este é o maior problema de “Chungking Express”. O facto de que Wong não se contenta apenas com imagens, diálogos e comportamentos. Ele exige um relato que tudo o que faz, na verdade, é prejudicar a experiência, tornando-a mais cansativa e menos misteriosa ao explicar banalidades como o motivo pelo qual certo personagem decidiu correr de manhã.

Não me interpretem mal. Eu não sou contra a narração no cinema. O meu filme favorito, “Laranja Mecânica” (1971), tem um narrador constantemente presente. Mas funciona, porque o protagonista que vemos é relativamente diferente do protagonista que ouvimos. É o discurso de Alex que nos manipula e que o torna num anti-herói. É uma narração absolutamente essencial e que abre toda uma nova dimensão de ideias e sentimentos. O filme depende dela.

Chungking Express

O Kar-Wai Wong partilha muitas semelhanças com outro mestre do uso da narração: Terrence Malick. Porém, Wong jamais consegue transcender o significado das suas belíssimas imagens ao usar o poder da palavra como o realizador norte-americano consegue. Porque tudo o que a câmara capta já devia falar por si. Por isso, quando testemunhamos o caos urbano de Hong Kong e nos deparamos em quartos desarrumados, sabemos que tudo isto serve como uma extensão do estado mental embriagado dos personagens. Este é um filme superpopulado, abarrotado, e que até faz bom uso disso.

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Nos anos 60 e 70, o cinema de Hong Kong celebrou-se por produzir musicais coloridos de estúdio e filmes de ação meticulosamente coreografados. Mas com a vinda de cineastas como Kar-Wai Wong, as obras da região apresentaram-se mais pessoais, livres e mundanas. Em vez de guerreiros armados da cabeça aos pés, os heróis passaram a ser seres humanos comuns que andam de cuecas em casa.

A rodagem de “Chungking Express” durou 23 dias. Wong escrevia as cenas horas antes de as filmar. Esta sua espontaneidade por vezes consegue tornar o ordinário em algo extraordinário (“Disponível Para Amar”, “Anjos Caídos”). Porém, quando Wong pegou na câmara para fazer “Chungking Express”, o resultado não pediu por uma dose “extra”.

Alex Vieira

Alex Vieira

Um ser que pensa que percebe de cinema e da vida.