exaltar os mortos, não apenas por terem morrido, mas pelo legado que criaram enquanto vivos. No caso de Harry Dean Stanton, “we smile”.

Trata-se do directorial debut do ator John Carroll Lynch. Existe sempre receio de ver a primeira obra de um determinado artista, sobretudo quando o mesmo nunca teve nenhum  trabalho de igual cargo. Lynch nunca realizou nenhuma curta, mas mostrou-se perfeitamente à altura do desafio. Lucky” é um filme minimalista e curto, mas muito bem trabalhado, tanto a nível técnico como interpretativo. É prova que quantidade não é sinónimo de qualidade.

Por onde começar? A interpretação do Harry Dean Stanton merece ser comentada o quanto antes. O ator morreu em Setembro com 91 anos e teve uma carreira muito respeitável. Com uma filmografia de 60 anos, com mais de 200 trabalhos, o ator demonstrou estar em forma para continuar a participar em mais projetos.

Apesar das tão elogiadas performances em “Alien”, de 1979, e em Paris, Texas”, de 1984, Lucky” junta-se à lista das mais poderosas interpretações da carreira do ator. Dentro de uma aparente inexpressividade, o personagem é irónico, carismático, convidativo, engraçado, maldisposto e, por vezes, grosseiro. O público acompanha-o nas variadas cenas de humor e de maior reflexão sobre diversos assuntos. Desta forma aprende muito sobre ele com pouquíssimos diálogos. A sua caracterização consiste em montagens da sua rotina, em cenas sossegadas do protagonista a fumar ou a tocar harmónica, em maravilhosos monólogo, assim como em  ótimos close-ups repletos da emoção que transborda pelos olhos do personagem. O ator carrega o filme às costas. Uma nomeação póstuma era minimamente obrigatória. Descanse em Paz, Harry.

O filme tem a capacidade de dividir as opiniões. A história aborda a perceção individual da nossa mortalidade, assim como um longo recapitular da nossa vida e daquilo que podia ter sido. O que há a seguir a tudo? Outra vida? Outro lugar? Ou apenas um constante, porém relaxante vazio? São várias as questões que o protagonista partilha com o público, sem nunca receber qualquer resposta, o que é sempre acertado de se fazer no cinema. Dar resposta a estas dúvidas seria até presunçoso.

Os diálogos e a opinião inicial do protagonista acerca destas questões, fazem parte de um guião muito engraçado, com a dose certa de cinismo. O equilíbrio entre o humor e o drama, sempre presentes,  é muito fluído.

O elenco secundário não sai muito do esperado. Verdade é que todos são ofuscados pela luz de Harry Dean Stanton, mas poucos são os atores que conseguem estabelecer uma presença notável. A impressão que passa, é que algumas conversas do Lucky com determinados personagens ficaram por acabar. No entanto, simpatizei rapidamente com o Barry Shabaka Henley, sendo sem dúvida o maior destaque, na realidade, o David Lynch. A participação cómica e propositadamente risível do conhecido realizador gera alguns dos momentos mais engraçados de todo o filme.

Tal como maior parte dos filmes independentes americanos, Lucky” possui uma fotografia ligeiramente poluída e acastanhada, contudo com um charme distinto que me fará lembrar de todas as enormes composições horizontais do protagonista a passear pelo vasto deserto, que nada mais são que referências/homenagens ao filme Paris, Texas”. É de realçar, os catos, aliás, como os cágados, são muito simbólicos.

A banda sonora, à base de harmónica, violino e viola, é uma das mais agradáveis do ano. Há também escolhas musicais muito adequadas como: “I See A Darkness”, do Johnny Cash, e “Volver, Volver”, cantada pelo próprio Harry Dean Stanton, numa cena tocante e arrepiante.

“Lucky” é um filme pacato, é minimalista, paciente, mas com uma fascinante habilidade de  compensar, tocar e surpreender o seu público. Oferece uma realização convicta, firme e promissora do John Carroll Lynch, uma banda sonora maravilhosa, uma reflexão rica e concentrada no seu tema central, e um Harry Dean Stanton inspirado, naquela que é uma das melhores performances masculinas do ano e da sua carreira.