[themoneytizer id=”20686-1″]

 

Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2018, Roma é uma experiência transformativa e poética. Já disponível na Netflix.

Alfonso Cuarón distancia-se de universos fantasiosos (Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban), de cenários distópicos (Os Filhos do Homem) e de aventuras espaciais (Gravidade), para desta vez nos apresentar Roma, uma obra-prima profundamente humana e pessoal, levando-nos numa viagem inesquecível à memória do cineasta.

Não se tratando de uma autobiografia, no entanto, o filme é protagonizado por Cleo (Yalitza Aparicio), uma criada que toma conta da casa de uma família de classe média. Decorrida na Cidade do México no início dos anos 70, em princípio, esta parece-nos uma história de atitudes passivas-agressivas de patrões com as suas empregadas (o que nos remete ao excelente Que Horas Ela Volta?). Depois, convencemo-nos de que temos diante de nós a jornada de duas mulheres que, embora separadas numa sociedade hierarquizada, vêem as suas vidas a sofrer mudanças radicais em simultâneo. Uma vê o seu casamento a desabar, enquanto outra experiencia em primeira pessoa o constante distanciamento de um futuro melhor.

Mas o que realmente temos aqui é a anatomia de um corpo social. Entre manifestações, festas, dramas domésticos, hospitais apinhados, treinos de artes marciais, incêndios, terramotos e ataques terroristas, Cuarón apresenta-nos um espelho que reflete e nos prende num determinado espaço e tempo. É a culminação e a sucessiva extinção de toda uma História. É o Cinema a renascer e a regressar ao seu estado mais primitivo. O de observador da vida, do real, do quotidiano.

Vê também: Aquaman – Uma aventura subaquática

Roma

Contudo, Roma é a encenação de um passado que nos transforma no presente. Com um simples jogo de travellings, pans, planos-sequência, enquadramentos à Ozu, e uma belíssima noção de profundidade, a câmera de Cuarón é magistral do princípio ao fim ao documentar uma ficção pura, verdadeira, palpável, habitável. Aqui cada espaço, cada divisão, cada móvel, cada objeto aparenta ter uma história, uma vida. E o perfeito trabalho de som certifica-se de empregar uma voz a todos aqueles que falam. Os carros buzinam, os pássaros cantam, o vento sopra. Uma melodia, um musical do real.

Roma é um poema em movimento, que se vê, que se ouve, que se sente, que se vive. Apresenta um conjunto de cenas brilhantes que narram acontecimentos específicos, mas que nos tocam e nos une a todos.

Em suma, é um pronunciamento fílmico sobre o que é ser mãe, pai, guardião, educador, cuidador… criador.