O cinema é uma linguagem falada em todo o mundo. Arrisco dizer que a maior beleza do cinema está, precisamente, algures entre o seu caráter universal e a sua heterogeneidade cultural

O cinema, como um todo, é uma arte bastante heterogénea. No entanto, nem sempre essa heterogeneidade advém da existência de diferentes géneros de filmes, ou da visão dum particular cineasta. Quando comparamos filmes de diferentes regiões, muita dessa diversidade provém de um cunho cultural, que frequentemente não é sequer voluntário. Existe, simplesmente, porque é impossível apagá-lo. No meio de tudo isto, há filmes que carregam orgulhosamente a sua ”bandeira cultural”, e nos contagiam ao contar-nos histórias carregadas de individualidade e significado.

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Os filmes estão listados por ordem cronológica:

The Hidden Fortress (1958) – Akira Kurosawa 

Região: Japão

Pode até parecer redundante, mas o nome de Akira Kurosawa não podia ser omitido deste lote. Pouca gente o saberá, mas George Lucas teve em The Hidden Fortress uma das suas maiores inspirações na criação de Star Wars. Tendo como pano de fundo o Japão feudal, o filme desenrola-se sob a perspetiva de dois camponeses, Tahei e Matashichi. Enquanto procuram ouro para sobreviver, deparam-se com um homem que afirma ser o General Rokurota Makabe, e com a Princesa Yuki, que está a ser protegida e escoltada pelo general. Entre tentativas de ludibriar de parte a parte, os camponeses aceitam viajar com a princesa e o general, em troca de ouro. Durante a sua jornada têm de enfrentar vários obstáculos, e a fibra moral do grupo é testada.

Não é, de todo, um dos filmes mais complexos de Kurosawa. Tem, aliás, um tom bastante leve. Todavia, tal não retira qualquer valor ao filme, que é dos mais encantadores e agradáveis da filmografia do realizador. É, também, um filme que junta vários elementos caraterísticos dos filmes de Kurosawa, como o Japão feudal, os samurais, a autodescoberta e o foco em valores como a honra e a responsabilidade.

Lady Snowblood (1973) – Toshiya Fujita

Região: Japão

Por falar em inspirações, Lady Snowblood foi o prótótipo para Kill Bill, de Quentin Tarantino. Aliás, em contraste com o exemplo anterior, as similaridades entre os dois filmes são tudo menos leves. Façam uma pequena pesquisa no google, e 5 segundos bastarão para ficarem com a ideia. Lady Snowblood é, apenas, um dos melhores revenge films já feitos. 20 anos antes dos acontecimentos do filme, Sayo, a mãe da protagonista Yuki Kashima, foi atacada e violada por um grupo de 4 criminosos, que também mataram o seu marido e filho. Durante a tragédia, Sayo mata um dos violadores, ato que a colocou na prisão. Decidida a vingar-se dos restantes criminosos, Sayo copula compulsivamente com os guardas da prisão, para conseguir engravidar. Yuki é o produto da sede de vingança da sua mãe, que ela própria herda da progenitora. Ao longo do filme acompanhamos a sua busca incessante pelos restantes criminosos.

Não fosse a presença dum determinado filme, este tratar-se-ia, sem dúvida, do filme mais subtextualmente espiritual desta lista. Yuki, a titular Lady Snowblood, nasce com um destino amaldiçoado. Se quisermos fazer a ligação mitológica, Yuki, qual espírito vingativo, é apresentada quase como uma semi-deusa na sua invulnerabilidade, mas também na sua incapacidade de sentir satisfação verdadeira, devido à ausência de outro propósito. Toda a sua personalidade, que existe, é secundária, e moldada ao redor do seu único objetivo na vida, a vingança.

Police Story (1985) – Jackie Chan

Região: Hong Kong

Police Story é, a par de Legend of the Drunken Master, um dos melhores filmes de Jackie Chan. Este filme, todavia, tem também a particularidade de ter sido realizado pelo próprio. O ator interpreta Chan Ka-Kui, um polícia que tenta limpar o seu nome após ter sido falsamente acusado de homicídio.

Trata-se de um dos melhores filmes de ação produzidos em solo asiático, a par do acima referido Legend of the Drunken Master, Ong Bak: Muay Thai Warrior, Ip Man ou Enter the Dragon. E, sejamos sinceros, a ação de Hollywood, no que toca a artes marciais, não chega perto das produções leste-asiáticas. Uma palavra para a equipa de duplos de Jackie Chan, que mostra aqui porque é a melhor na indústria.

A Brighter Summer Day (1991) – Edward Yang

Região: Taiwan

A Brighter Summer Day é definitivamente um filme longo, contando no total com quase 4 horas de duração. Acompanha o crescimento, literal e figurativo, de Xiao Si’r, um adolescente que é confrontado com as amarguras do amor, das amizades, e do clima político de Taiwan na década de 60. Entre disputas familiares e confrontos de gangues formados com base em classes sociais, A Brighter Summer Day é um filme historicamente e culturalmente relevante.

Edward Yang é um nome que tem muito que se lhe diga. É difícil encontrar realizador que imprima uma sensação de realismo nos seus filmes semelhante àquela presente em filmes como A Brighter Summer Day, ou Yi Yi. Yang aborda as questões familiares com especial mestria, captando todas as nuances que tornam o seio familiar no mais relevante meio social para o indivíduo humano.

Chungking Express (1994) – Wong Kar-wai

Região: Hong Kong

Os filmes de Wong Kar-wai têm uma particularidade admirável, que em Chungking Express é especialmente notória. Se lhes fossem retirados todos os outros elementos, e restasse somente o aspeto visual, sobraria ainda um filme digno de ser visto. Em Chungking Express são contadas duas histórias diferentes, sendo que ambas focam as reflexões e problemas amorosos de dois polícias de Hong Kong.

As duas histórias conectam-se com uma fluidez impressionante através da realização magistral de Wong Kar-wai. A banca de fast food frequentada por ambos os agentes serve assim como local físico de ligação entre as histórias. Outro aspeto presente ao longo deste filme, é a representação de Hong Kong como a verdadeira selva urbana que é, com todas as implicações que isso acarreta para as personagens.

Memories of Murder (2003) – Bong Joon-ho

Região: Coreia do Sul

Memories of Murder é um excelente thriller baseado numa história real. Em 1986, na província de Gyunggi, a ideia de um crime violento num local tão pacato era impensável. Por isso, quando uma mulher é encontrada morta numa vala ao lado de um descampado, os habitantes ficam bastante alarmados. O pior, no entanto, é que nem a polícia local está preparada para lidar com algo destas proporções. Posteriormente, mais crimes do mesmo tipo ocorrem, levando a crer que se trata de um assassino em série. Um detetive de Seoul, Seo Tae-yoon, chega à província para oferecer ajuda. Tae-yoon é então posto a trabalhar com o detetive local Park Doo-man, que utiliza métodos de investigação algo questionáveis.

Além das práticas policiais muito pouco ortodoxas, outro tema recorrente ao longo do filme é a obsessão. Concretamente, a crescente obsessão do detetive de Seoul em encontrar o culpado, em contraste com o crescimento da outra personagem principal, o detetive local, que se vai mostrando progressivamente mais hábil para lidar com o crime em questão.

Spring, Summer, Fall, Winter… and Spring (2003) – Kim ki-duk

Região: Coreia do Sul

Um aspirante a monge budista começa, desde criança, a treinar com o seu mestre a bordo de um templo flutuante. O filme acompanha o monge ao longo de quatro fases da sua vida, cada uma conectada a uma estação. As diferentes fases da vida do monge não são, portanto, mais do que um pano de fundo para mostrar as transformações na forma como lidamos com as nossas emoções mais primitivas.

Spring, Summer, Fall, Winter… and Spring é um dos exercícios cinematográficos mais profundos sobre crescimento, maturidade e espiritualidade. O visual de um templo flutuante no meio dum lago circundando por uma serena floresta montanhosa é o cenário perfeito para esta viagem espiritual. Num filme todo ele baseado nas filosofias do budismo, o ser-humano é apresentado como uma entidade fluida e contínua. Corpo, mente e alma formam a totalidade do que somos. A nossa vida é um pedaço ínfimo da natureza, e cabe-nos a nós próprios preservá-la, como que cuidando dum jardim.

The Handmaiden (2016) – Park Chan-wook 

Região: Coreia do Sul

Num mar de pontos fortes, o aspeto que se destaca em The Handmaiden é o storytelling. Pela qualidade, obviamente, mas também pelo seu formato pouco usual. Na base da história está a ambição do Conde Fujiwara, um vigarista, em casar-se com Lady Hideko, herdeira de uma grande fortuna. Para isso aluga os serviços duma ladra, Sook-hee, que se faz passar por criada de Lady Hideko. No entanto, as duas afeiçoam-se uma à outra, e forma-se uma espécie de triângulo amoroso envolto em mistérios.

Esta história, como referi acima, é contada de uma forma peculiar. Tal como em Rashomon de Akira Kurosawa, em The Handmaiden a narrativa é cíclica, voltando a contar a mesma história através de vários pontos de vista. A temática da sexualidade é forte neste filme, manifestando-se através da paixão declaradamente carnal entre Sook-hee e Lady Hideko. Temática essa que é exponenciada pelo constante power play entre ambas as intervenientes. Acima de tudo, este é um filme com muitas identidades, sem, no entanto, assumir alguma. Com elementos de heist, thriller erótico, e emancipação feminina, The Handmaiden é uma agradável amálgama cinematográfica.