“Missão Greyhound” – Intenso Como um Descafeinado

O novo filme de guerra de Tom Hanks, escrito e protagonizado pelo mesmo, navega pelo Apple TV+ e pretende levar-nos numa batalha marítima intensa.

Devido à pandemia mundial que decorre neste momento, muitos planos são feitos e refeitos no que toca à distribuição de filmes para o grande público, seja por alterações de datas ou a procura de outros canais de distribuição. 

“Greyhound” foi um dos filmes que viu os seus planos a serem totalmente alterados. Tendo em vista a estreia nas grandes salas de cinema do Mundo, teve de mudar a sua estratégia e foi adquirido para ser visto através de streaming. Assim, a sua estreia deu-se na Apple TV+ no dia 10 de Julho. 

Escrito e protagonizado pelo adorável Tom Hanks, Greyhound relata a história verídica de uma batalha naval em plena 2ª Guerra Mundial. Liderados pelo Capitão Krause (Tom Hanks), uma frota submarina em alto mar tem de proteger navios de abastecimento de um ataque submarino alemão. Sem qualquer hipótese de auxílio, a frota terá de defender-se e combater o ataque num espaço de 50 horas, até estarem numa área favorável para apoio aéreo. 

Logo desde o primeiro momento até ao seu momento final, “Greyhound” pretende prender o espectador e nunca mais o largar. Carregando de tensão, o filme é, praticamente, uma sequência de acção de 80 minutos, sem deixar muito espaço para o protagonista – ou o espectador – respirar. 

Contudo, toda esta azáfama de acção, contida toda dentro de um submarino, vindo das mãos pouco experientes do realizador Aaron Schneider, faz com que não exista nenhum momento em especial que se destaque e se torne o ponto alto de toda a película. Fica tudo enevoado num turbilhão de adrenalina sucessiva.

Por falar em protagonista, Hanks não é um desconhecido no que toca a trilhar caminhos bélicos. Seja na linha da frente como no “Resgate do Soldado Ryan” ou em negociações tácticas em “A Ponte dos Espiões”, várias são as presenças de Hanks por estas andanças. 

E como o ocorrido em momentos anteriores, Hanks volta a ter uma representação invejável, tornando-se rapidamente a âncora que faz com que o filme não se afunde e o consiga levar a um bom porto. Muitas vezes com apenas pequenos gestos e olhares, ele consegue dar mais profundidade à personagem principal para além do que aquilo que nos é revelado.

Aliás, é neste pequeno ponto que reside a maior falha de “Greyhound” – as suas personagens. Ou, mais propriamente dito, a falta delas. 

A equipa de actores está completa e nenhum se destaca de modo negativo. Porém, o argumento falha redondamente em dar profundidade a qualquer uma das personagens, até mesmo ao nosso protagonista. Seja um mero figurante ou um actor com um papel importante na narrativa, ninguém tem qualquer personalidade por si mesmo, não passando de meros cartões de falas que ajudam a propelar a narrativa. 

Seja pela parte de Hanks ou de Schneider, nenhum teve o cuidado de dar qualquer motivação a nenhuma das personagens. Isto faz com que seja impossível para o espectador criar qualquer empatia para com eles e, de certa forma, termos uma atitude visceral no que toca a preocuparmo-nos com o que estamos a assistir. 

Devido a isto, “Greyhound” não consegue criar um grande impacto no espectador. É, no fundo, como uma chávena cheia de descafeinado – consegue aquecer quem o bebe, e consegue criar um efeito placebo de que está a injetar energia e a ter efeito, mas este efeito não é duradouro e torna-se totalmente esquecível após pouco tempo de ter sido consumido. 

No fim, “Greyhound” consegue entreter, devido à acção constante acompanhada por bons efeitos visuais e uma banda-sonora palpitante.  Porém, nem a presença carismática de Tom Hanks consegue salvar este filme de modo a que se torne razoável o suficiente para ser memorável.