Ator bem conhecido do público português, Pêpê Rapazote aventura-se por terras norte-americanas… e colombianas, na 3ª temporada de “Narcos”.

Narcos

A paixão pela representação foi algo desde muito novo? Há algum filme ou série ao qual se possa atribuir essa paixão?

Não, não é uma coisa de pequeno nem houve qualquer filme ou série em particular. Foi numa determinada altura da minha vida, após trabalhar uns quantos anos como arquitecto, tendo tirado o curso no Porto nas Belas Artes e depois no Campo Alegre, e ainda vivi uns anos no Porto. Depois vim para Lisboa trabalhar como arquitecto, e numa altura digamos que “atribulada” pessoalmente da minha vida um amigo meu sugeriu-me umas aulas de teatro na Junta de Freguesia de Benfica, eu aceitei e vi-me apaixonado e comecei a estudar mais teatro e a fazer teatro amador. Até que um dia apareceu o Francisco Nicholson e entrei numa peça dele chamada “O Lixo” e na estreia ele disse-me: “Aguarda um telefonema meu daqui a 15 dias”. Entrei na minha primeira novela chamada “Ajuste de Contas” e daí seguiram mais peças de teatro, mais papéis em novelas, telefilmes portugueses, entre outros. Cheguei a um ponto em que tinha que tomar uma decisão, continuava na arquitetura ou se levava a profissão de actor “a sério”. Eu sou muito perfecionista e gosto que as pessoas saibam que contam comigo e a certa altura não podia estar a parar com os clientes meses a fio, no que tocava à minha profissão como arquitecto. Por isso apenas posso dizer que foi algo que cresceu naturalmente, não foi nada de sonhos de pequenino, mas até posso dizer que gosto mais da representação, e já fiz um pouco de tudo e gosto de tudo o que fiz. Mas a transição foi com os pés bem assentes na terra não foi nada repentino, não podia largar tudo e só depois pensar em como pagaria a renda.

Dos inúmeros papéis que já teve, seja em filme ou na televisão, há algum pelo qual tenha algum carinho especial? Talvez ao qual até gostaria de voltar?

Voltar não sei, não tenho nenhum papel que me dê essa vontade. A última coisa que mexeu comigo precisamente por chamar ao coração foi o “Pai à Força” que fiz para a RTP, foi um trabalho muito carinhoso no qual trabalhei com 3 miúdos dos quais fiquei amigo, foi muito simpático.
Mas não há nada em particular para além desse, e se calhar não pelos motivos mais artísticos, que me dê o desejo de voltar nenhum papel que me chame mais que os outros. O que mais me chama são os desafios do futuro.

Pai à Força

E agora passando mais directamente ao Narcos, que surgiu apenas após Shameless, a qual comecei a seguir pelo envolvimento do Pêpê, pois pessoalmente prefiro a versão britânica.

Também eu. Claro que também resulta no formato americano, mas como originalmente britânico, o Shameless foi escrito para a classe operária inglesa apelidada de “feios, porcos e maus”. Se bem que é um caso que não resultou com o “The Office” que resultou francamente, mal. É um humor tipicamente inglês o qual é impossível replicar noutro sítio no qual não seja Inglaterra, não dá, e infelizmente os americanos não perceberam isso. Só eles sabem fazer aquilo.

Então e para Narcos, como foi que surgiu a oportunidade?

Foi como todas. Gravei uma audição a pedido do meu agente e de um(a) director(a) de casting e foi enviada e fui escolhido. Simples, democrático, que às vezes não o é, mas no meu caso assim foi e ainda bem que assim foi, caso contrário não estaria lá não é?
[É mesmo Pêpê. Eu ainda me lembro quando foi anunciado a sua partipação em Narcos também foi notícia o Albano Gerónimo aparecer em Vikings, o que foram duas boas notícias para o nosso Portugal.]

Há algum sentimento especial em ser português a conseguir uma oportunidade destas, dada a série ser tão celebrada?

Há sim, é um orgulho e uma vontade grande. Mas há algo que tenho que dizer já e é o seguinte, se no ano passado me perguntassem “o que gostarias de estar a fazer neste momento?” Eu teria respondido: “Ou Narcos, ou House of Cards.”. São duas séries diferentes mas duas da Netflix e eu não podia pedir mais. Calhei em Narcos, uma série que adoro, falada numa língua que adoro e na qual me sinto muito à vontade, quase que parecia um dos três desejos do Génio, “toma lá o Narcos” diria ele.
[Um já está, agora que venha House of Cards.]
Vamos ver.

Shameless

Em termos do processo de trabalho e produção, quais as maiores diferenças entre trabalhar numa série semanal como Shameless e uma série da Netflix, como Narcos?

Há diferenças boas. Desde logo diria que os americanos não brincam. Quando digo não brincam é em sentido lacto, não se brinca entre actores, há um enorme respeito por hierarquia. Já os colombianos são latinos, são como nós. Não é uma balda mas é tudo muito mais aberto e descontraído, isso traz coisas boas e más, mas é como somos, é a nossa natureza latina. Há uma diferença relativamente grande e também diferenças na forma de estar, essas dependendo claro da importância da produção. Há uma expressão norte americana, no meio, a qual é muito verdade e a qual não vou traduzir mas é a seguinte:

“On set, it’s all about the biggest dick. Doesn’t if you can deliver, it matters how big your dick is.”

Ou seja, o meu trailer tem de ser o maior, os meus donuts têm que ter algo em cima, sendo que esse “algo” pode não existir num raio de 100 km, o meu trailer tem de estar a 23.5º certinhos. Há muito disso nos Estados Unidos, uma vez mais, outras vezes menos, mas é uma constante. Quanto mais novos são os actores mais necessidade há de “abanar o pirilau”.
[Até faz parecer que é uma espécie de praxe.]
Sim sim, sejam homens ou mulheres. Digamos que há uma diferença de estar, mas tem tudo a ver com os costumes, escala, pressões, sendo que a pressão é muito comum lá, mas é uma questão de estarmos concentrados em fazer a nossa arte. Mas outra diferença é que, mesmo que não queiramos, é melhor pedir as regalias todas para mostrarmos que somos importantes. Eu sei que parece coisa pouca, até parece mal mas a humildade e simplicidade portuguesa não é bem-vinda nos Estados Unidos. Convém não sermos muito modestos, por mais estúpido que pareça.
A grande diferença é mesmo que os americanos são mais sérios, a hierarquia está bem vincada e muitas vezes os actores vão apalpando um terreno grande. Não há um calor e uma simpatia latina que existe mais em Portugal ou mesmo na Colômbia.
Mas é mesmo apenas uma questão cultural, assim como de escala. Uma produção de escala maior as coisas funcionam de forma diferente.

Numa nota mais pessoal, qual a sua opinião em relação à Netflix como serviço? Sendo que lançam uma temporada inteira de 10, talvez 13 episódios de uma vez, fazendo a cultura do “binge watching” tão popular?

Sinceramente, não sei. Eu ainda estou habituado ao formato semanal como espectador. Por um lado, gostava de acabar um episódio que me deixa com um gancho e dizer: “Bem, vou só à casa de banho e já venho ver o outro.”. Por outro lado, se calhar estou ainda muito agarrado à tradição de acabar um episódio e pensar: “Ai, agora só para a semana, o que será que vai acontecer?” e durante 13 semanas ter esse sentimento.
Sinceramente não sei qual dos dois é o melhor, porque no caso do Narcos não faria sentido, pertence ao produto do streaming, é escusado estarmos a colocar um a um quando já estão todos os episódios prontos. Já me fizeram essa pergunta antes, eu ainda não sei se gosto ainda. É como receber 13 presentes, e talvez seja mesmo essa a ideia, receber presentes de hora a hora, uma mota, depois um carro, a seguir uma viagem à volta do mundo. É a diferença de sensações e saber desfrutar dessas prendas e saber apreciá-las.

Pêpê Rapazote é Chepe Santacruz Londoño

Agora passando à personagem do Pêpê. Como podemos descrever o Chepe Santacruz Londoño? Será ele um vilão ou é daqueles personagens moralmente ambíguos?

Ora bem, ele é tão vilão quanto os outros. Aparece agora na 3ª temporada, sendo que ele era o último dos quatro padrinhos do Cartel de Cáli a aparecer, pois vivia em Nova Iorque. A questão da ambiguidade é sempre muito relativa no universo em que estes personagens vivem. A mentalidade do Chepe é muito “business as usual”, ele pensa muito assim:

“Eu não te mataria se não tivesse que te matar.”

É um bocado isso, eles não são homicidas por prazer, é uma questão de negócios, eles querem defender o seu território e vão defendê-lo com unhas e dentes e a partir daí vêm-se obrigados a matar, não têm muito que se dizer, penso que em todos os negócios elíticos é um bocado assim. Se concordo? Não, discordo totalmente e também nunca quereria essa profissão. O Chepe Santacruz Londoño, é um tipo um pouco diferente dos outros três padrinhos no sentido em que é mais descontraído, muito extrovertido, ou como os americanos dizem, “larger than life”. É um tipo que está bem com a vida, adora aquilo que faz, não é pelos luxos nem por nada, é mesmo por gosto. Gosta de produzir coca, gosta de conviver com os agricultores da folha, ele é o génio da química e alquimia do cartel, é o autor dos melhores cortes de coca que eles têm. Ele tem uma frase que é:

“Eu consegui equilibrar a oferta à procura. Eu consegui finalmente equilibra-la.”

Ou seja ele é o tipo que no fundo criou a toxicodependência, devido ao corte perfeito da folha que conseguiu. Ele tinha um prazer enorme no que fazia, ele vestia-se sempre de forma simples, normalmente de jardineiras, andava sempre com as mãos sujas devido ao trabalho, era muito mulherengo, era muito divertido e tinha uma figura ameaçadora, era um tipo grandalhão e gostava de brincar com isso. Ele sabia que era ameaçador aos olhos das pessoas e adorava brincar com isso, e ameaçava as pessoas só pela partida. Chegava ao pé de uma pessoa que estivesse a olhar para ele e perguntava:

“Estava a olhar para mim? Não estou a perguntar, eu estou a dizer que estava a olhar para mim”.

Fazia isto imensas vezes só para brincar sempre que se apercebia que alguém o reconhecia, abusava da sua posição dominante. Era sem dúvida um tipo muito divertido, mas também extremamente violento, como já era o Pacho Herrera. Todos eles têm de facto um historial violento, tão violento que até às vezes parecia que pensavam no método antes de cometerem o homicídio, já não chegava dar um tiro entre os olhos, tinha sempre que ser algo mais elaborado. A verdade é que nesta temporada, não vemos um décimo desses actos, até porque há livros já escritos, os quais li dois deles, actos e histórias estes que davam um filme cada um. Mas como as duas primeiras temporadas, já sabemos como é que esta malta funcionava, foi um autêntico terror e as pessoas na Colômbia têm muitas memórias muito más destas histórias. Como morreu muita gente, conhece-se sempre alguém que tenha estado directa ou indirectamente envolvido, tanto do lado dos traficantes como do lado das vítimas. É um bocado como o cancro, todos temos alguém ou conhecemos alguém que sabe o que é passar por isso. É um historial horrível que deixou feridas muito grandes e portanto as pessoas na Colômbia não simpatizam muito com este tipo de filmes e séries embora estejam na moda.

E sobre a temporada em geral? Como vai evoluir agora Narcos neste clima de tanta fricção?

Nesta temporada temos 4 personagens muito leais entre si, aconteça o que acontecer, por mais diferenças ideológicas que haja eles mantinham-se sempre unidos. Tal como nós como actores, gostei muito dos actores com que trabalhei, ficamos todos muito amigos e até hoje temos um grupo do Whatsapp no qual ainda falamos todos os dias. No fundo, há muito fogo e muita paixão nesta temporada, vão suceder imensas coisas das quais o público não está à espera. Também existem muitas histórias na narrativa, ao contrário da última temporada. São quatro gajos de sangue quente, com histórias muito diferentes e espectaculares para contar e para serem retratadas, o que vai tornar a temporada mais rica e com menos palha, com muito mais ação e também essa mesma ação mais intensa. Quem sabe e quem viu já disse que esta temporada “is gonna nail it”.

Agora, e apenas se puder dizer. Fora Narcos, há algum projecto que tenha já marcado num futuro próximo?

Não, para já não. Vamos ver o que acontece depois do Narcos chegar mas para já não tenho nada. Já recusei algumas coisas para ver o que se sucede mas não tenho nada.

Eu tinha aqui uma pergunta à qual o Pêpê entretanto já respondeu que seria uma outra série na Netflix, ou não, na qual gostaria de participar. Que já sabemos que é.

House of Cards.

Ora bem então para acabar. Pêpê, em cinco palavras, porque é que esta vai ser a melhor temporada de Narcos?

Como eles dizem no trailer:

“Vai ser muito Cáli-ente.”

Se nós tivemos uma segunda temporada na qual o Escobar estava em fuga, em depressão e angústia, nesta vamos ter power do princípio ao fim.
[Então os trailers não enganam mesmo.]
Não enganam não, vai ser uma temporada muito quente.


A terceira temporada de Narcos estará disponível dia 1 de Setembro na Netflix e nós aqui no Cinema Pla’net estamos ansiosos para que chegue.