Foi com muito prazer que o Cinema Pla’net entrevistou o artista brasileiro Rafael Albuquerque, na Comic Con Portugal, um dos criadores de American Vampire.

Com que idade nasceu o gosto pelo desenho?

Não sei dizer precisamente. Desde que me consigo lembrar sempre gostei muito de desenhar. A minha família tinha alguma relação com isso também: o meu pai era publicitário nos anos 80, desenhava tudo à mão, e a minha mãe era engenheira e teve uma época que fez arquitetura. Desenho foi sempre uma coisa muito presente em casa.

Como foi a experiência na editora egípcia AK Comics, tendo mesmo auxiliado na linha editorial da empresa?

Era uma editora muito pequena, para mim foi uma experiência surpreendentemente incrível! Eu trabalhei uns 2 ou 3 anos com eles e tive a oportunidade de realmente perceber como funcionava um sistema profissional de trabalho. Trabalhava todos os dias com banda-desenhada, como receber, desenhar, colorir, como entregar, como lidar com editores, tudo isso não sabia fazer até à época, e trabalhar com eles deu-me uma noção. Claro que sendo uma editora pequena, não é a DC ou Dark Horse, mas acho que foi um ótimo laboratório. Devo-lhes muito por isso, mas claro que tinham as suas limitações.

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Entre 2005 e 2007, criou a PopArt Studios Comics, trabalhou para a Image Comics, e ainda recebeu um prémio Eisner & Harvey. Como foi essa altura para si?

Formei realmente o estúdio, com o escritor Felipe Ferreira e o Chris Peter que é o colorista. Nessa época, eu e o Felipe queríamos fazer qualquer coisa com banda-desenhada. Acabámos por encontrar na Image Comics um espaço para publicar “Crimeland”, que não teve muita repercussão na época e ainda hoje muitos desconhecem. Mas foi a nossa primeira investida… uma minissérie em 3 partes. Foi uma experiência muito boa, e um trabalho feito mais ou menos na mesma época em que trabalhei com egípcios. Na altura, a Image Comics era diferente, não era a Image de Agra, e foi bom ganharmos essa oportunidade na altura.

Quanto ao prémio Eisner & Harvey, veio muito depois quando fizemos “Vampiro Americano”. Receber esse prémio foi incrível e surpreendente, por muito que esse trabalho tivesse tido muito sucesso, foi o meu primeiro grande trabalho e era autoral e uma coisa nova. Ganhar esse prémio e ser indicado para outros é surpreendente para uma pessoa no meio ainda a começar. Por outro lado não fez grande diferença para o que veio depois, até porque com todos os trabalhos, não os fazemos a pensar que vamos ganhar um prémio.

Organizando o arquivo de 15 anos de carreira.

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Entre trabalhos que fez para a Boom! Studios e Dark Horse, destacou-se mais pelo trabalho que fez para a DC Comics. Como foi trabalhar para essa empresa?

É onde me sinto mais em casa até hoje. É uma editora onde trabalho faz mais de 10 anos e é praticamente só com a DC, à excepção de um ou outro projeto, mas não houve nenhum momento em que não estivesse a fazer algo para a DC. Sinto-me parte da família lá dentro, sinto-me em casa. Muita gente pergunta “Ah pois é, trabalhaste para a Marvel!” – mas fiz muito pouco para a Marvel! Não consigo ter essa mesma relação. Não é que não goste das pessoas da Marvel, pois adoro, tenho muitos amigos lá e gosto de muitas personagens, mas como fiquei tanto tempo com a DC, acabei por me sentir mais próximo deles.

Relativamente a “Vampiro Americano” como foi ilustrar esse trabalho, tendo em conta que foi escrito por Scott Snyder e Stephen King? Sentiu uma responsabilidade acrescida?

O Scott na época não era o Scott Snyder de hoje, e é interessante pois foi um projeto que tanto lançou a minha carreira quanto a dele. Foi o nosso primeiro grande trabalho e foi lindo ver a transformação dele num dos maiores escritores de hoje. Mas quando me disseram que o Stephen King estava envolvido. Fiquei com um bocado de medo, pois era um artista relativamente jovem, tinha feito algumas coisas para a DC, mas nada com aquele estilo. Assim tive uma grande mudança com aquele trabalho, tinha uma liberdade relativa, era também criador da série, que era relativamente autoral.

Foi um projeto que mudou tudo na minha carreira e ter que trabalhar com o Stephen King foi tão surreal quanto uma experiência incrível. Na primeira edição, estava com muito medo, fiquei bloqueado uma época, não sabia muito como resolver algumas coisas, e senti muita pressão por causa disso, mas quando tive a oportunidade de falar com ele por email, tranquilizou-me muito e ajudou-me a sentir mais liberdade e a ter a confiança que precisava. Se a primeira edição foi um pesadelo, a segunda já foi um sonho, pois tornou-se muito mais fácil.

One more time for the last time. #detectivecomics #batman

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Como referiu anteriormente, trabalhou um pouco para a Marvel. Em comics como Uncanny X-Force e Thor Annual certo? Existem personagens da Marvel que gostaria de recriar ao seu estilo?

Na Marvel fiz realmente isso, o Thor Annual foi apenas a capa, não foi nada extenso. Eu não sou tão ligado às personagens. Claro que há várias personagens na Marvel que adoraria fazer, quase todas, tal como na DC. Mas eu preciso de uma boa história, tem de ser um projeto interessante. Por exemplo, o Thor acho super fixe, adoraria fazer uma história dele! Não qualquer história, teria de fazer sentido para mim, teria de ser algo relevante, que foi o que aconteceu na DC por muito tempo.

Eu adoro o Batman, é aquela personagem interessante e importante que todos conhecem. Mas demorou até fazer algo com o Batman, não porque não surgiu, mas porque algumas  vezes recusei. Eram histórias que não iam acrescentar algo à personagem, não ia ser relevante, não ia deixar uma marca.

Tive a oportunidade de fazer uma história para o Batman este ano, Batman All Star, com o Scott Snyder inclusive. A história tem uma importância enorme para o Bruce e para o Alfred. Foi muito importante em temas como a relação de paternidade entre o Bruce e o Alfred. Já noutro exemplo, surgiu trabalhar com o “Animal-Man”, uma personagem interessante. Nada que toda a gente adore e sonhe trabalhar, mas eu aceitei logo! A história era tão boa, o editor era tão bom que quis logo fazer parte desse projeto. É isso que acaba por me atrair ou não para certos projetos. Pode ser a melhor personagem do mundo, mas se a história for má, prefiro não fazer.

Que objetivos tem para a sua carreira nos próximos tempos?

Desenvolver mais projetos pessoais, quero escrever mais do que escrevo atualmente. Não quero parar de desenhar! Quero focar-me em trabalhar mais com outros artistas em projetos que eu estou a escrever.

Há algum projeto do qual gostaria de falar e que ainda não tenha sido mencionado nesta entrevista?

Talvez o meu próximo projeto, pelo qual estou muito empolgado, pois é importante na minha carreira – “A Study In Emerald”. Uma adaptação de um conto de Neil Gaiman, que estou a fazer com o meu colega Rafael Scavone. Eu faço a ilustração e o Dave Stewart trata da cor… é um colorista incrível. Será publicado em Julho e é a oportunidade de trabalhar com o Neil Gaiman, um dos grandes nomes da banda-desenhada, TV e pop culture. Está a ser maravilhoso, porque até tem essa veia do terror. Uma Londres vitoriana, que mistura o universo de Conan Doyle com o universo de Lovecraft. É maluco e assombroso! Estou a gostar muito do projeto, e há outras coisas que serão lançadas este ano ou no próximo.