Com um budget mínimo, Kirill Mikhanovsky realiza este “Liberdade” com uma ferocidade e naturalidade empolgante, ao contar uma história tão mundana quanto surreal.

A sua estreia mundial foi o ano passado em Cannes, mas depois disso pouco se ouviu falar sobre este “Liberdade”. Logo, quando tive a tarefa de vre este filme, não sabia bem o que esperar. Não tinha visto qualquer tipo de conteúdo promocional sobre o mesmo, nem  sabia o enredo. 

liberty 1

De um modo geral, a história até é bastante simples. Em “Liberdade” vimos um dia caótico na vida de Vic (Chris Galust), um condutor de um transporte médico, quando este decide colocar o seu trabalho em risco ao transportar um grupo de russos séniores e um pugilista para um funeral, tal como todos os seus passageiros habituais desse dia. 

A povoar este filme temos um elenco repleto de pessoas que não são actores ou que têm ali a sua primeira tentativa da sua carreira. E a excelente realização por parte de Kirill faz com que ninguém tenha uma má performance, todos encaixam perfeitamente nos seus papéis e nas suas cenas, com naturalidade. Não existem personagens aqui, somente pessoas. 

liberty 2

Mas a grande estrela do filme é mesmo a performance de Lauren “Lolo” Spencer no papel de Tracy, uma mulher com problemas motores mas com um carácter e personalidade capazes de derrubar o Mundo. Mesmo que tenha colocado muito da sua personalidade no papel, o seu talento vibra em cada cena que ela se encontra e pode muito bem vir a ser a estreia de uma estrela em ascensão.

Toda a naturalidade do filme é ainda mais afincada pela forma como o mesmo é filmado e editado. Com todas as cenas a serem gravadas de um modo tremido, com câmara em mão, e uma edição rápida e acutilante. Esta técnica transfere uma realidade ao filme como poucos conseguem, tornando-se num filme cru e sem guião, somente filmando os acontecimentos à medida que acontecem, sem ter mão no desenrolar da história.

Até mesmo em termos de mistura de som é da forma mais real possível, com muitas pessoas a falar ao mesmo tempo, entre gritos e sons de ambiente, numa sinfonia caótica que capta a atenção imediata do espectador. Ao estilo do aclamado “Uncut Gems”, esta abordagem técnica torna este “Liberdade” num semi-documentário de uma vida quotidiana de um trabalhador comum. 

liberty 4

Sendo motivado somente pela vontade de fazer boas acções, aquele dia de Vic torna-se num rodopio de acontecimentos e desastres, muitos deles com uma pontada de humor subtil e discreto, mas sem ter receio de mostrar o drama da realidade. Esta justaposição é bem aparente na divisão do filme em dois – a primeira parte é mais engraçada, com acontecimentos surreais devido ao transporte de tantas pessoas; enquanto que a segunda parte injecta a realidade da sociedade, entre tumultos sociais e violência espontânea. 

Porém, é nesta divisão que reside o ponto mais fraco de “Liberdade”. Apesar do filme nunca perder o ângulo frenético e mirabolante, o caminho que a narrativa toma na segunda parte do filme não é tão empolgante como a da primeira. O drama e a gravidade da situação aumenta drasticamente e perdemos um pouco o contacto com o lado humano tão presente desde o início do filme. 

Numa outra instância, em certos momentos existe um certo exagero por parte da edição desconcertante e uma fotografia demasiado claustrofóbica. Pode até ser um factor de rejeição por parte de certas pessoas que até podem ficar um pouco enjoadas em certos momentos.

liberty 3

Apesar de tudo, “Liberdade” é uma explosão de entretenimento projectado num formato pouco comum para os parâmetros a que estamos habituados. Apesar do contacto do público com a história diminuir à medida que a história prossegue, Mikhanovsky não deixa de nos dar uma lufada de ar fresco num mundo cinematográfico demasiado formulaico.

“Liberdade” está disponível em streaming na Filmin desde 21 de Maio e será posteriormente lançado nos cinemas pela Cinema BOLD.

REVER GERAL
Realização
78 %
Representação
80 %
Argumento
65 %
Montagem
74 %
Fotografia
70 %
Banda Sonora
55 %
Artigo anteriorMichelle Rodriguez para além de “Velocidade Furiosa”
Próximo artigoA tensão aumenta em “La Casa de Papel”
João, 23 anos. Comunicador nato, com um apetite feroz para cinema e música. Quotes de cinema fazem parte do meu vocabulário diário e grande parte das minhas 24h é a pensar em filmes e cultura
liberdade-dia-vida-caotico“Liberdade” é uma explosão de entretenimento projectado num formato pouco comum para os parâmetros a que estamos habituados. Apesar do contacto do público com a história diminuir à medida que a história prossegue, Mikhanovsky não deixa de nos dar uma lufada de ar fresco num mundo cinematográfico demasiado formulaico.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui