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Como ser um bom ladrão cinematográfico – As trademarks de Tarantino

Joel Santiago
  • Março 27, 2018
  • 8 min read
Como ser um bom ladrão cinematográfico – As trademarks de Tarantino

Quentin Tarantino acaba de completar 55 anos de vida, levando já mais de 30 como diretor, produtor e argumentista.

Qualquer artista destemido e irreverente está destinado a ter um elevado número de detratores. É certamente o caso de Quentin Tarantino, mas foi também esta crença inabalável na sua própria visão que lhe providenciou o seu estatuto. Tarantino é essencialmente um rebelde que nunca se conformou com as ”regras” do cinema, e orgulha-se em carregar essa bandeira.

Há géneros cinematográficos, e depois há o género Tarantino. Trata-se dum realizador capaz de pegar num género e torná-lo seu. Django Unchained é um Spaghetti Western, mas mais do que isso é um Tarantino Western. O mesmo vale para as suas versões dos géneros blaxploitation (Jackie Brown) ou máfia (Reservoir Dogs). Em Kill Bill, que é discutivelmente um dos seus melhores trabalhos, chega a juntar 3 ou 4 géneros que acabam por se fundir com uma eficácia só passível de ser atingida por alguém como Tarantino, que é tudo menos subtil nos seus métodos.

TarantinoNão é de estranhar, portanto, que os filmes de Tarantino possuam uma série de caraterísticas que já são consideradas imagens de marca suas. Mesmo em filmes que escreveu mas não realizou, como Natural Born Killers, True Romance ou From Dusk Till Dawn, é fácil encontrar marcas e toques de Tarantino. Após uma análise reflexiva do seu catálogo, a conclusão foi de que há 8 grandes trademarks na sua cinematografia. Abaixo encontram-se 7 destes trademarks, sendo que o outro, as longas cenas de diálogo, contam já com um artigo exclusivamente a si dedicado. Podem lê-lo neste link.

Narrativas não lineares

TarantinoDurante um tempo, todos os filmes realizados por Tarantino possuiam narrativas não lineares. A tradição quebrou-se com o lançamento de Death Proof, sendo que também Inglourious Basterds e Django Unchained foram contados de forma relativamente linear, salvo um ou outro flashback. No seu mais recente filme, The Hateful Eight, o realizador acabou por voltar às origens.

O que está no centro dos filmes de Tarantino são as personagens. Não a história, não as ações, não o espaço nem o tempo, mas as personagens. É delas que parte para o resto, e tudo delas deriva. A narrativa não linear permite criar na audiência um sentimento de excitação e frenezim, e também de atenção constante. Requer que o espectador esteja entusiasmado o suficiente para ligar os pontos, mas sem ao mesmo tempo deixar de o motivar para tal. Tarantino tem tanto conhecimento da audiência como tem do próprio cinema, e um dom de transmitir adrenalina como ninguém.

Glamorização da violência

A principal razão pela qual Tarantino tem sido tão desprezado pela academia é o seu estilo ousado de fazer cinema. Muito disto pode ser explicado pela maneira como encara a violência e a usa nos seus filmes. É uma pessoa que não tem medo e acredita que é possível pegar em barbaridades e dizer – ‘Eu consigo fazer arte disto!’. E a verdade é que consegue. Olhamos para a batalha de Beatrix Kiddo contra as Crazy 88 e O-Ren Ishii, ou o tiroteio em que Django parte contra o mundo na propriedade de Calvin Candie, e torna-se impossível negá-lo.

Um tema recorrente (mais sobre isso no 4º tópico) nos seus filmes é a utilização de Mexican Standoffs. Estes estão intimamente ligados à cultura violenta dos filmes de Tarantino, em que é raro encontrar alguém sem uma pistola, uma espada, uma caçadeira… ou um taco de basebol.

Bandas sonoras peculiares

TarantinoAs soundtracks dos filmes de Tarantino dão só por si uma bela história. Que ele é uma enciclopédia de cinema já nós sabemos, mas o seu conhecimento musical também é positivamente assustador. E rebuscado, muito rebuscado. Desde utilizar David Bowie num filme passado durante a 2ª Guerra Mundial a servir-se de uma música alegre como ”Stuck in the Middle With You” durante uma cena de tortura, passando pelo extravagante uso de hip-hop ao longo de Django Unchained, que tem lugar no século… 19, Tarantino é um experimentalista.

Para o diretor, a música não precisa de se adequar ao ambiente, e muito menos à história. Precisa sim, de se adequar às emoções que quer passar à audiência. É por isso que, a título de exemplo, Django dá numa de atirador ao som de 2Pac. O objetivo é passar o sentimento de rebeldia. Uma palavra para Ennio Morricone, que contribuiu (e muito) para a qualidade hoje reconhecida às soundtracks dos filmes de Tarantino. Temas como The Braying Mule ou Rabbia E Tarantella estão intimamente ligados aos seus filmes.

Temas Recorrentes

Há uma data de recorrências comuns ao longo de toda a filmografia de Tarantino. É difícil não reparar nelas. Talvez as mais evidentes sejam o recurso frequente a cenas (principalmente diálogos) passadas em carros e restaurantes/bares, cenas de dança exóticas, cenas de tortura, e a sua fixação por pés femininos. Reza a lenda que escreveu From Dusk Till Dawn só por causa da famosa cena com Salma Hayek.

Temos de dizer as coisas como elas são, Tarantino é mestre na arte da criação de settings e cenários.

Técnicas de câmara

A minuciosidade dos métodos de trabalho de Quentin Tarantino estende-se igualmente às técnicas de filmagem de determinadas cenas. Técnicas como a filmagem a partir da mala de um carro num ângulo baixo, o Crash Zoom (aproximação a um alvo através de um zoom repentino) ou o God’s Eye (filmagem com a câmara diretamente acima dos personagens), são marcas assíduas na sua filmografia.

Há, obviamente, um propósito que motiva estas técnicas… com exceção feita à primeira, segundo a palavra do diretor. Com o God’s Eye, Tarantino passa a ideia de que algo maior está a observar as personagens e respetivas ações. O Crash Zoom leva o espectador a focar-se unicamente no elemento visual que o realizador quer que ele foque. Já em relação à filmagem feita através da mala, Tarantino diz simplesmente que não tem mais sítio para colocar a câmara. A verdade é que, mesmo tendo isso em conta, o ângulo baixo providencia uma certa superioridade às personagens que estão a ser filmadas.

Inspiração em filmes de culto

As referências de Tarantino à cultura pop e principalmente a filmes antigos, (maioritariamente dos anos 60, 70 e 80) são demasiadas para contar. As suas influências apresentam-se de formas absolutamente transversais nos seus filmes, desde a banda sonora até aos trajes das personagens. Olhe-se, por exemplo, para as semelhanças entre a caraterização de O-Ren Ishii, e a de Lady Snowblood no filme do mesmo nome de 1973. Aliás, muito do que é a premissa de Kill Bill foi retirado do filme de Toshiya Fujita.

Nunca foi pessoa de esconder que o faz, orgulhando-se até de certa forma das coisas que vai buscando a filmes de culto. O que dá identidade ao trabalho ao Tarantino é a maneira como mistura todos estes bocados de cinema que captura daqui e dali. Se quiserem descobrir alguns dos filmes que influenciaram Tarantino, leiam este artigo do British Film Institute.

Universo partilhado

Tarantino
Os irmãos Vega. Vincent à esquerda e Victor à direita.

Durante muitos anos se especulou que os filmes de Tarantino estariam ligados, até que o realizador confirmou finalmente as teorias. No entanto, entre todos estes tópicos, talvez este seja o que possa passar mais despercebido.

As ligações entre os filmes do realizador são feitas através de certos produtos/marcas fictícias neles presentes, assim como relações entre personagens de filmes diferentes. A mais famosa destas relações é a dos irmãos Vega, Vic (Reservoir Dogs) e Vincent (Pulp Fiction). No que diz respeito às marcas fictícias, as mais marcantes são os cigarros Red Apple e o Big Kahuna Burger.

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