À Espera dos Bárbaros | Um caso de raro de um filme melhor que o livro

Ciro Guerra aproveita o melhor da obra “À Espera dos Bárbaros” e acrescenta toda uma componente humana e política.

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Mark Rylance, Johnny Depp e Robert Pattinson formam o trio protagonista do filme.

Passou praticamente despercebido nos cinemas portugueses (menos de 200 espectadores no total da sua exibição), mas acredito que será amplamente descoberto quando chegar ao video on-demand, canais TVCine e plataformas de streaming, pelo forte elenco protagonista composto por Rylance, Depp e Pattinson.

“À Espera dos Bárbaros” é o raro caso de um filme que supera a obra literária da qual é adaptado e neste caso, um livro escrito pelo prémio Nobel da Literatura J.M. Coetzee, autor de “Desgraça” (também adaptado ao cinema em 2008, por Steve Jacobs, com John Malkovich).

O que torna o filme melhor que o livro é muito simples de explicar. O livro é demasiado ‘nombriliste’, o protagonista olha apenas para o seu umbigo e o leitor é assolado por todo um conjunto de pensamentos expletivos, incluindo vastas descrições de cariz sexual relativamente às personagens femininas, que pouco acrescentam à história.

Por sua vez, o conceituado realizador colombiano Ciro Guerra (“O Abraço da Serpente”, “Pássaros de Verão”) pega nos elementos mais interessantes do pano de fundo imperialista e colonialista, para um filme forte sobre a moral humana, o altruísmo, as decisões políticas e as forças da ordem.

Mark Rylance interpreta um magistrado colonial num pacato posto-avançado fronteiriço do Império, confrontado com atitudes violentas extremamente questionáveis por parte de um coronel (interpretado por Johnny Depp) contra camponeses indefesos, numa tentativa de obter informações sobre uma possível invasão bárbara.

Os inúmeros paralelos com a situação geopolítica atual, das invasões no Médio Oriente às guerras civis em África, são o grande ponto forte de “À Espera dos Bárbaros”, que avança lentamente mas sempre em crescendo, expondo como constantemente decisões irracionais e simplistas das grandes potências mundiais estão na origem dos problemas que mais tarde os vêm assolar.

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