Em ano de grandes estreias cinematográficas, o mundo geek prepara-se, com grande expetativa, para ver personagens como Deadpool ou Harley Quinn pela primeira vez no grande ecrã.

Esta expetativa é acompanhada de um receio, por vezes terror, de ver as nossas personagens favoritas destruídas pela grande indústria, adaptadas à cultura massificada e destituídas da sua individualidade. Tentando proteger-me da desilusão, raramente vejo séries ou filmes que se baseiem em personagens que eu conheço de outras produções, comummente de comics, novelas gráficas, ou livros.

Não quero passar a mensagem errada, obviamente que há adaptações de grande qualidade e importância.

Aliás, a mudança é essencial para manter uma personagem viva ao longo de décadas. Honestamente não sei precisar a quantidade de vezes que a história do Batman foi reescrita, tanto em comics, como em filmes ou séries de animação, onde há mais liberdade e possibilidade para fazer alterações do enredo e das personagens. É melhor não recordar as adaptações cinematográficas do melhor detetive do mundo, talvez noutra ocasião lhe possa dedicar mais tempo e comentário. Falarei aqui da “Wonder Woman” (Mulher Maravilha), que segue o mesmo estilo de reboot no universo da DC Comics. Fará a sua estreia em cinema ainda este ano, em meados de março, no filme Batman vs Superman: o Despertar da Justiça.

Wonder Woman
Gal Gadot como “Wonder Woman” (Mulher Maravilha)

É puramente imbecil pensar que se poderia manter uma personagem criada na primeira metade do século XX imutável ao longo dos anos.

Não podia concordar mais com esta afirmação. O tempo passa, a sociedade muda, as pessoas adaptam-se à nova realidade sempre em mudança e tudo se reflete na arte e na cultura. Sou apologista de uma estreita relação entre o panorama sociocultural e a criação artística e creio que me encontro correta neste aspeto. Desta maneira, era impossível manter uma personagem inalterada, e com ela, todo o plot envolvente. Por isso compreendo as alterações feitas à Princesa de Temiscira a nível de vestuário, aparência e de armas de defesa. Até a alteração profunda das suas origens pode ser brevemente ignorada.

Mas quando transformam uma emissária da paz numa assassina a sangue frio, desrespeitam tudo o que a personagem alguma vez representou. Refiro-me à versão de Azzarello no New 52, possivelmente dos universos mais odiados pelos fãs de DC Comics.

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Strip de um comic do New 52

Apesar das adaptações televisivas feitas da personagem ao longo do século XX, especial atenção para a série dos anos 70 protagonizada por Lynda Carter, não havia ainda registo cinematográfico relevante do terceiro membro da DC Trinity. Com o anúncio de um filme sobre as origens da guerreira amazona para 2017, a especulação sobre a versão correta a usar começou. Para uma alargada e completa tese sobre o terror de muitos fãs no uso das origens do New 52 da Mulher Maravilha, sugiro a leitura deste artigo, em língua inglesa, de uma fã, que tem milhares a apoiar o seu desagrado.

Lynda Carter interpretou “Wonder Woman” de 1975 a 1979

Depois de ser confirmado o uso das origens do New 52, a confusão foi geral entre os fãs da Wonder Woman clássica. O terceiro elemento da Trindade, na versão clássica, nascia de uma estátua de barro a quem os deuses (dependendo das inúmeras versões, deusas e deuses diferentes são apontados) davam vida e poderes extraordinários. Diana, filha de Hipólita, era uma emissária da paz no mundo dos homens, criada e treinada pelas Amazonas. O New 52 transforma a Wonder Woman na filha ilícita de Zeus e da Rainha das Amazonas, treinada por Ares.

A versão de Azzarello é considerada misógina.

Abstenho-me de comentar. Não li os comics por ele assinados e não quero basear a minha opinião no descontentamento geral. No entanto, do pouco a que consegui aceder, pouco ou nada reconheci da Mulher Maravilha. Vou desvalorizar a mudança no fato e nas armas por ela usados. Acho que o New 52 peca pela atitude e personalidade que impõe à que, em tempos foi, pelo menos numa versão, Deusa da Paz.

Wonder Woman
Gal Gadot como Mulher Maravilha

Mas o descontentamento dos fãs não se prende apenas pelo aspeto New 52. A escolha da atriz para desempenhar o papel foi, e é, muito criticada, não pelo talento da atriz, mas pelo seu aspeto físico. Confesso que a princípio fiquei desiludida pois queria Jaimie Alexander ou Bridget Regan para o papel. Mas, neste momento, é a menor das minhas preocupações em relação ao filme.

De alguma maneira, as palavras da direção do filme, Patty Jenkins, tranquilizam-me. Quando fala da adaptação cinematográfica ela ressalva que apesar de a personagem ser amável e ter bom coração, isso não afeta a intensidade do seu poder de maneira alguma. Acho que podemos ter esperança. Esperemos que a DC consiga não anular a magia que a princesa das Amazonas tem para os fãs que repudiam o New 52. Julgo que a opção mais equilibrada seria adotar uma miscelânea coerente das origens da personagens, homenageando todas as versões e escritores da personagem.

Embora esta estreia no grande ecrã possa ser considerado um grande passo em relação à luta feminina pela igualdade, penso que, primordialmente, o filme dedicado à princesa amazona é um direito conquistado por mais de 70 anos de história.

Batman-V-Superman-Wonder-Woman-vs.-DoomsdayQuando em Dezembro de 1941 William Moulton Marston, que assinava como Charles Moulton, deu ao mundo a Mulher Maravilha, talvez não antevisse a importância que Diana viria a ter no panteão da DC Comics. Aliás, a DC Comics era ainda inexistente, fruto da união de algumas empresas dedicadas às revistas aos quadradinhos. Quando lhe foi pedido que criasse o seu próprio herói, Marston tinha claramente ideias revolucionárias. O seu objetivo era criar um novo tipo de herói, um cuja capacidade de amar fosse superior à de espancar, alguém que triunfasse com amor e não com o poder dos punhos. Assim apresentado, pode parecer um pouco idealista, romântico e irreal. Simplifiquemos. A sua intenção era criar uma personagem que passasse uma mensagem de paz. A sua mulher sugeriu que tornasse a personagem feminina.

“Fine,” said Elizabeth. “But make her a woman.”

Havia a intenção de influenciar o panorama social a partir da personagem, tendo ele afirmado que a sua princesa amazona representava a maneira como ele desejava que as mulheres fossem vistas na sociedade, livres, independentes e poderosas. E é apenas isto que os fãs dos comics pedem, que a essência da personagem não se perca.

“Not even girls want to be girls so long as our feminine archetype lacks force, strength, and power. Not wanting to be girls, they don’t want to be tender, submissive, peace-loving as good women are. Women’s strong qualities have become despised because of their weakness. The obvious remedy is to create a feminine character with all the strength of Superman plus all the allure of a good and beautiful woman.”                       

William Moulton Marston

 

Hera, dá-nos força.

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