CinemaClássicosCríticas de CinemaDestaquesMatérias Especiais1977, “Annie Hall” – Uma ode ao Amor e aos Infelizes

Em 1977, um tal, quanto ou tanto genial, Woody Allen redefiniu a noção de comédia romântica moderna com o não menos brilhante Annie Hall.
Ezequiel Fumega Ezequiel FumegaMar 24, 2020
Realização
Woody Allen
Elenco
Woody Allen, Diane Keaton, Tony Roberts
Estreou a
30 MAR 1978 (Portugal)

Em 1977, um tal, quanto ou tanto genial, Woody Allen redefiniu a noção de comédia romântica moderna com o não menos brilhante Annie Hall.

Vencedor de quatro Óscares da Academia, esta comédia dramática americana, embora datada dos anos 70, é a pintura ainda fresca das relações amorosas na nossa sociedade.

Provavelmente pela primeira vez, com este impacto na grande tela, vemos uma relação, com tanto de urbana como banal, fracassar devido à psicologia neurótica dos seus intervenientes. O obstáculo à relação amorosa não é mais externo, mas é antes fruto da tumultuosidade mental dos seus amantes – eis a nossa definição moderna de comédia romântica.

Esta comédia de travo amargo, co-escrita (mérito também para Marshall Brickman), realizada e protagonizada por Allen, conta-nos a história de Alvy Singer, um publicamente reconhecido humorista nova-iorquino, judeu, que faz psicanálise há mais de 15 anos, mas que desde criança, quando descobriu que o Universo está em constante expansão, se sente deprimido, desconfiado e desajustado da sociedade. Alvy, depois de dois casamentos fracassados, apaixona-se por Annie Hall, uma ingénua aspirante a cantora que se preocupa mais com fotografia, poesia e viver a vida do que com a infelicidade da morte.

Como pano de fundo destas duas formas de encarar a vida e a morte, temos, por um lado, uma Nova-Iorque suja, muitas vezes nublosa, stressada e consequentemente nervosa, que Alvy teima em não abandonar a todo o custo. Por outro lado, uma Los Angeles limpa, solarenga, cidade do sonho e do entretenimento, para a qual Annie se muda à procura de impulsionar a sua carreira.

“Não quero viver numa cidade (Los Angeles) onde a única vantagem cultural é poder virar à direita num sinal vermelho.” (Alvy Singer in Annie Hall)

O nosso humorista nova-iorquino tem uma aversão a Los Angeles, em particular, que é facilmente compreendida com a aversão mais holística que tem do mundo televisivo e do entretenimento. Se levarmos à letra, em termos rodoviários, o que Alvy diz de Los Angeles, sabe a realmente muito pouco o que cidade tem para nos dar. Contudo, se pensarmos na morte como o “sinal vermelho” e o “virar à direita” como a curva que a arte e o entretenimento nos permitem dar à inevitabilidade da morte, compreendemos com maior profundidade a aversão do nosso pessimista personagem.

“Alvy, tu és incapaz de gozar a vida. És como Nova Iorque. És só esta pessoa, és como uma ilha auto-contida.” (Annie in Annie Hall)

Numa última tentativa de reatamento da relação por parte de Alvy, Annie descreve-o, à imagem de Manhattan,  como uma ilha auto-contida, que arrasta e condensa em si os problemas do mundo e o stress que daí advém, como uma bolha de frenetismo e depressão, que o torna incapaz de relaxar e gozar a vida – ora não fosse Manhattan o caroço da Grande Maçã que nunca dorme.

“O que é que querem? Foi a minha primeira peça. Sabem como é querer que as coisas saiam perfeitas na arte porque é bem mais difícil na vida.” (Alvy Singer in Annie Hall)

Após essa tentativa falhada, em que cada um procura, desse momento em diante, seguir com a sua vida, Alvy dirige a sua primeira peça, num tom autobiográfico em que procura dar um final feliz à sua história com Annie, juntando os cacos que sobraram da sua ex-relação partida. Numa das muitas vezes que aborda o espectador, fixando os olhos na câmara, Alvy diz-nos claramente que a arte nos serve como uma espécie de consolo escatológico para uma vida fatalmente complicada, onde podemos, finalmente, colocar a perfeição e o final feliz dos quais a vida teima em privar-nos.

As performances dos dois atores que protagonizam as personagens principais deste filme são absolutamente incríveis. Num lado do ecrã, o deprimido e demasiadas vezes tenso Alvy Singer, interpretado pelo próprio Woody Allen (nomeado para Óscar de melhor actor) que dificulta o devaneio de imaginar outro ator a incorporar o stress e a neurose de forma tão cómica. No outro lado do ecrã, temos uma fantástica Diane Keaton (vencedora do Óscar de melhor atriz) que nos traz o charme e a inocência a uma ambiciosa e doce Annie Hall – condimentos chave na relação de proximidade e afastamento com Alvy e tempero essencial do nosso filme.

A realização faz enorme justiça às personagens e ao seu filme. O semblante com que Los Angeles e, principalmente, Nova Iorque são percepcionadas através da lente e a forma como a urbanidade e mundanidade estão constantemente presentes quer na rua, quer na fila do cinema, ou até mesmo em cima da cama com a luz vermelha do candeeiro, são criadas e capturadas é uma amostra do génio de Woody Allen (vencedor do Óscar de melhor realizador).

Falando no génio de Allen, urge apontar, a titulo de curiosidade, as similitudes entre personagem e criador. Alvy, um cómico de Stand-up que escreve piadas para programas de televisão, americano, judeu e com dois casamentos fracassados. Woody Allen, um dos maiores realizadores da História do Cinema, que se tornou conhecido pelo seu humor, pela sua comédia de Stand-Up e pelas suas redações para comédias televisivas, também ele judeu e divorciado duas vezes, antes de produzir o filme.

No entanto, Allen negou ao longo do tempo qualquer visão autobiográfica do filme, quando confrontado, em inúmeras vezes, com o tema. Ainda assim, não deixa de ser interessante notar que Alvy acaba o filme produzindo uma peça de teatro baseada na sua história com Annie Hall. Posto isto, será totalmente descabido que Annie Hall (o filme) seja, também ele, um retrato autobiográfico do nosso estimado realizador?

Neste jogo de realidade e ficção o que se torna perentoriamente evidente é as munições cómicas do Stand-Up que Allen, através da voz de Singer, traz para o filme. O seu ritmo frenético e nervoso é pautado com os disparos de piadas, umas mais curtas, outras mais secas, mas todas, na sua maioria, desconcertantes e francamente atuais.

É Alvy quem nos orienta, logo no início do filme, sob a batuta de duas conhecidas piadas, de forma a entendermos a sua visão da vida, da morte e do seu relacionamento com as mulheres, ao longo do filme.

“A anedota é antiga. Duas velhinhas estão numa estância de férias. Uma diz: “A comida aqui é completamente horrível”. E a outra: “É. E as doses são tão pequenas”. É assim que me sinto em relação à vida.” (Alvy Singer in Annie Hall)

A primeira, como acaba por explicar, está relacionada com a forma como Alvy vê a sua própria vida – a ambiguidade de ser uma vida cheia de solidão e infelicidade e de, ainda assim, haver um sentimento de fugacidade, por terminar demasiado depressa.

“Nunca faria parte de um clube que deixasse entrar alguém como eu como membro.” (Alvy Singer in Annie Hall)

A segunda explica o relacionamento com as mulheres ao longo da sua vida, do qual resultou dois divórcios – a ideia de que as mulheres que o aceitam, terem elas mesmas, necessariamente, problemas para aceitar um Alvy problemático.

Esta visão deprimida, pessimista e fatalista da vida e da relação entre as pessoas, guia-nos ao longo do filme numa espécie de auto-sabotagem cíclica de Alvy nos seus relacionamentos. Alvy e Annie necessitam um do outro tanto quanto se complicam um ao outro. Mesmo após o término, ficam resquícios de uma relação que pouco de saudável teve, mas que ambos recordam como “velhos tempos”.

Perto do fim, Alvy deixa-nos uma última piada orientadora:

“Lembrei-me daquela velha piada, do tipo que vai ao psiquiatra e diz: Doutor o meu irmão pensa que é uma galinha. E o médico diz: “Porque não o interna?”. E ele responde: “Até o internaria, mas preciso dos ovos.” (Alvy Singer in Annie Hall)

As relações são, segundo Alvy e a sua experiência, totalmente irracionais, loucas e absurdas, mas todos nós aguentamos porque precisamos dos “ovos”. Estes ovos são mais do que os obviamente biológicos, numa relação homem-mulher – são o fruto das relações, como se o sofrimento e o amor fossem curvas e contra-curvas de uma estrada que inevitavelmente tem de chegar ao fim, mas que pode ser mais ou menos acidentada ou divertida pelo caminho.

Não é de estranhar quando vemos Annie Hall, nos dias de hoje, reconhecermos prontamente algumas piadas em outros filmes, ou séries televisivas. Recordo-me, a titulo exemplificativo da passagem em que Alvy pede a Annie que lhe dê o seu primeiro beijo, enquanto se dirigiam para o restaurante, para não terem de lidar com isso, depois do jantar, enquanto fazem a digestão. Essa mesma piada foi utilizada de forma brilhante em How I Met Your Mother.

Deixo outro exemplo, ainda mais claro. Hoje é amplamente reconhecido, com todo o mérito, o génio de Phoebe Waller-Bridge e a sua fenomenal série cómica televisiva – Fleabag. No entanto, percebe-se de imediato que aquelas saídas de cena em que Phoebe aborda diretamente o espectador através da câmara, assim como o estilo frenético e compulsivo de humor, emparelhado com a neurose auto-destrutiva da personagem, bebem diretamente de Woody Allen. Allen definiu não só a comédia romântica moderna como estabeleceu o estandarte de qualidade para o género. Fleabag foi uma lufada de ar fresco em 2016, agora imaginem Annie Hall em 1977. 

“Annie Hall” estreou em Portugal a 30 de Março de 1978 e encontra-se disponível em DVD.