CinemaCríticas de CinemaDestaquesSem categoria“Bombshell: O Escândalo” – O caos da Fox News

Nomeado a 3 Óscares, "Bombshell: O Escândalo" estreou nos cinemas a 23 de janeiro. Charlize Theron, Margot Robbie e Nicole Kidman formam o trio protagonista.
João Magalhães João MagalhãesJan 27, 202064/100
Realização
Jay Roach
Elenco
Charlize Theron, Margot Robbie, Nicole Kidman
Data Estreia
23 JAN 2020
Overall Score
Rating Overview
Realização
50%
Interpretação
85%
Argumento
80%
Cinematografia
40%
Banda Sonora
70%
Edição
60%
Rating Summary

Nomeado a 3 Óscares, “Bombshell: O Escândalo” estreou nos cinemas a 23 de janeiro. Charlize Theron, Margot Robbie e Nicole Kidman formam o trio protagonista.

 Há filmes que me fazem questionar o quão horrível o ser humano pode ser. Filmes como “Spotlight” ou “12 Years a Slave” demonstram pessoas numa posição de grande poder que abusam do seu estatuto para se aproveitarem de outras pessoas. Histórias destas são relevantes e precisam de ser discutidas, ainda mais hoje em dia numa sociedade tão alheia e isolada perante os problemas do mundo.

 É neste registo que surge “Bombshell: O Escândalo”. Baseado numa história real, o filme retrata o escândalo da rede de jornalismo da Fox News cujo ex-presidente Roger Ailes foi acusado de assediar várias jornalistas da empresa. O filme conta com três nomeações para o Oscar de Melhor Atriz, Melhor Atriz Secundária e Melhor Maquilhagem e Cabelos.

 É no elenco que o filme se destaca. John Lightow impressiona como Roger Ailes, de tal forma que sempre que ele entrava em cena eu sentia repulsa por ele. John carrega a postura de um homem asqueroso que assedia as suas funcionárias sob a justificativa de que jornalismo televisivo é uma “media visual”. Nicole  Kidman também está muito bem como Gretchen Carlson, uma mulher que durante anos foi assediada e pretende impedir o seu ex-patrão de continuar a aproveitar-se de mais mulheres. Além disso, ela também discute a necessidade e urgência de usar o poder para transmitir boas mensagens, contudo, mais  uma vez vemos que quem está no poder prefere utilizar esses meios para proliferar no número de espetadores ao invés de discutir o que realmente importa.

 É impossível falar deste filme sem comentar as performances de Charlize Theron e Margot Robbie, afinal de contas, ambas contam com uma nomeação à estatueta dourada. Estas não desapontam. Margot Robbie demonstra muito bem a incerteza de uma mulher cujo sonho de vida é obliterado ao descobrir as verdadeiras intenções de quem o governa. Por outro lado, a personagem de Charlize, Megyn, encontra-se dividida. Apesar de ter sido assediada, a sua carreira bem sucedida levou-a a conformar-se com o seu patrão e desta forma esquecer o que ele lhe fez. Porém, após Gretchen acusar Roger, Megyn relembra-se do que ele lhe fez e decide lutar contra isto.

O primeiro ato do filme apresenta Megyn e Roger como amigos. Nas suas conversas vemos confiança por parte de Megyn e amizade por parte de Roger, sem intenção de algo mais. Assim sendo, a mudança de atitude de Megyn perante os atos de Roger apresenta um dos temas mais importantes do filme. Infelizmente muitas vítimas de assédio acabam por se conformar com o problema, seja porque isso lhes trouxe algum falso benefício, ou porque simplesmente nunca conseguiram admitir o problema e desta forma preferem fingir que tal nunca aconteceu. Apesar de uma mudança de caráter abrupta, esta personagem demonstra mais camadas do que qualquer outra neste filme e abre espaço para uma discussão muito relevante para a nossa sociedade.

O realizador Jay Roach aborda esta história quase como uma reportagem. Isto é conseguido através de técnicas como rápidos zooms na cara das protagonistas para intensificar momentos de revelação, e também com a quebra da quarta parede. Se por um lado esta linguagem consegue dialogar com a natureza de uma reportagem televisiva (algo importante ao coração da história), por outro o realizador nem sempre se mantém fiel a este estilo. Isto é inerente na cinematografia do filme responsável pelo Cinematógrafo Barry Ackroyd cujas cores limpas e estética abrangente não dialogam com a crueza de uma imagem documentalista, o que acaba por quebrar a imersão do filme.

 “Bombshell: O Escândalo” entrega uma história importante cujos temas precisam ser relembrados e discutidos. O elenco é ótimo, a realização podia ser melhor, mas a mensagem é forte o suficiente para gerar uma discussão relevante à sociedade de hoje em dia.