“Capone” – Potencial Desperdiçado

Primeiro filme de Josh Trank em 5 anos, depois dos desaires de produção de “Quarteto Fantástico”, “Capone” infelizmente é puro potencial desperdiçado.

 Escrito, realizado e editado por Josh Trank (Chronicle, Fant4stic), “Capone” baseia-se na história real de Al Capone, um gangster italo-americano, co-líder do grupo de máfia Chicago Outfit. Em 1931 o gangster foi condenado a oito anos de cadeia, nos quais contraiu sifilis, desenvolveu tuberculose e apresentou sinais de distúrbio mental. A história do filme passa-se após o seu tempo na cadeia, relatando o seu último ano de vida.

 Capone, interpretado por Tom Hardy (Dunkirk) começa o filme em torno da sua família. Debilitado, ele começa a ter alucinações que envolvem os seus tempos de glória como gangster, e uma possível fortuna que este havia deixado escondida ainda que não se lembre do local. Enquanto isso, parte da sua família a par de um grupo de detetives, investiga Capone para conseguir encontrar a sua fortuna.

 Desta forma o realizador Josh Trank apresenta um conceito interessante e diferente para o género de filmes de máfia. Se normalmente o espetador acompanha o criminoso no seu auge, como é exemplo o filme “Goodfellas”, nesta produção Capone é retratado durante a sua época mais frágil. Assim sendo, o realizador apresenta um estudo de personagem sobre um homem débil atormentado pelos seus tempos de glória e pela incerteza da sua mente.

 Desta forma o argumento do filme passeia entre as alucinações de Capone e a busca pela sua fortuna, criando aquele que talvez seja um dos, senão o primeiro, filme de máfia psicadélico.

 Se o conceito é interessante, a execução por outra lado fica muito aquém do seu potencial. As várias histórias do filme parecem não conversar uma com a outra de forma eficiente. Se por um lado as alucinações de Capone são visualmente interessantes e confusas o suficiente para me manter na expetativa de adivinhar o que está a decorrer, o argumento e direção do filme nunca levam a uma resposta, seja ela narrativa ou emocional. Estas visões de Capone são quase uma montagem sensorial. Lembrou-me imenso de cenas como a sequência da festa no filme “The Shining” (Stanley Kubrick), contudo se as alucinações no filme de Kubrick refletem a narrativa da personagem e o ambiente que a rodeia, no caso de Capone, estas parecem não ter um grande propósito na construção da protagonista.

 O declínio de Capone não só se torna confuso como também ofusca tempo de antena para personagens possivelmente mais interessantes. “A busca pela fortuna do líder de máfia” seria possivelmente um filme muito mais interessante, contudo as personagens em busca do seu dinheiro são reduzidas a uma ou duas cenas, sem qualquer peso ou ameaça perante o protagonista.

 A interpretação de Tom Hardy é boa, mas nada de espetacular. A transformação física é incrível e o departamento de maquilhagem e efeitos práticos do filmes está de parabéns. O ator cuja face parece deformada, move-se e fala como se estivesse numa constante degradação. Isto funciona por boa parte do filme se bem que o ator, isto penso que seja culpa do argumento, leva a sua performance a extremos um tanto desnecessários, que criam cenas cómicas que se tornam muitas vezes fora de contexto e desconfortáveis.

 A edição do realizador é absurdamente fraca. Além de várias cenas de diálogo serem cortadas de forma frenética entre shot reverse-shot, a montagem do filme entre as visões e a busca pela fortuna torna-se extremamente confusa. Cheguei várias vezes a pensar que certas cenas estavam mesmo a acontecer sendo que na verdade era tudo um delírio de Capone, o que poderia resultar caso a personagem fosse desenvolvida o suficiente para que isso fizesse sentido e eu me preocupasse com ela.

 “Capone” é um filme péssimo. Infelizmente a boa interpretação de Tom Hardy não chega para suportar uma produção de conceito interessante e um resultado fraco. Após “Fant4stic” sempre torci para que Josh Trank encontrasse o seu lugar em Hollywood. Nenhum realizador merece ter a sua visão distorcida pela interferência de estúdio, tal como aconteceu nessa produção. Isto decerto teve um grande impacto em Trank visto que em “Capone” o cineasta não só realizou, como também escreveu e editou o filme, tomando assim o controlo total que não teve no passado. Ainda assim, não consegui gostar do seu novo filme, e sem ter visto o seu primeiro trabalho “Chronicle”, a sua filmografia fica para mim com saldo negativo.

“Capone” está disponível nos cinemas e para aluguer na Amazon Prime.