DestaquesEntrevistasLet's TalkDirector’s Profile – Sam Voutas

É Outubro de 2017 e eu encontro-me num hotel em Mayfair no centro de Londres para trocar umas palavras com o realizador Sam Voutas que se encontra na cidade para promover o seu filme "King Of Peking". 
Set 25, 201811 min

É outubro de 2017 e eu encontro-me num hotel em Mayfair no centro de Londres para trocar umas palavras com o realizador Sam Voutas que se encontra na cidade para promover o seu filme King Of Peking.

Quando vi este filme fiquei bastante surpresa pela escolha não só do local mas também a lingua e actores. Porque este realizador que nasceu na Australia e filho de pais gregos escolheu fazer um filme sobre e situado na China nos anos 90?

Eu fui criado na China nos anos 80 e quando eu era apenas um miúdo nos anos 90 havia estes cinemas ao ar livre, cheios de memórias e este filme é bastante pessoal para mim como se fosse uma especie de viagem á minha infância.

E que filmes o inspiraram nesses anos que viveu na China?

Foi uma época muito interessante de se viver na China (risos) porque não passavam quaisquer filmes do Ocidente então a memória que tenho é de eu com 11 anos de idade sentado lá fora a ver filmes projectados num lençol e onde toda as pessoas da vila saiam de casa e se juntavam. Essa foi a minha introdução aos filmes de Hollywood.

Ao vermos o trailer deste filme não conseguimos deixar de sentir uma certa nostalgia por filmes como Cinema Paradiso, um filme que na realidade é uma carta de amor ao cinema. King Of Peking vibra nessa mesma frequência, sente-se essa nostalgia e as suas historias são também sobre infância. Mas terá sido esta uma escolha consciente para o realizador?

Cinema Paradiso foi sem duvida um de muitos filmes que me inspirou. É de certo uma homenagem ao Cinema. Porém eu também visitei o Neo-Realismo italiano e o New Wave francês. Filmes que realmente influenciaram o Cinema. King of Peking não é apenas um filme de época, é um filme onde se sente que foi mesmo feito nos anos 90. Porque há filmes dos anos 90 e filmes que são feitos como se fossem passados nos anos 90. Eu trabalhei muito para que este filme realmente parecesse que foi filmado nessa década, eu queria lhe dar esse estilo.

Sam Voutas

Não é muito comum para um realizador fazer um filme essencialmente sobre a sua paixão pelo Cinema. Principalmente quando o Cinema faz parte da infância, das experiencias e da passagem para jovem adulto. Neste filme sentimos essa influencia, que o Cinema fez parte da vida de Sam.

Sem duvida! Estamos a viver numa das fases mais interessantes do Cinema porque mudou tanto desde de quando éramos crianças. Desde que os irmãos Lumiere começaram que apenas se introduziu a cor e o som, mas não revolucionaram o Cinema. Mas agora com a era digital está completamente diferente! E o meu filme é sobre como essa era digital começou a revolucionar, a quebrar tradições.

Quebrar tradições é a grande missão das artes. Trazer algo de novo, modernizar, chocar até mas sempre com o propósito de inovar. Quando a Televisão apareceu dizia-se que o Cinema iria acabar. Não acabou. E agora na era digital temos os serviços de streaming como Netflix e Amazon Prime volta-se a falar da “morte” do Cinema.

Eu acho que as pessoas vão continuar a ir ao cinema mas vão ver filmes totalmente diferentes. Até pequenos cinemas passam grandes blockbusters agora e é difícil ver aqueles pequenos filmes nas salas. Essa é grande mudança. Porem se serviços de streaming como Netflix e Amazon Prime querem ajudar realizadores independentes a terem uma carreira sustentável então eu acho que é uma optima ideia!

Mas como tudo começou para Sam Voutas? Quando é que percebeu que realizar seria a sua paixão?

Comecei por ser actor porque queria seguir as pegadas de John Cassavetes onde ele usou o dinheiro que ganhava enquanto actor para poder realizar filmes de baixo orçamento com os seus amigos. E por uns tempos eu achei que podia fazer o mesmo. E fiz! Mas realizar exige muito tempo e dedicação! E eu gosto muito mais de realizar e escrever e é nesse caminho que irei continuar.

Todos nós temos as nossas influencias porém há sempre quem nos marca mais, alguém cujo trabalho nos transforma completamente e para Sam Voutas, quem será?

Robert Rodriguez, talvez não tanto os seus filmes mas sim o quanto ele mostrou que qualquer pessoa pode fazer um filme.

E se tivesse que escolher um realizador para fazer o filme sobre a sua vida, quem escolheria?

Provavelmente escolheria o Woody Allen porque eu adoro os seus filmes e ele acrescenta sempre o elemento de humor em qualquer tópico. Mesmo que a minha vida seja chata tenho certeza que ele arranjaria uma maneira de tornar engraçada e única!

Estava na hora de terminarmos a nossa conversa. Ainda ficamos uns minutos a conversar sobre a nossa paixão pela banda desenhada e de projectos que ambos temos nessa área. Para quem quiser mergulhar na nostalgia e viver uma historia sobre paixão pelo cinema e a relação entre pai e filho então aconselho a verem King of Peking! Neste momento encontra-se disponível no Netflix em quase todos os territórios! Não percam! Deixo-vos aqui o trailer para aguçar o apetite:

Maria Lima

Maria Lima

M.J.Lima nasceu no Porto onde estudou Teatro Contemporâneo e Dança. Depois de quase 10 anos no mundo do espetáculo decidiu ir viver para Londres. Em 2015 publicou a sua primeira banda desenhada com a Chiado Editora, Patient EV-136, e está a trabalhar em novos projectos.