Realizador de um dos filmes mais vistos de sempre em Portugal, “A Gaiola Dourada”, o luso-francês Ruben Alves apresentou o seu mais recente filme “Miss”, que estreou em Portugal a 26 de Novembro.

Estive à conversa com Ruben Alves em Outubro, por ocasião da antestreia no Cinema S. Jorge de “Miss”, filme de abertura da 21ª Festa do Cinema Francês.

Ruben Alves, cerimónia de abertura da 21ª Festa do Cinema Francês

Ver também: Miss | O regresso bem-sucedido do realizador de “A Gaiola Dourada”

“A Gaiola Dourada” é um daqueles filmes que me tocou muito, pois reconheço a 100% o ambiente, as atitudes e a cultura, tanto portuguesa como francesa, presentes no filme.

Eu nunca fujo à verdade. Mas por acaso, houve os que me disseram – “Ah! Isso é um clichê. É caricatura.” – Ao que eu respondo – “Sim, mas faz parte da realidade.” – É que as pessoas nem sonham como seria se eu tivesse colocado tudo o que realmente vivi! Tudo o que está no filme é a realidade das pessoas que eu conheço. E não faltam histórias caricatas de família, com os meus tios e primos. Quem não quer ver ou não consegue aceitar a verdade da França imigrante, que não veja. Mas “A Gaiola Dourada” funciona tanto para o lado dos portugueses como para o lado dos franceses.

E como foi viver todo o sucesso do filme? Tanto em França como em Portugal foi um êxito.

Já foi há algum tempo. Já absorvi isso com muito carinho. Passei por momentos muito fortes em que as pessoas vinham ter comigo, abraçavam-me, davam-me beijinhos, conversavam, uns que já não tinham vergonha de dizer que são portugueses, outros que iam dedicar-se a aprender a falar português. Acho que faltava ali um filme para fazer bem a uma geração [de portugueses migrantes] e “A Gaiola Dourada” foi esse filme.

Para além da comédia, “A Gaiola Dourada” é um filme com muita emoção…

Eu faço histórias para mexer com as emoções das pessoas. Para ir mais além… E quando se vai mais além, a mensagem do filme toca num ponto emocional. E com “A Gaiola Dourada”, foi algo que fez a sociedade francesa pensar que devia olhar para os imigrantes de uma outra forma. Acho que abriu um debate e continua a ser um filme que marcou as pessoas e que é acarinhado pelo público. Hoje em dia ainda fico espantado de como é que pode continuar tão presente na mente das pessoas.

 

Entretanto, passaram vários anos até chegarmos a “Miss”. Como é que surgiu este projeto?

Cheguei ao “Miss” num encontro com o Alexandre Wetter, o ator principal. Ele foi uma revelação para mim. Como é que este rapaz que assume completamente a parte feminina nas suas performances, consegue impor-se numa sociedade muito normativa? Ele tem uma coragem genial, uma luz incrível e é muito positivo. Ele passou por momentos mais difíceis de bullying, quando era miúdo e espanta-me como ele está sempre com um grande sorriso e querer dar beleza ao mundo através das suas performances. Achei tudo isso maravilhoso e tinha de fazer um filme em torno dele.

Ontem, na apresentação do filme, disseste que tanto “A Gaiola Dourada” como “Miss” tratavam de questões de identidade…

Depois d’”A Gaiola Dourada” viajei muito e estava sempre à procura do tema certo. Sabia que tinha de voltar ao tema da identidade, mas em vez de identidade cultural seria sobre identidade de género. Só que ainda não tinha uma boa ideia. Estava a escrever um guião, mas não estava feliz com o resultado e de repente, quando almocei com o Alex e surgiu a ideia do concurso Miss France, não havia volta a dar. Era mesmo isso! E assim, como disseste, da mesma maneira que “A Gaiola Dourada” foi um filme construído à volta dos meus pais, “Miss” foi totalmente construído à volta dele e de tudo aquilo que o tema permitia explorar.

Um aspeto que gostei muito neste filme é o facto de tratares o tema com muita sensibilidade quando outro realizador poderia ter apostado no divertimento fácil. Por exemplo, a personagem da Lola está muito bem desenvolvida.

Na escrita do argumento costumo dar muita atenção a cada personagem. Faço sempre um ‘desenho’ completo da personagem, a sua história, de onde vem, porque isso é importante para não entrar na caricatura.

A personagem da Lola é mesmo uma pessoa que eu conheço e que me é muito próxima. Não posso fugir à verdade, nem quero. Por exemplo, quando pegas numa personagem como a mãe ‘baba-cool’ da Yolande (Isabelle Nanty), estás perante uma mistura de três personagens diferentes que eu conheço e que amo.

Há uma visão oposta interessante dos concursos de beleza, entre a personagem de Isabelle Nanty que acredita que são uma objetificação do corpo feminino e a personagem de Pascale Arbillot que defende que as mulheres estão no direito de se afirmarem em toda a sua feminilidade.

Acabam por estar ligadas, porque ambas as personagens são feministas. Pensam de maneira diferente mas querem chegar à mesma coisa. Acho que é maravilhoso ver estes antagonismos na sociedade de hoje.

Foi bom reencontrar Isabelle Nanty tantos anos depois da curta-metragem “À l’abri des regards indiscrets”? Ela acaba por formar a alma da família de “Miss”…

Ela é sempre maravilhosa! E neste filme é a alma destas pessoas tão diferentes que se encontram e formam uma família. A família que o Alex escolhe. N'”A Gaiola Dourada” era uma família de sangue, aqui acaba por ser a mesma coisa, porque é um grupo de pessoas que se entreajuda, avançam juntos.

Neste filme há o protagonista, mas este não existe sem todas as personagens secundárias. Portanto, todas elas estão bem desenvolvidas para suportarem o papel principal e são relevantes para a história. Ninguém está lá por acaso. É isso que eu gosto mesmo de trabalhar no argumento.

Como foi guiar o Alexandre Wetter neste que é o seu primeiro papel de protagonista?

Foi ótimo porque era como trabalhar um diamante bruto. Ele era uma crisálida e vi-o a transformar-se numa borboleta. A cada dia ele estava mais seguro de si. No início ele estava apavorado por trabalhar com atores veteranos e eu disse-lhe logo – “Não fiques assim porque eles é que estão impressionados contigo, com a tua personagem. Tu tens um carisma que nem te dás conta.” – E é verdade, eles estavam impressionados com a passagem da personagem de rapaz a mulher. Esse fascínio de todos acabou por dar-lhe mais segurança.

Foi mesmo um trabalho muito comovente e deu-me uma grande satisfação ver o Alexandre evoluir. Porque ele não era ator mas eu tinha a certeza de que iria transmitir uma emoção muito forte, que seria puro. Tive esse instinto quando o conheci e arrisquei. Os produtores confiaram em mim e resultou! Podia não resultar se ele não estivesse ao nível esperado, mas resultou.

 

Em comparação, como foi trabalhar com veteranos como o Joaquim de Almeida e a Rita Blanco? Já os tinhas em mente quando escreveste “A Gaiola Dourada”?

O Joaquim de Almeida foi um puro acaso, encontrei-o no Festival de Cannes, num cocktail na praia em que não havia muita coisa para comer, apenas uns croquetes e vinho. Ele olha para o buffet, olha para mim e diz-me: “Bem, temos de ir jantar a algum lado que isto aqui não há nada para comer.” Naquele momento eu vi a minha personagem do José, alguém afável e genuíno. Logo de seguida vim buscar a Rita Blanco, porque ela sim, tinha-a na cabeça desde o início. E foi maravilhoso porque eles são dois grandes atores, totalmente diferentes e entregaram-se completamente aos papéis, o que para mim foi ótimo.

Tens planos para um filme em Portugal?

Estou agora a escrever um projeto que deverá ser o meu terceiro filme. Vai-se passar em Lisboa, com atores portugueses. Será um filme europeu em co-produção com Espanha e França, mas com base portuguesa. Estão todos à espera que eu organize bem as ideias para avançarmos. Mas sim, depois de um filme em França sobre os portugueses, vou fazer um filme português com abertura à Europa.

“Miss” encontra-se em exibição nos cinemas portugueses desde 26 de Novembro. Brevemente será divulgada a entrevista ao protagonista do filme, Alexandre Wetter.