“Momster” é uma curta-metragem realizada por Drew Denny, e que teve estreia mundial neste ano no Festival de Cinema de Tribeca, em Nova Iorque, em abril e maio (num total de 5 visionamentos).

Conta a história de uma ex-assaltante de bancos apelidada de Momster (Amanda Plummer) que já esteve na lista dos bandidos mais procurados da América. Momster deixa a sua filha Angel (Brianna Hildebrand) com o seu antigo cúmplica Dallas, de modo a conseguir fugir à polícia.

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Momster

Angel passa o tempo à espera que a mãe regresse para a salvar do restaurante de Dallas, Wild Ride, que é um disfarce para outros negócios mais obscuros, de que Angel também se encarrega. Anseia pelo dia em que a mãe volta, a salva e podem tornar-se num duo de mãe-filha assaltantes de bancos.

A história é, em aparência, invulgar, talvez um pouco bizarra, mas o que é certo é que “Momster” é uma pequena pérola de humor, bom gosto e uma certa audácia, para além de conter um elenco recheado de estrelas, umas mais veteranas, outras em ascenção. É também uma mistura entre a experiência da realizadora com familiares que sofrem de demência e a ficção de uma fantasia pastilha elástica determinada e cheia de super heroínas.

Filmada dentro da estética kitsch de uma certa cinematografia dos anos 70, algures entre a blaxploitation e as cores garridas das séries de televisão desses tempos, inícios dos anos 80, explora de uma forma aberta o universo das mulheres ao poder. A opção por esse olhar garrido está ainda ligada à participação de Ava Berkofsky como diretora de fotografia, alguém com quem Drew Denny tem colaborado algumas vezes embora noutros âmbitos, mas que embarcou no projeto para definir a estética com uma equipa completa.

Esse aspeto não pode, certamente, ser dissociado do trabalho de Drew Denny, que gira em torno dessas temáticas, se bem que na atualidade falar na centralidade da mulher na sociedade e, sobretudo, no cinema, já se vai tornando mais numa certeza do que um debate ou mera temática. As certezas obstinadas que as mulheres de “Momster” demonstram são as certezas de um novo mundo no contexto do movimento #Metoo.

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“Momster” é sobre isso mesmo, as mulheres que existem na centralidade porque sempre lá estiveram, só ocultadas por alguns personagens agarrados a hábitos do passado, como é o caso de Dallas, cujas ameaças acabam por sair frustradas, face à loucura alheada da Momster e a coragem doce de Angel.

Esta é uma curta-metragem repleta de pequenos sinais, de mulheres que se apoiam mutuamente, que se gostam, que se ajudam, sobretudo Angel, simbolicamente assim chamada, já que é dela a responsabilidade de salvar todas as mulheres que trabalham no restaurante de Dallas e, em última instância, de salvar todas as mulheres dos homens que já não as conseguem controlar, mas se esforçam muito para o conseguir.

“Momster” é, ao mesmo tempo, uma espécie de “Thelma e Louise” com outra ligação pelo meio, apesar da amnésia da Momster, o que pode, eventualmente, transformar o vínculo que a une a Angel em algo muito maior que o do sangue.

Esta é uma ligação igualmente sacramental, mas abençoada por outros laços de outros sangues que não os de família, algures a caminho do espírito gangster de “Pulp Fiction”, mas sem as drogas ou a injeção de adrenalina diretamente no coração. Facto curioso é que Amanda Plummer, a atriz que faz de Momster, participou efetivamente em “Pulp Fiction” como Honey Bunny, o que não deixa de ser irónico porque também aqui vem pegar em armas – por outros motivos.

Momster

Brianna Hildebrand é uma jovem atriz conhecida sobretudo pelo seu trabalho em “Deadpool” mas também pela recém estreada série da Netflix “Trinkets”. Mesmo não conhecendo em profundidade a sua carreira, muito curta ainda, e em “Momster”, uma curta de 10 minutos incluindo os créditos, é possível observar o imenso potencial da atriz que tem tanto de talento como caminho para caminhar – para já, um único olhar seu chega para encher o ecrã, grande ou pequeno.

Para a realizadora Drew Denny, o facto de ter à sua disposição um elenco de estrelas parecia um sonho, apesar de o seu percurso pelo mundo das artes não lhe merecer tamanha modéstia. Habituada a ganhar prémios desde o seu primeiro filme, realizou ainda episódios de documentário para o “Broadly” do Vice, entrevistou Hillary Clinton, fez um documentário para a CNN sobre cientistas da NASA no pólos e um outro sobre freiras drag queens que salvam a comunidade rural homofóbica da ruína. Este último está a ser pensado para série de televisão, à semelhança de “Momster”, que poderá seguir esse caminho ou o de um filme de longa duração, conforme declarações públicas da própria realizadora.

Drew, abertamente lésbica, é apaixonada por contar na sua obra histórias que se focam nas mulheres, na comunidade LGBTQ e afro-americana. O seu trabalho tem chamado a atenção de muita gente, sobretudo pelo seu experimentalismo e ausência de receio ou barreiras nos modos de expressar a arte – foi incluída na lista do site The Advocate, que elenca 40 pessoas antes dos 40 cuja carreira deve ser seguida com interesse.

“Momster” conta no seu elenco com John Ennis como Dallas, Josh Fadem como Greasy, Brianna Hildebrand como Angel, Amanda Plummer como Momster e Ryan Simpkins como Rose, a apaixonada de Angel.

Definitivamente, Drew Denny é uma realizadora a seguir, tanto pelo seu experimentalismo como pelas possibilidades que o seu trabalho explora. “Momster” é um bom exemplo disso mesmo, até pelo seu título dúbio, que tanto pode significar alguma coisa de carinhoso como ameaçador e nessa duplicidade vivem muitos dos seres humanos deste planeta.

É interessante ainda que uma curta peça de 10 minutos possa trazer tanto interesse e discussão e apesar de não ser uma completa obra-prima, faz com que no espetador nasça o desejo de ver mais, de querer saber mais sobre aqueles personagens, criar ódio por outros, compaixão por alguns.

Muito boas prestações dos atores, não há soluços de argumento, não há saltos de edição, nada parece estar fora do sítio e, acima de tudo, embora a estética seja plasticamente falsa, nada soa a falso, partindo-se do princípio que está envolvida, pois, uma enorme dose de talento e paixão pelo cinema e seus veículos. “Momster” é uma grande curta-metragem que certamente seria um prazer ver no circuito dos festivais de cinema portugueses.