Nas palavras de Lisandro Nogueira (Revista Bula), “um bom filme é aquele que traz imediata gratificação. É aquele que emociona, faz chorar, rir e encanta a falta de sentido do mundo.”.

O filme de que falo hoje é um exemplo significativo do que isso quer dizer – embora nunca tenho sido alvo de críticas soberbas (muito menos de críticas negativas), provoca no espectador uma emoção desenfreada que acaba em momentos de introspeção e reflexão. Pay It Forward (2000), realizado por Mimi Leder, gira à volta de uma ideia. Uma só ideia.

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Trevor McKenney: Vai-nos chumbar se não mudarmos o mundo?

Eugene: Bem, não. Mas podes vir a passar só com um C.

O filme é baseado na obra homónima de Catherine Ryan Hyde – e não é pelo argumento sólido que é apresentado e muito menos pela realização mediana que se destaca. É no conceito, no detalhe, na ideia que faz avançar a história. E se conseguíssemos mudar o mundo, passando boas ações de mão em mão? E se, como efeito borboleta, aquela nossa boa ação, vazia de interesse pessoal, desencadeasse outra boa ação, e mais uma, e por aí fora? Trevor McKinney (Haley Joel Osment) é o pequeno génio que quer mudar o mundo. É nele que a história se centra, assim como na sua relação com o professor de Estudos Sociais, Eugene Simonet, interpretado por Kevin Spacey, que ao mesmo tempo se envolve com a mãe de Trevor, Arlene (Helen Hunt). E o resto são spoilers.

Uma mistura de sentimentos envolve este filme: ternura, compaixão, uma felicidade que vem do âmago em certos momentos, uma dor no peito noutros. É impossível não sentir empatia pela performance maravilhosa dos três atores principais, é impossível não sair tocado depois de ver este filme. Não é um filme perfeito. É um bom filme, um filme introspetivo, como muitos dos que vos trago. Embora tenha uma certa emoção forçada em certos momentos, continua a ser um filme para ver e rever – eu sou suspeito, já que o Kevin Spacey é desde há muito tempo um dos meus atores favoritos.

E o final, para tanta gente controverso, do qual não me irei alongar porque é o momento mais honesto do filme. Um filme onde podemos ver o que de errado há no mundo, embora o utopismo de Trevor se fique por aí. Um filme onde os acontecimentos em cadeia não são um cliché mas uma consequência, onde podemos ver a humanidade das personagens tão bem interpretadas, frágeis, sufocadas pela vida. Um filme para pensar um bocado – Pay It Forward, esse movimento utópico, só o é porque não conseguimos, no fundo, olhar um pouco mais para o outro lado.

Eu acho que algumas pessoas estão demasiado assustadas, talvez. Penso que seja difícil mudar, para pessoas que estão tão habituadas com as coisas serem iguais – mesmo que sejam más. Porque elas meio que desistem. E quando o fazem, toda a gente meio que perde. – Trevor McKinney