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    Subtilezas (Des)Medidas – Filmes que marcaram a carreira de Colin Farrell

    Numa carreira recheada de papéis mal escolhidos e de interpretações igualmente mal conseguidas, Colin Farrell parece ter encontrado recentemente o estilo de fazer cinema ao qual mais se adequa: comédias negras com personagens sem expressão.

    Colin Farrell é um ator nascido nos subúrbios de Dublin, na Irlanda, no último dia do mês de maio de 1976 que encetou a sua carreira na sétima arte em meados dos anos 90, almejando alcançar o sucesso. Porém, esse sucesso demorou a chegar. Numa carreira repleta de más escolhas, como são os casos de “Miami Vice” (2006), “London Boulevard – Crime e Redenção” (2010) ou mesmo a incursão pela ficção científica em “Desafio Total” (2012), são poucos os papéis nos quais conseguiu um bom desempenho.

    Ligado sobretudo aos dramas no início, Farrell toma um curso diferente na sua carreira, investindo mais tarde em registos diferentes, nomeadamente comédia e thrillers de crime, nunca deixando de interpretar personagens em filmes dramáticos.

    Ver também: Steve Carell nas primeiras imagens da série “Space Force” da Netflix

    The Lobster

    Contudo, e apesar do bastante razoável desempenho na comédia “Em Bruges”, de Martin McDonagh, em 2008, só verdadeiramente em 2011 é que consegue, e apesar de não alcançar um grande impacto, marcar pela diferença de forma positiva, embora num papel pouco significativo em “Chefes Intragáveis”. De uma forma mais clara, o sucesso chega-lhe com um realizador grego de seu nome, Yorgos Lanthimos, e logo em dose dupla. Com uma espécie de magia em fazer com que não lhe seja reconhecida qualquer expressão, é quando consegue extrair de Farrell o melhor de si. É mais tarde aproveitado de forma notável por Guy Ritchie em “The Gentlemen – Senhores do Crime”.

    Stu Shepard em “Cabine Telefónica” (2002)

    Farrell in Phone Booth

    Personagem: Um jovem consultor vê-se encurralado numa cabine telefónica aterrorizado por um assassino que o ameaça matar se este desligar o telefone.

    Este é o primeiro papel de Colin Farrell em que de facto o ator consegue aliar o verdadeiro destaque que a sua personagem tem, com um desempenho bem conseguido. Num filme cujo argumento é algo débil, a prestação de Farrell é segura e consistente, não deixando cair o filme. E essa era a sua principal função. Sendo o mesmo centrado na sua personagem, era ele que o tinha de segurar e, consequentemente, levá-lo o mais longe possível.

    Tal como o telefone, Colin Farrell está ligado à corrente. O diálogo que estabelece com o antagonista e os vários ângulos da realização de Schumacher ajudam a isso mesmo. Sem fugir da linha traçada pelo realizador, Farrell cumpre muito bem o seu papel do início ao fim.

    Realizador: Joel Schumacher

    Ray em “Em Bruges” (2008)

    Em Bruges

    Personagem: Um assassino que, após o seu último trabalho ter corrido mal, refugia-se com o seu colega na cidade belga de Bruges. A estadia está prestes a terminar quando o seu chefe ordena a um deles que mate o outro.

    Num filme que lhe valeu o primeiro e único grande prémio de cinema, Colin Farrell alcançou uma prestação segura, sem fugir muito do objetivo, mas sempre com o pairar de uma sombra que teima em persegui-lo, um entrave que lhe custa em despistar: as suas expressões. As feições não ajudam. Apesar de se notar um empenho por parte do ator e o facto do filme se tratar de uma comédia negra, não há como afirmar que Farrell tenha conseguido uma prestação de encher o olho, muito pelo contrário.

    Contudo, Farrell ganhou o globo de ouro para melhor ator em filme de comédia ou musical (muito provavelmente devido à fraca concorrência que havia nesse ano).

    Realizador: Martin McDonagh

    Marty em “Sete Psicopatas” (2012)

    seven psychopaths

    Personagem: Um escritor que, inadvertidamente, se envolve no mundo do crime na cidade de Los Angeles depois dos seus amigos terem raptado o um pequeno cão de um gangster.

    Intitulada de “o aparentemente normal”, a personagem de Colin Farrell é bem construída e tem no ator irlandês um ótimo executante. Começa finalmente aqui a entrar nos eixos. Ao invés do que acontece em “Em Bruges”, Farrell luta contra o facto da sua expressão não o ajudar, começando a perceber-se que este é o seu estilo de eleição: comédias britânicas.

    Ajudado pelos seus pares que dispensam apresentação, um Sam Rockwell extremamente cómico, um Christopher Walken a mostrar como se fazem comédias do género e um Woody Harrelson igual a si mesmo, Farrell surge como uma espécie de elo mais fraco, mas que se revela consistente e alcançando uma prestação sólida, apresentado-se sempre muito coerente.

    Realizador: Martin McDonagh

    David em “A Lagosta” (2015)

    A Lagosta

    Personagem: Um homem solitário que se vê obrigado a ingressar num hotel, segundo a lei existente, de modo a tentar encontrar alguém para o acompanhar para o resto da vida.

    Esta é a primeira prestação de Colin Farrell totalmente bem conseguida, sem lacunas. Encontra finalmente um realizador que consegue coloca-lo a ser um bom ator e a ter excelentes prestações. E fê-lo da seguinte forma: concebeu uma personagem apática, fria e sem expressão.

    Sério, mas ao mesmo tempo em tom cómico, diferente de tudo aquilo que já tinha feito, Farrell assenta como uma luva na história e em todo o conceito do filme.

    Colin Farrell arrecadou a segunda nomeação da carreira para os Globos de Ouro na categoria de ator em filme de comédia ou musical.

    Realizador: Yorgos Lanthimos

    Steven Murphy em “O Sacrifício de um Cervo Sagrado” (2017)

    Colin Farrell 1

    Personagem: Um conceituado cirurgião que é forçado a cometer um sacrifício impensável, depois de ver a sua vida desmoronar-se.

    Yorgos Lanthimos repete a estratégia usada no seu último filme e volta a atingir o sucesso com o seu protagonista. Entrega-lha novamente uma personagem sem expressão, que carrega um semblante pesado, porém com uma temática e um registo diferentes, sem o tom de comédia que imperava na sua primeira colaboração com Colin Farrell.

    Farrell tem com este Steven Murphy o seu melhor desempenho. Num filme que fervilha do início ao fim, com um argumento surreal, totalmente fora da caixa, uma fotografia bela e uma banda sonora quente, Farrell consegue transpor de forma brilhante a essência da personagem, que é a mesma do filme, a de um boneco de neve a derreter, a decadência e o desmoronamento. Ajuda a conseguir, com isso, que tenhamos o vislumbre de uma obra perto de ser poderosa.

    Realizador: Yorgos Lanthimos

    Ainda este ano será possível ver Colin Farrell em “Ava” (com Jessica Chastain) e “Artemis Fowl” (este verão na Disney+) e no próximo ano em “The Batman” (no papel de Penguin).

    Rúben Fonseca
    Rúben Fonseca
    Rúben Fonseca, 23 anos, licenciado em Educação Social na Escola Superior de Educação do Porto. Sou de Valongo, Porto. Os meus interesses passam pelo cinema, futebol e política. Considero-me uma pessoa extremamente auto-crítica e perfecionista.

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