Após um hiato de quase dois anos, “Westworld”, a série de ficção científica do canal norte americano HBO, finalmente regressa com a sua terceira temporada.

[ATENÇÃO: Este texto contém spoilers do episódio ‘Parce Domine’ (T.3 Ep.1) de “Westworld”.]

Após o massacre no parque na temporada passada, Dolores (Evan Rachel Wood) encontra-se agora à solta no mundo real, mundo esse muito diferente do que estamos habituados. A sociedade de Westworld apresenta um futuro limpo, cheio das luzes neons e veículos estilizados a que tanto estamos habituados a ver em filmes como “Blade Runner”. O mundo que nos é apresentado na série não se distancia muito do nosso à exceção claro da evolução científica.

É neste contexto que surge Dolores, e a temporada já começa num ritmo acelerado. O seu objetivo é vingar-se da empresa Delos e de toda a dor que esta infligiu em si e em todos os robots que por eles foram criados. O episódio começa com uma invasão à casa de um dos trabalhadores da empresa, da qual ela extrai o seu dinheiro e informação de como continuar a produzir mais robots como ela. Parece-me portanto que o seu objetivo seja criar um exército para se vingar da empresa.

Gostei muito do ritmo do episódio. A série que na temporada passada apresentou uma estrutura não linear, quase como um puzzle, desta vez parece apresentar uma narrativa de causa e consequência ao invés de andar para trás e para a frente na sua linha temporal.

Além dela, a Charlotte Hale (Tessa Thompson), agora em controlo da Delos, parece disposta a ignorar o incidente passado no parque. “Não são os robots que magoam os humanos, são os humanos que usam os robots para nos magoar”, diz ela, acreditando que Bernard programou os robots para gerar o massacre no parque Westworld. Desta forma ela comanda o fabrico de mais robots anunciando que o parque se vai manter operacional.

Noutro canto do mundo encontramos Bernard (Jeffrey Wright), agora um homem procurado. Gostei bastante da dinâmica desta personagem que transita entre a sua nova personalidade que criou como disfarce e a personagem de Bernard. É um contraponto semelhante ao de um Smeagol e Gollum no Senhor dos Anéis, na qual temos uma personagem mais calma que dá as caras e uma personalidade interior, pronta a revelar uma máquina matadora a qualquer momento.

Estou um pouco incerto sobre o futuro desta personagem, penso que ele queira impedir a Dolores de concluir o seu plano, contudo ambos encontram-se em partes diferentes do mundo. Intrigado para saber como a sua história irá continuar.

A melhor parte do episódio foi sem dúvida a personagem Caleb, interpretada por Aaron Paul, conhecido pelo famoso papel de Jesse em “Breaking Bad”. Caleb é um homem de classe média que trabalha em construção. O trabalho, contudo, não é o suficiente para pagar as contas em casa e muito menos a renda hospitalar da sua mãe que se encontra internada. Por isso, ele aceita trabalhos numa rede criminal online na qual existe uma aplicação com possíveis trabalhos criminais a toda a hora.

Acaba por decidir fazer alguns trabalhos para poder pagar as contas. É através dele que vemos o mundo criminal de uma cidade que até então se apresenta livre, limpa e isenta de sujidade. Contudo este fá-lo apenas para poder sobreviver e não aceita trabalhos “pessoais”, isto é que envolvam matança.

Mas há uma vertente ainda melhor nesta personagem. Ele encontra-se em terapia devido a Stress pós Traumático sofrido após voltar da guerra. O seu psicólogo apresenta-lhe um tratamento no qual ele fala por chamada com um dos seus colegas de guerra, relata o seu dia e analisa os seus problemas.

Contudo, no final do episódio, é revelado que o seu colega é na verdade apenas uma voz programada. A personagem havia morrido na guerra, e esta voz que Caleb ouve não passa de um programa de tratamento. Caleb sabe disso, e decide cancelar o programa admitindo que tem de procurar por algo real, algo humano. Isto lembrou-me do filme “Her” do Spike Jonze, que discutia uma temática semelhante.

A nova temporada apresenta-se quase como um reboot. O estilo é diferente, mais acelerado, com mais ação e linear. Interessante reparar que a forma como a série começa a rotina de Caleb, é semelhante à rotina de Dolores no primeiro episódio da primeira temporada. Será que este paralelo pode significar que Caleb é na verdade um anfitrião? Ou será que isto apenas demonstra o quanto a humanidade está baseada em tecnologia que se encontra mecanizada? Algumas das várias perguntas que este começo de temporada nos deixa.

No final do episódio temos uma cena pós créditos com Maeve (Thandie Newton) naquele que me parece ser um novo parque, agora passado durante a Segunda Guerra Mundial? Confesso que não esperava que voltassem ao parque tão cedo, mas achei interessante o facto de terem mudado o tema do parque.

De ressaltar a banda sonora, que aposta em tons de Sinthwave pesados, muito típicos do género, e temas de músicas rock, rap e pop que juntam um dinamismo acelerado em especial nas cenas de ação.

Não podia estar mais satisfeito com o regresso de Westworld e mal posso esperar pelo próximo episódio. Um estilo diferente do anterior que pode não agradar a todos. Para mim, esta é uma lufada de ar fresco que é bem vinda à série pela qual ficamos tanto tempo à espera.