Terminou a primeira temporada de Gotham, a cidade do herói mascarado Batman. Gotham é baseada nos DC Comics e foi readaptada pelo criador Bruno Heller (que já conhecemos de O Mentalista), a série segue as aventuras do jovem Jim Gordon e na sua busca incessante por tornar Gotham numa cidade desprovida de crime. O problema é que a cidade é liderada precisamente pelo crime organizado e Jim vê-se envolvido numa guerra entre duas casas mafiosas que procuram a supremacia da mesma. Nisto, vamos também acompanhando os dias de Bruce Wayne que, após os pais terem sido assassinados, fica a cargo do mordomo Alfred e da sua nova amiga Selena Kyle; conhecemos também Oswald Cobblepot que é uma “vítima” das atrocidades de Don Falcone (um dos líderes mafiosos) e que procura vingança.

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Estas são algumas das inúmeras vertentes narrativas de Gotham, uma série que tinha tudo para ser uma das melhores da televisão e que não se consegue coordenar com os seus próprios objetivos. As expectativas para quem está a ponderar começar a ver a série que conta a história do detetive que auxilia Batman nas suas aventuras são altas e, assim que se sabe que Bruce Wayne (ainda que em tamanho pequeno) está envolvido no enredo, o entusiasmo é ainda maior. Jada Pinkett Smith também está no elenco e é, também ela, um chamariz para o público, uma vez que a atriz já não aparecia em carne e osso na televisão há bastante tempo. A fórmula de dar a conhecer alguns dos vilões mais famosos de Batman antes de se tornarem reis do crime é aliciante e mais um fator que contribui para o sucesso de Gotham. Com todos estes elementos o que é que correu mal?

Pois bem, os argumentistas de Gotham são preguiçosos e parecem querer superar as suas próprias capacidades ao tentarem dar um toque de imprevisibilidade ao guião. O facto de abarcar imensas personagens principais, sendo que o destino de algumas ainda ninguém sabe propriamente o que aconteceu, faz com que a série perca credibilidade uma vez que nenhuma linha da narrativa se mantém consistente do início ao fim. Em vez de procurar realçar as suas aparentemente bem trabalhadas personagens, Gotham parece ridicularizá-las à medida que avança nos episódios: vejamos o exemplo de Pinguim que era, no início, uma personagem excelente e que tinha um grande potencial; Oswald Cobblepot começou por ser um indefeso auxiliar criminal que, com a sua astúcia, pretende subir na “cadeia alimentar”, por assim dizer. A personagem é ambígua o suficiente para agarrar o espectador na sua história, mas vai perdendo destaque à medida que foge dos seus motivos.

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Não só em termos narrativos, mas como em termos visuais, Gotham não consegue fazer jus ao universo que aborda, tornando-se um insulto à cidade do herói mascarado com a maior legião de fãs do mundo. As personagens não estão ao nível dos atores que as interpretam, sendo que a maioria delas limitam-se a preencher tempo para os 40 minutos de duração. Mas há que dar mérito à caracterização da cidade, sempre em tons chuvosos e/ ou noturnos que realça a atmosfera sombria e perigosa da mítica metrópole do crime; no entanto, isto não é suficiente para salva uma série que perde tudo ao tentar criar demasiadas linhas de história em tão pouco tempo de antena. As personagens são baças e sem interesse que são retratadas como se se tratassem de marionetas numa exibição rasca dos Marretas, já para não falar da fraca credibilidade visual das situações que lhes acontecem, como Fish Mooney remover um olho só porque sim ou a mesma a ser atingida por uma bala num helicóptero em pleno andamento e a marca da mesma não existir.

Uma série que reunia todos os elementos essenciais para um excelente serão, transforma-se ela própria numa série criminosa que chega mesmo a arruinar a imagem que temos vindo a criar do universo de Bruce Wayne e da sua transformação em Batman.

 

Texto escrito por: Jorge Lestre