CinemaDestaquesEntrevistasLet's TalkLet’s Talk #54 – Cacá Diegues, um veterano do cinema brasileiro

"O Grande Circo Místico", candidato do Brasil ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, chega aos cinemas esta semana. O Cinema Pla'net entrevistou o realizador do filme Cacá Diegues.
Miguel Revel Miguel RevelJan 6, 201911 min

“O Grande Circo Místico”, candidato do Brasil ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, chega aos cinemas esta semana. O Cinema Pla’net entrevistou o realizador do filme Cacá Diegues.

Cacá Diegues
Carlos ‘Cacá’ Diegues

O que o fez querer tornar-se realizador?

Um grande amor pelo cinema, que cultivo desde criança. Tudo que sei, aprendi primeiro vendo filmes. Depois, com o movimento de cineclubes, aos 17 anos de idade encontrei minha geração que tinha os mesmos sonhos que eu. Aí você fica mais forte e disposto a vencer todas as dificuldades.

O que gosta mais em todo o processo da criação de um filme?

Não há nada que eu não goste na criação de um filme.

Cacá Diegues
O Maior Amor do Mundo, 2006

Mais de 10 anos separam “O Maior Amor do Mundo” de “O Grande Circo Místico”, mas foi produzindo vários filmes todos os anos, o que levou a esta década entre um filme e outro?

Quando terminei “O Maior Amor do Mundo”, eu estava em crise profunda, deprimido e triste. Enquanto pensava em como fazer alguma coisa inspirado em Jorge de Lima, escrevi um livro sobre o cinema de minha geração, fiz dois documentários de longa-metragem e produzi dois filmes de outros realizadores..

Como se deu a passagem do poema de Jorge de Lima para o cinema, que principais desafios apresentou?

O principal desafio era o de como fazer um filme de um poema. A música de Chico Buarque e Edu Lobo me ajudou a superar essa dúvida. E o trabalho com o co-roteirista George Moura e a produtora Renata Magalhães foi decisivo.

Cacá Diegues
O Grande Circo Místico, 2018

Qual a sua relação com a arte circense?

Onde nasci, em Alagoas, no nordeste do Brasil, fui muito ao circo em minha infância. Mas não sou um especialista no assunto, estudei-o muito para fazer o filme.

Como foi feita a escolha do elenco do filme, que junta atores brasileiros e internacionais ao longo das gerações do circo?

Um circo é sempre muito internacional, há sempre artistas de todo o mundo trabalhando nele. Aí, com a ajuda dos produtores locais (o filme é uma coprodução Brasil, França e Portugal), fui escolhendo um elenco sem me preocupar com a nacionalidade dos atores.

Cacá Diegues
O Grande Circo Místico, 2018

A personagem de Jesuíta Barbosa é fulcral para o filme e no entanto não aparece no poema. Como surgiu Celavi?

Eu precisava de um personagem que me ajudasse a contar a história do filme. Se eu não o tivesse, seria um filme de episódios, sem unidade, coisa que eu não queria. Aí me surgiu a ideia do Mestre de Cerimónia que não envelhece, e acompanha o circo durante todo o século.

Cacá Diegues
Xica da Silva, 1976

O que sente que mais mudou no cinema desde que realizava filmes como “Xica da Silva” e “Os Herdeiros” nos anos ’70?

O cinema muda constantemente, e isso é bom. Essas mudanças podem ser tecnológicas ou culturais, o importante é não perdermos tempo demonizando-as. Mas também não devemos acompanhá-las mecanicamente. É preciso atropelar as mudanças, bem como inventá-las também.

Que memórias guarda de dirigir a icónica Jeanne Moreau em “Joanna Francesa”?

Jeanne Moreau foi a maior atriz da história do cinema em todos os tempos. Me sinto muito orgulhoso e honrado por ter feito um filme com ela. O trabalho com ela e a amizade que cultivámos até sua morte são, para mim, inesquecíveis.

Cacá Diegues
Joanna Francesa, 1973

Qual é a sua opinião sobre a situação atual do cinema brasileiro?

O cinema brasileiro vive um momento que talvez seja o melhor de sua história. Estamos fazendo cerca de 150 filmes por ano, sempre com uma diversidade regional, geracional, política, estética, etc, muito grande, graças à nova geração de jovens cineastas que está reinventando o cinema brasileiro. O que não vai bem é a regulação do cinema no país e a própria economia do Brasil, que não permitem os resultados que merecíamos melhores.

“O Grande Circo Místico” é uma co-produção entre Brasil, Portugal e França e encontra-se em exibição nos cinemas portugueses. O filme conta com um elenco que inclui Vincent Cassel, Nuno Lopes, Albano Jerónimo e Antônio Fagundes.

Miguel Revel

Miguel Revel

Apaixonado por cinema desde criança, dos filmes de Nolan e Fincher às obras primas de Hitchcock e Welles. Estudante de Licenciatura em Ciências da Comunicação na Universidade Nova de Lisboa. Colaborador do Cinema Pla'net desde Agosto de 2015.