Depois de abrir o Festival de Cannes e ser o padrinho da Festa do Cinema Francês em Portugal, Arnaud Desplechin fala em exclusivo ao Cinema Pla’net.

Conhecido por filmes como “Reis e Rainha”, “Um Conto de Natal” e “Comment je me suis disputé… (ma vie sexuelle)”, Arnaud Desplechin abriu o Festival de Cannes com “Os Fantasmas de Ismael”, protagonizado por Marion Cotillard, Charlotte Gainsbourg e Mathieu Amalric.

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Numa altura em que o filme começa a acumular nomeações aos Prémios Lumière e Louis Delluc, ainda antes de chegarem os Césares, o realizador esteve à conversa com o Cinema Pla’net.

Quais foram as suas inspirações para o filme?

É curioso porque são muitas. Começo por fazer uma lista dos filmes que me vão inspirar, mas para este, “Os Fantasmas de Ismael” era de uma originalidade de tal ordem que vi-me obrigado a inventar um filme sem mestre. É verdade que de certa maneira é uma homenagem a um filme que me marcou muito quando tinha 17 anos de Alain Resnais, “Providence” (1977), sobre um velho escritor interpretado por John Gielgud, que está numa casa onde sonha com pedaços de romances e que me marcou muito na época.

Como o meu personagem é um realizador vi o “8 ½ “ (1963, de Federico Fellini) 40 e tal vezes, revi o “Stardust Memories” (1980, de Woody Allen) 40 e tal vezes, no entanto, nunca se trata de copiar mas sim de encontrar um sentimento que me inspira. Nesta ideia de que amámos alguém que morreu e que está de volta, havia o tema do “Vertigo – A Mulher Que Viveu Duas Vezes” (1958, de Alfred Hitchcock), que habita em mim há vários filmes e que me é muito forte, porque tomo o “Vertigo” como um filme singular na história do cinema, que se aguenta sozinho e vem alimentar a melancolia da minha história. Por outro lado, por haver duas mulheres na ilha pensei obviamente no “Persona” (1966, de Ingmar Bergman).

Todos estes filmes são muito diferentes uns dos outros, mas não havia um género classificável. “Os Fantasmas de Ismael” são várias histórias comprimidas. Podia-se fazer 10 filmes, mas comprimi tudo num só e é por isso que as referências são tão variadas. Há um momento em que a personagem do Mathieu Amalric diz à Hippolyte Girardot (a falar do Jackson Pollock) “são imagens comprimidas” e tenho a impressão que este filme é a representação disso.

Muitos espectadores classificaram “Os Fantasmas de Ismael” não como um filme mas um exercício de cinema…

Eu acredito nisso verdadeiramente porque o filme salta de filme para filme. E espero que os espectadores tenham um prazer nisso, da passagem de um regime de narrativa para outro. Consegui pegar em todos os fragmentos de ficção e criar um “rio de ficção” com todos os seus afluentes, afluentes esses que no final chegam a uma reconciliação evidente, quer seja entre a Marion Cotillard e o seu pai ou a Charlotte Gainsbourg e a gravidez.

Como foi trabalhar com Marion Cottilard e Charlotte Gainsbourd?

Cada ator é muito diferente. Com a Marion foi incrível, porque foi de uma facilidade incrível trabalhar com ela. É inventiva, divertida, trabalhadora, corajosa… foi muito confortável. Não sei porque haveria pensado o inverso antes de trabalhar com ela. Fiquei impressionado com a Marion Cottilard!

Mas quem me surpreendeu mesmo foi a Charlotte Gainsbourg, porque ela muito secreta e eu também sou muito fechado em mim e lembro-me que um dia vimo-nos num café e eu disse-lhe:

Tem de deixar de me impressionar durante as filmagens. Temos de arranjar uma maneira de nos entendermos, porque fico tão impressionado e curioso que me distraio de tudo o resto.

Porque a Charlotte é uma mistura de extrema reserva, pudor e vulnerabilidade. No entanto, conhecemo-la de papéis tão audazes em filmes que se encontram no meu panteão como o “Anticristo” (2009, de Lars von Trier) que é de uma selvajaria e audácia. Há uma mistura entre esta selvajaria a que ela se permite no cinema e depois um pudor extremo que ela tem na vida diária.

E o que foi fascinante era ter estas duas mulheres enquadradas no mesmo plano, foi um sonho tornado realidade para mim, ter estas duas grandes atrizes que considero como as duas grandes atrizes internacionais francesas e de as ter na mesma ilha, no mesmo plano e contar uma história com as duas, foi uma utopia!

Qual foi o momento mais memorável deste projeto?

A equipa técnica sentia que a cada semana estávamos a começar um novo filme. Eles brincavam:

E ainda vamos contar isto, e mais isto, e depois vamos contar ainda mais isto…

A cada vez era um novo desafio. Lembro-me de que havia um sentimento muito forte quando nos primeiros dias de filmagens o Mathieu falava sobre o seu irmão junto à chaminé. A performance dele… nunca o tinha visto a fazer isso! Ele estava quebrado e sem voz e dizia :

estou esgotado, não consigo fazer mais este filme.

Na semana seguinte, a Marion Cotillard faz uma cena em que encontra o László Szabó a morrer e mete-se a chorar. Uma torneira de lágrimas pela cara, mas assim de repente, no momento exato que eu lhe tinha indicado! Quando chego à sala ao lado, com toda a equipa a olhar para os monitores, estavam completamente comovidos.

Como se sentiu quando o filme foi escolhido para abrir o Festival de Cannes?

Um sentimento ambíguo… que continuo a viver com ambiguidade. Primeiramente, fico muito tocado que o Thierry Frémaux me tenha escolhido para a abertura, porque geralmente não são escolhidos filmes de autor e então senti-me muito honrado.

Por outro lado, ao entrar na sala tenho um ritual de me virar para o balcão para agradecer a todos os cinéfilos que se encontram no primeiro andar. Porque em baixo costumam estar “os de smoking e vestido”. E então levanto a cabeça e apercebo-me de que não há nenhum cinéfilo! Isto porque a projeção de abertura tem todos os comerciantes de Nice e Cannes, tornando-se muito mais fria.

Estamos metidos numa situação difícil porque antes há um espectáculo em que fazem a apresentação com as habituais piadas do anfitrião, portanto é menos agradável de viver que uma projeção em competição. Mas recebo-o como uma honra, porque é importante na vida de um realizador de fazer por uma vez a abertura do festival. É uma honra considerável.

O que mudou mais ao longo da sua carreira? Torna-se mais fácil de concretizar o que tem em mente?

Nunca temos o que queremos quando fazemos filmes. Eu não, talvez outros, mas eu não. Mudei muito, comecei agora há três meses a fazer um filme em que me espanto a mim mesmo, do género “Foste tu que escreveste isto?”. Porque a cada filme tento surpreender-me mesmo se por vezes as pessoas fazem a gentileza de me dizer, “Ah, reconheci-te no filme.” Enquanto eu faço propositadamente tudo para que seja diferente. Fiz o “Três Recordações da Minha Juventude” só com novos atores, todos desconhecidos e portanto agora é o oposto com a Marion Cotillard e a Charlotte Gainsbourg, as duas vedetas mais conhecidas de França. Para o meu próximo projeto vou ter de fazer algo ainda mais diferente.

“Três Recordações” era o início do amor, o “Ismael” é o fim do amor, mas os espectadores vêm a continuidade. Com gentileza dizem que me reconheceram e eu respondo “Não, não, eu estou a tentar disfarçar-me”. Neste momento encontro-me a escrever um filme em que me surpreendo, não sei de todo onde vai dar, nem como o fazer. Há uma grande mudança, mas ao mesmo tempo quero manter-me fiel a mim próprio. Quero fazer as duas coisas ao mesmo tempo.

O que pode revelar sobre o seu próximo projeto?

Ainda é muito cedo mas posso dizer qualquer coisa. Há pouco falava de “Vertigo” que é um filme muito importante para mim. Mas há outro filme, único na filmografia de Hitchcock, que é “O Falso Culpado” com Henry Fonda. Todo baseado em factos verídicos, sem imaginação, a partir de um “fait-divers” que fascinou Hitchcock. No meu caso, caí de amores por um “fait-divers” que estou a transformar em ficção. Sem juntar nada, tão nu como um filme de Bresson.