CinemaCríticas de CinemaDestaquesNo Coração da Escuridão – quando a fé e a vida descarrilam

Com Ethan Hawke num dos seus grandes papéis, No Coração da Escuridão é uma história de crença e auto-controlo. Tudo é o que parece se estivermos suficientemente atentos. A história de No Coração da Escuridão promete bastante, logo quando se lê a sinopse, bem como a equipa que rodeia a construção do filme e que inclui os nomes de atores consagrados e outros em ascensão mas de grande relevância no cinema actual. No Coração da...
Cátia Santos Cátia SantosJul 11, 2018219 min

Com Ethan Hawke num dos seus grandes papéis, No Coração da Escuridão é uma história de crença e auto-controlo. Tudo é o que parece se estivermos suficientemente atentos.

A história de No Coração da Escuridão promete bastante, logo quando se lê a sinopse, bem como a equipa que rodeia a construção do filme e que inclui os nomes de atores consagrados e outros em ascensão mas de grande relevância no cinema actual.

No Coração da Escuridão é uma viagem de cerca de duas horas a diversas questões que colocam a personagem do reverendo Toller (Ethan Hawke) numa espiral em direcção à perdição, a partir do momento em que conhece o marido de Mary (Amanda Seyfried), Michael (Philip Ettinger) e começa a acompanhá-lo a pedido da esposa.

No Coração na Escuridão

Michael é um ativista e ecologista extremista que acaba por contagiar Toller com as ideias do fim do mundo e da contaminação do ambiente com raízes profundas fixadas no capitalismo selvagem. O reverendo descobrirá amargamente que é esse mesmo capitalismo que financia a igreja para a qual trabalha. Tal leva-o também a radicalizar-se e distanciar-se da igreja do espectáculo, da televisão, dos grandes eventos.

Ethan Hawke protagoniza o filme realizado pelo lendário Paul Schrader, interpretando o papel do reverendo Toller, um homem de fé que entra numa espiral de dúvidas e auto-destruição, naquele que muitos consideram ser uma das suas grandes interpretações em cinema. Paul Schrader tem um palmarés tão impressionante como argumentista e realizador que é normal haver expectativa para o seu novo filme, sobretudo tendo em conta o tema algo auto-biográfico que constitui o cerne da história.

Schrader teve educação calvinista rígida e até à adolescência nunca havia assistido a um único filme. A televisão era vista às escondidas da mãe em casa de vizinhos católicos. Assim, não deixa de ser curioso que para o seu mais recente filme o realizador tenha recorrido a temas que conhece perfeitamente bem por tê-los vivido na primeira pessoa. Por isso, a sua pesquisa, que costuma ser extensiva, passou mais pela vivência pessoal do que pela investigação intelectual.

No Coração na Escuridão

Apesar do elemento íntimo e pessoal, No Coração da Escuridão não resulta próximo do espectador, algo que acaba por ser um denominador comum à cinematografia de Paul Schrader, muitas vezes apontado como se distanciando glacialmente do seu público. Aqui acontece precisamente isso, com um filme que tinha tudo para ser próximo mas que não o é. Trata-se da estratégia assumida do próprio realizador, que deu indicações a Hawke para que não desse tudo de si.

Rodado com mestria, é um filme dono de uma cinematografia clássica e impressionante, sobretudo porque se encontra completamente despido de artifícios e isso é visível tanto na escolha das sequências lentas e silenciosas como na ausência quase completa de banda-sonora e, já agora, de quase todos os tipos de sons estridentes. Nesse aspecto, estamos exatamente onde o realizador nos quer, retirados em silêncio como se de uma igreja anglicana se tratasse. Despidos de artifícios, barulho, tomando todo o tempo do mundo para meditar naquilo que se passa à nossa volta.

Todas as premissas do filme são, em teoria, interessantes e relevantes. Mas o que perpassa para o espectador é o imenso vazio de sentimento ou até de qualquer tipo de reacção. Acresce ainda o facto de parecer estarmos perante uma manta de retalhos temática que acaba por não ter elementos verdadeiramente consistentes que os consigam ligar.

Assim, em muitos momentos o argumento desenha com precipitação uma série de lugares-comuns que não seriam de esperar de alguém como Paul Schrader, autor dos argumentos de alguns dos maiores filmes da História do cinema, nomeadamente Touro Enraivecido, Taxi Driver e A Última Tentação de Cristo.

No Coração na Escuridão

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É como se a todo o custo o filme não pudesse apenas versar acerca das questões de fé e dúvida pessoais e tivesse de conter espetáculo e temas prementes como a ecologia ou a relação da igreja com as grandes empresas poluidoras.

Em certa medida, essa ansiedade de colocar em cena mais do que é necessário entra em contradição com aquilo que o realizador já afirmou publicamente desejar mostrar em No Coração da Escuridão. Que é o despojamento, a meditação e o encontro com a fé no silêncio.

Se visualmente o filme nos mostra belíssimas e longas sequências de silêncio e tonalidades muito próximas do despojamento do preto e branco (que o realizador não utilizou por querer introduzir cenas que precisavam de cor), no conteúdo muitos dos elementos podiam nem sequer existir e não faziam falta para explicar ou empurrar o protagonista para o seu extremo.

No Coração na Escuridão

A beleza do trabalho de Paul Schrader reside nos momentos em que o reverendo se encontra só na sua casa praticamente sem mobília, escrevendo memórias em papel que destruirá dentro de um ano, recorrendo ao claro-escuro, ao despojamento, à ausência de música, à hiperativação da sonoridade ambiente.

Esse ambiente austero e despojado parece convidar para Ethan Hawke brilhar, ele que também é ator de teatro. Realçando as mínimas expressões e, sobretudo, a ausência de sentimentos que acabarão por surgir no seu extremo no final.. Neste aspecto, No Coração da Escuridão é um misto entre os dois mundos, cinema e teatro. Pelo que a escolha de Hawke passará tanto pelo seu talento como pela sua versatilidade.

Esta é também uma obra sem tempo e em que o realizador muito quis retardar e aborrecer o espectador, num exercício que resulta muito mais intelectual do que artístico, dado que muitos dos longos diálogos não têm o conteúdo necessário para compensar a espera de quem vê. Se esse tomar de tempo poderia ser uma coisa boa, acaba por resultar pura e simplesmente numa espera vã. Os argumentos que se esgrimem não trazem novidades ou conclusões e parecem forçados.

No Coração na Escuridão

Em contradição também com o facto de ser um filme que leva propositadamente o seu tempo para contar uma história, aquilo que conduz Toller até à quase perdição desenrola-se atabalhoadamente e de forma muito rápida e até àquele ponto não existem indícios do desespero que o reverendo diz sentir e que é o que dá sentido à sua vida.

Assim, se por um lado No Coração da Escuridão é uma excelente oportunidade para assistir a uma grande actuação de Ethan Hawke e a um filme clássico na sua realização e fotografia, a realidade é que parece tratar-se de vários tipos de filmes a decorrer ao mesmo tempo mas não ligados entre si.

É como se Paul Schrader se perdesse no deslumbramento pelas belas imagens, pelos enquadramentos perfeitos, pelo jogo entre sombra-luz e da sua relação com o lado lunar dos seres humanos e não conseguisse passar à prática aquilo que tinha proposto em teoria.

Assumidamente um estudioso do cinema e tendo já sido também crítico, aquilo que resulta deste seu filme é uma tentativa de vários caminhos diferentes sem necessariamente escolher qualquer um deles de forma clara. Para o espectador, fica uma sensação de obra incompleta. Não pela falta de respostas ou daquilo que fica para a imaginação de cada um mas porque não sabe muito bem qual o motivo de tanta espera infrutífera.

Cátia Santos

Cátia Santos

Sou apaixonada pelo cinema e pela escrita mas a minha primeira paixão foi a História. Em cada uma destas paixões estou como quando respiro e quero continuar a respirar assim.