A 72.ª edição do Festival de Cinema de Cannes encerrou com o anúncio feito pelo presidente do júri, Alejandro González Iñárritu, a anunciar a decisão unânime tomada pelo grupo de jurados em atribuir a Palma de Ouro a Bong Joon-ho.

O realizador Sul-Coreano levou para casa o galardão máximo do festival pelo seu “Parasite”, depois de, na edição do ano passado, o drama japonês maior que a vida “Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões” ter sido o premiado.

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Em “Parasite” conta-se a história de uma família de classe baixa que tenta melhorar a sua situação social infiltrando-se numa casa rica e foi esta linha de argumento de cariz social e político que levou à entrega do prémio de forma unânime.

A realizadora franco-senegalês Mati Diop ganhou o Grande Prémio do Júri pelo seu filme de estreia, “Atlantics”. Diop, que fez história por se tornar na primeira realizadora negra em competição, dramatiza no seu filme um lado da Europa da crise dos refugiados pelos olhos de uma mulher abandonada pelo homem que ama, quando ele decide fazer uma travessia ilegal.

O prémio de melhor atriz foi para a ascendente estrela britânica Emily Beecham pelo seu papel como Jessica Hausner em “Little Joe”, um filme de ficção científica em que interpreta uma cientista que começa a suspeitar que a planta que modificou geneticamente pode ter efeito adversos.

Emily Beecham é a primeira atriz britânica (apesar de ter dupla nacionalidade, já que é também norte-americana) a ganhar o prémio desde 1997, altura em que Kathy Burke triunfou com a sua atuação no filme realizado por Gary Oldman “Nil by Mouth”.

Antonio Banderas levou para casa o prémio para melhor ator pelo papel no filme que marca do regresso de Pedro Almodóvar, “Dor e Glória”, a sua obra semi-autobiográfica, e a quem Banderas dedicou o prémio, ao mesmo tempo que refletiu sobre a sua carreira que já leva quase 40 anos.

Os favoritos de Cannes Jean-Pierre e Luc Dardenne que já ganharam a Palma de Ouro duas vezes, levaram o prémio para melhor realizador por “Le jeune Ahmed” (“Yougn Ahmed”), filme que retrata um jovem muçulmano a viver na Bélgica atual e que tenta matar a sua professora depois de sofrer uma lavagem cerebral por parte de um imã radical.

Céline Sciamma ganhou o prémio para melhor argumento pelo seu filme “Portrait de la jeune fille en feu” (“Portrait of a Lady on Fire”), que é realizadora e autora do argumento, um filme de temática lésbica e que explora a noção do olhar feminino tanto na atualidade como através da tradição da arte ocidental.

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A nova obra do realizador palestiniano Elia Suleiman, “It Must Be Heaven” ganhou uma menção especial do júri e representa um olhar cómico sobre os problemas que assolam o seu país através das suas viagens desde Paris a Nova Iorque.

A Camera d’Or (Melhor Primeiro Filme) foi atribuída ao realizador guatemalteco pelo seu filme “Our Mothers”, que estreou na Semana da Crítica e se foca num antropólogo à procura do pai, depois de encontrar pistas num investigação sobre a guerra civil no país.

O filme brasileiro “Bacurau”, realizado por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles ganhou o Prémio do Júri, numa história que segue um realizador na sua viagem a uma remota aldeia e descobre os seus segredos obscuros.

Iñárritu presidiu a um júri que inclui o autor, artista e realizador Enki Bilal, o realizador francês Robin Campillo, a realizadora e atriz senegalesa Maimouna N’Diaye, a atriz americana Elle Fanning, o realizador grego  Yorgos Lanthimos, o realizador polaco Paweł Pawlikowski, o realizador americano Kelly Reichardt e a realizadora italiana Alice Rohrwacher.

Tarantino, com o seu muito aclamado “Era Uma Vez em… Hollywood” não recebeu qualquer prémio, o mesmo acontecendo ao novo filme de Ken Loach “Sorry We Missed You”, outro peso-pesado. Contudo, a recepção que, por exemplo, Tarantino, Jim Jarmusch e Malick obtiveram no festival indica que, pelo menos, serão sólidos sucessos para os realizadores – de Malick se diz que voltou à sua melhor forma.

A edição deste ano, depois de 11 dias de novos filmes e documentários, tornou-se histórica pela vitória de Mati Diop, a primeira realizadora negra a ganhar um prémio em todos os 72 anos de Cannes. No entanto, em todos estes anos apenas uma mulher ganhou a Palma de Ouro, Jane Campion com “O Piano”, prémio que partilhou com Chen Kaige em 1993.

Bong também é o primeiro coreano a ganhar o prémio cimeiro, mas anteriormente já tinha dado nas vistas nomeadamente com o seu Okja, de 2017, emitido na Netflix. Na altura, o filme passou em Cannes e foi apupado quando surgiu o logótipo da plataforma de streaming e a Netflix acabou, mais tarde, por retirar os seus filmes da competição depois de os organizadores do festival terem decidido que todos os filmes teriam de ter distribuição nos cinemas franceses.

Apesar de aparentemente muitos dos filmes terem cariz político-social, em Cannes não há espaço para declarações políticas, como aliás Iñarritu fez questão de frisar quanto às decisões tomadas pelo júri, baseadas imparcialmente no valor artístico dos filmes.

Ainda assim, o polémico realizador de “Fahrenheit 9/11”, Michael Moore, ao apresentar o prémio do júri, aventurou-se na crítica a Donald Trump, usando uma citação do pinto Pablo Picasso.

Aqui fica a lista dos premiados:

Palma de Ouro
Parasite, de Bong Joon-ho (Coreia do Sul)
Grande Prémio do Júri
Atlantiques, de Mati Diop (França/Bélgica/Senegal)
Melhor Realizador
Jean-Pierre e Luc Dardenne, por Young Ahmed (Bélgica/França)
Melhor Atriz
Emily Beecham, em Little Joe (Austria/Reino Unido/Alemanha)
Melhor Ator
Antonio Banderas, em Pain & Glory (Espanha)
Melhor Argumento
Céline Sciamma, por Portrait d’une Jeune fille en feu (França)
Prémio do Júri
Les Misérables, de Ladj Ly (França)
Bacurau, de Kleber Mendonça Filho & Juliano Dornelles (Brasil/França)
Menção Especial
It Must Be Heaven, de Elia Suleiman (França/Alemanha/Canada/Turquia/Qatar)
Camera d’Or (Melhor Primeiro Filme)
Our Mothers, de César Diaz (Bélgica/França/Guatemala)
Palma de Ouro (Curta-Metragem)
The Distance Between Us and the Sky, de Vasilis Kekatos (Grécia)
Menção Especial
Monstruo Dios, de Agustina San Martín (Argentina)

Prémio FIPRESCI
Selecção oficial
It Must Be Heaven, de Elia Suleiman (França/Alemanha/Canada/Turquia/Qatar)
Un Certain Regard
Beanpole, de Kantemir Balagov (Russia)
Semana da Crítica
The Lighthouse, de Robert Eggers (Canada/EUA)

Secção Un Certain Regard
Prémio Un Certain Regard
A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, de Karim Aïnouz (Brasil/Alemanha)
Prémio de Júri
O que arde, de Oliver Laxe (Espanha/França/Luxemburgo)
Prémio para Melhor Interpretação
Chiara Mastroianni, em Chambre 212, de Christophe Honoré
Prémio para Melhor Realizador
Kantemir Balagov, por Beanpole (Russia)
Prémio Especial do Júri
Liberté, de Albert Serra (França/Portugal/Espanha/Alemanha)