A série original da Netlix “Faz de Conta que Nova Iorque é Uma Cidade” estreou a 8 de janeiro naquela plataforma de streaming e conta com sete episódios que mostram ao espetador a visão única de Fran Lebowitz, a escritora com bloqueio de escritora há 30 anos. 

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A imperfeição de Nova Iorque por Fran Lebowitz

Realizada por Martin Scorsese, que também é produtor executivo, a par de Fran, esta é uma série focada exclusivamente em Fran Lebowitz, a personalidade histórica da cidade que em tempos já foi escritora e agora é oradora, inspiradora e provocadora profissional. 

Scorsese e Lebowitz são amigos de longa data, tão longa que nenhum deles se recorda realmente quando se conheceram. Em 2010, já o realizador tinha dado largas à sua admiração em relação a Fran, realizando um documentário na altura para a HBO (que não está disponível atualmente na HBO Portugal). 

Ambos são perentórios ao afirmar que, tanto num caso como no outro ou outras ocasiões em que se encontraram publicamente, nunca se trata de trabalho, são conversas entre duas pessoas que se admiram profundamente, talvez por isso a conversa flua sem esforço aparente.

Em “Faz de Conta que Nova Iorque é Uma Cidade”, o tom e o mote são estabelecidos com imagens de Fran a calcorrear uma maquete antiga que representa a cidade de Nova Iorque – “Panorama of the City of New York”, da autoria de Robert Moses, patente no Museu de Queens. Reconhece-lhe os pontos históricos, os que desapareceram, e, ao mesmo tempo, o caráter temporário e em permanente construção da cidade que nunca dorme. 

Apresenta, pois, uma cidade que é uma construção física em constante mutação, mas também a ideia de uma cidade emocional em que cada um encontra nas suas manifestações reais projeções de memórias e acontecimentos pessoais, fixados num determinado período de tempo.

“Faz de Conta que Nova Iorque é Uma Cidade” representa o olhar muito particular de Fran, a mulher perspicaz, inteligente e sagaz que não tem sequer telemóvel, mas é única na sua honestidade e humor ácido. Se ao início pode achar-se impossível achar-lhe sempre graça, a verdade é que o espetador poderá encontrar sempre motivos para rir, talvez não tanto como Scorsese, que se ri a bandeiras despregadas a cada palavra de Fran. 

É um privilégio poder assistir a um documento desta natureza proveniente de um dos maiores realizadores da história do cinema, perceber a sua humildade, mas, ao mesmo tempo, a coragem de trazer para a ribalta uma única mulher para meras conversas quando a maioria da televisão e cinema são feitos de espetáculo e grandes orçamentos. 

Scorsese apresenta ainda uma enorme lição de grandiosidade ao se eclipsar praticamente para que o palco pertença por completo a Fran Lebowitz. Poucas são as vezes em que intervém, até porque na grande maioria os episódios são apenas monólogos de opiniões emitidas por Fran.

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“Faz de Conta que Nova Iorque é Uma Cidade” não é só uma ode a Nova Iorque, é uma ode à visão de Fran sobre Nova Iorque e essa construção está plasmada, desde logo, no título. É Nova Iorque, mas não é um espaço físico real, imagine-se que é uma cidade sem turistas a empatar o caminho, mas pode perfeitamente não ser um lugar e apenas uma ideia construída de memórias. 

Facto é que Fran Lebowitz é o testemunho vivo de uma cidade que, em grande parte, já não existe e, nas suas palavras, nem era uma cidade muito apetecível quando para lá se mudou nos anos 70 para fazer carreira e respirar outros ares. 

Relembre-se que à época, Nova Iorque seria até uma das metrópoles mais perigosas do mundo. Contudo, como refere Fran, era Nova Iorque como ela era, brincado até com o facto de ter tido muita sorte de nunca ter sido violada e de só ter sido assaltada uma única vez. 

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A Nova Iorque que Fran Lebowitz apresenta é imperfeita e, no meio de todos os seus ódios de estimação (que são mesmo muitos), permanece imutável esse seu amor por aquela aceitável imperfeição, talvez das poucas coisas que a autora não questiona nunca ao longo da série.

De resto, todos os episódios são dedicados inteiramente a temas diferentes e mostram Fran a dar a sua opinião, muitas vezes polémica, sobre eles. A austeridade e sobriedade da produção, com a maioria das conversas a ocorrer num clube que em si mesmo também faz parte de um passado cada vez mais em extinção, clássico, exclusivo, de intelectuais, são a prova que não é preciso gastar milhões para chegar a uma fórmula de sucesso. 

Nem sempre as superproduções dão necessariamente bons conteúdos e a criatividade e diferença podem ser tão ou mais prazerosas que uma produção colossal. Nesse aspeto, Scorsese mostra que é versátil na sua aproximação ao cinema e à televisão, não esquecendo que a maioria dos seus filmes são produções de grande magnitude, tanto nos custos envolvidos como na duração das películas. 

“Faz de Conta que Nova Iorque é Uma Cidade” é um dos pedaços de televisão mais criativos e mordazes deste ano. Sem fazer alarde dos seus trunfos, surgiu discretamente no catálogo da Netflix, mas para os olhares mais atentos tinha todos os ingredientes certos. 

Pode custar a crer que tenha conteúdo suficiente para encher sete episódios, mas assim que se conhece Fran percebe-se que daria para mais do que aqueles episódios de trinta minutos. Desde as experiências de trabalho, passando pela vivência com as celebridades da época, a cultura ou até mesmo o trânsito ou os transportes públicos.

Assistida agora, é ainda irónico e sintomático que represente já uma visão de cidade que se eclipsou, terminada que foi pouco tempo antes de a pandemia ter devastado a cidade e tanto Scorsese como Fran refletiram a posteriori sobre isso em entrevista dada ao LA Times.

“Faz de Conta que Nova Iorque é Uma Cidade” é um dos conteúdos mais enriquecedores produzidos pela Netflix no que ao entretenimento inteligente diz respeito, muito embora possa não agradar a muitos o fator negatividade que Fran Lebowitz parece carregar consigo.

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O que é certo é que essa parte da sua personalidade integra-se perfeitamente no espírito da cidade e, por isso, talvez seja mais facilmente compreensível pelos seus iguais. Por outro lado, é igualmente fascinante para outras culturas e pode-se dizer que para quem não conhecia Fran, as suas entrevistas podem tornar-se viciantes.

Scorsese pegou inclusivamente em diverso material proveniente de entrevistas dadas pela autora em programas de televisão norte-americanos, bem como imagens de palestras em que ele próprio participou ou foi anfitrião.

Mostra, através das imagens de arquivo, que Fran Lebowitz se bate com qualquer um em qualquer contexto (até Spike Lee), mas o modo como o faz é de tal modo respeitoso para com as opiniões alheias que é quase impossível não gostar dela ou afronta-la de outro modo que não com civilidade.

Sem dúvida, um dos conteúdos mais surpreendentes, divertidos, frescos, interessantes e desprendidos do catálogo de séries originais da Netlix. Está disponível na plataforma desde 8 de janeiro.