Muitas vezes uma prop não é apenas um objecto. Uma prop consegue, pelo seu simples aspeto e interação com as personagens, criar um elo emocional com a audiência e ter um peso tão grande no filme como um actor. Haverá então melhor exemplo de uma prop que Wilson, a bola de vólei?

Quando o guionista William Broyles Jr. precisou de inspiração para a história de sobrevivência de “O Náufrago”, viajou para uma ilha pouco populada no Golfo da Califórnia para ter a experiência em primeira mão do que seria estar sozinho numa ilha.

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Em pouco tempo, tornou-se óbvia a necessidade de companhia. Broyles conta:

Tive que descobrir como abrir um côco, porque tinha muita sede. Tive que descobrir como fazer uma faca a partir de uma pedra. Tive que aprender a pescar raias com uma lança. Foram apenas uns dias, mas senti-me mesmo muito só. E numa manhã uma bola de vólei da Wilson deu à costa na praia e eu olhei para ela, pus-lhe umas conchas e comecei a falar com ela…

O Wilson pode ter sido apenas uma bola de vólei, mas era tudo para Chuck. Ele salvou o executivo da FedEx de morrer lentamente e sozinho, naufragado numa ilha do Pacífico do Sul durante quatro anos. Por isso, quando o Wilson flutua para longe durante a fuga do Chuck, é uma perda tremenda para a personagem principal, mas também para a audiência.

Wilson

A prop tornou-se um ícone da cultura popular instantaneamente. Uma das bolas originais usadas no filme foi vendida por $18.400 dólares americanos num leilão online.

A fabricante Wilson também aproveitou os 15 minutos de fama. começando a fazer bolas com a impressão da mão de Chuck. Isto apesar de inicialmente a empresa não estar interessada, segundo Robin L. Miller, o mestre de props do filme.

O nome Wilson estava no guião, por isso contactei a empresa Wilson para me fazerem algumas bolas. Eles não estavam interessados nessa altura. Cinematografia não tinha nada a ver com eles. Mas tive sorte em encontrar uma mulher lá que, depois de explicar que estava a trabalhar com um actor galardoado pela Academia e com um realizador galardoado pela Academia, que a bola se chamava Wilson, pelo amor de Deus, e que eu precisava de algumas em branco para pôr a impressão da mão do Tom [Hanks], me arranjou vinte. Apenas vinte.

Wilson

Quando o Tom fez a original, pus tinta vermelha na mão dele e eles fizeram o padrão na bola, não à frente da câmara. Ele tentou e… não ficou muito bem. Então repetimos outra vez e outra vez e, quando conseguimos uma com espaço suficiente para a face, essa tornou-se o molde. Repetimos à frente da câmara e, nessa altura, já sabíamos como íamos fazer porque já tínhamos definido três meses antes: quão longe os dedos tinham que ir, a que linhas da bola tinham que chegar.

Havia apenas cinco para usar no filme para filmagens de perto. O desgaste muda ao longo do filme. O cabelo fica todo desfeito pelo fim. Mas fizemos com que durassem. Eu guardava-as com a minha vida.