Com momentos de realização extraordinários e um argumento muito sólido, “Sul” veio dar a oportunidade, há muito esperada, aos melhores atores portugueses de poderem brilhar e mostrar a sua enorme qualidade.

A série de Ivo M. Ferreira é protagonizada por Adriano Luz, Afonso Pimentel, Jani Zhao e Margarida Vila-Nova.

A história central de “Sul” foca-se numa investigação policial sobre o alegado suicídio de duas jovens, liderada por um par de inspetores de faixas etárias distintas, com relações e problemas pessoais também eles diferentes. A par desta, há também outras histórias igualmente importantes que se cruzam com o desenrolar da série.

Durante muitos e muitos anos em Portugal, para além de telenovelas, o que se fazia em televisão passava sobretudo pelas séries policiais. Apesar de na última década ter havido uma outra vertente em foco, as séries de época, os policiais sempre prevaleceram. Sempre com os mesmos ingredientes, sem inovar, sempre em busca de chegar ao máximo de público possível, as televisões portuguesas, com a excessão da RTP, embora esta sem estar totalmente ausente de culpas, descoraram enveredar por um caminho diferente, o de tentar atingir a excelência.

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– A mudança e o crescimento na televisão portuguesa –

A série começa muito bem. Um início bem elaborado, com uma apresentação cuidada da história, assim como das personagens, pouco a pouco, sem pressas, no tempo certo. Depois, e com a preciosa ajuda dos atores, esta flui. Sem se dar por isso, tudo vai acontecendo com uma clara simplicidade e, ao mesmo tempo, complexificando-se com o desenrolar da narrativa.

Com “Sul”, há uma clara evolução no que diz respeito à televisão que por cá se faz, sobretudo no que toca às séries policiais, em relação a todos os aspetos, estejam estes relacionados com a escolha do elenco, a realização, o argumento ou até no que às partes técnicas diz respeito, como a fotografia, a banda sonora ou o guarda-roupa.

– “Sul” vem mostrar como é fazer-se boa televisão. –

Em “Sul”, tudo é tido em conta, até ao mais pequeno pormenor: uma realização que apetece dizer não parece ser portuguesa, com planos incríveis, que não se veem com frequência, muito menos em Portugal; uma fotografia que se consegue equiparar; e ainda uma banda sonora que tem o papel de impulsionar quando necessário, em momentos de tensão, e de não a deixar cair nos momentos mais “mortos”, funcionando como uma leve companhia, fazendo com que o espectador não se desligue do ecrã. Sem recorrer a clichês, “Sul” tem ainda um par de momentos algo previsíveis. Assumindo esse caminho, a série consegue contorna-los de uma forma extremamente simples: não os mostrando.

O elenco é fabuloso. Ao longo dos nove episódios que compõem a minissérie portuguesa, não há espaço para uma má performance. Seja no que toca às personagens que contemplam mais tempo em cena, como aquelas que não dispõem de muito tempo de antena. O protagonista e maestro de toda esta ficção, Adriano Luz, tem uma execução perfeita. Afonso Pimentel e Margarida Vila-Nova completam-se. Há uma química que enorme entre os dois. Os astros Nuno Lopes e Beatriz Batarda, que interpretam papeis secundários, têm eles também um papel preponderante na série, exercido esse de forma exemplar, ora não fossem os melhores que por cá temos, fortalecendo ainda mais o elenco da série.

Ivo Canelas, com um papel de outsider, é igual a si próprio e consegue uma vez mais um desempenho muito consistente. Por fim, e não menos importante, Jani Zhao, que cumpre as expectativas, embora não se consiga sobressair perante os seus pares. A dupla que faz com Adriano Luz não a favorece. O ator facilmente rouba as cenas em que ambos contracenam. Contudo, consegue, ainda assim, ser fiel à personagem ao longo de toda a série, cumprindo o que lhe competia.

– O ponto fraco. –

É um ponto fraco e não um ponto menos forte. A série acaba por pecar onde todas as suas precedentes pecaram. Uma parte de extrema importância que ainda não se conseguiu resolver: as cenas de ação. Não é de agora que os projetos portugueses revelam uma dificuldade enorme nas cenas de ação. Parece ser crónico este problema. Mal coreografadas, com planos que não ajudam, faz existir, ainda que por breves segundos, e ainda bem, um buraco negro que suga tudo o que está à sua volta.

Em suma, “Sul” revela uma maturidade tremenda, comprovando uma tendência de evolução no cinema e televisão português(a). É, sem grandes dúvidas, uma das melhores séries já feitas no nosso país, ficando apenas atrás de “Sara”, uma comédia dramática da autoria de Bruno Nogueira, que foi liderada pela sua mulher, Beatriz Batarda.

“Sul” estreou na RTP em 2019 e está agora disponível na HBO Portugal.