CinemaDestaquesMatérias EspeciaisNetflixTelevisãoTalking Points #1 – Netflix: Entre festivais e Óscares

No início de 2019 o Cinema Pla'net lança uma nova rubrica, um debate semanal sobre os acontecimentos que marcam a atualidade cinematográfica e televisiva.
Miguel Revel Miguel RevelMar 15, 201944 min

No primeiro trimestre de 2019, o Cinema Pla’net lança uma nova rubrica, um debate quinzenal sobre os acontecimentos que marcam a atualidade cinematográfica e televisiva.

Em janeiro de 2018 “Mudbound – As Lamas do Mississípi” um filme da Netflix talhado para os Óscares não foi nomeado a Melhor Filme. Um ano depois este facto está praticamente caído no esquecimento mas foi o início de um longo debate que se estendeu pelo resto do ano.

Esse debate passou por temas como a venda de filmes de estúdio à Netflix, a estreia surpresa de “O Paradoxo de Cloverfield” a seguir à SuperBowl, a recusa do Festival de Cannes em ter filmes da Netflix em competição, a vitória de “Roma” no Festival de Veneza e que culmina com 15 nomeações da Netflix aos Óscares, incluindo as 10 nomeações de “Roma”, um dos grandes candidatos ao Óscar de Melhor Filme.

No final, “Roma” venceu Melhor Realização, Melhor Fotografia e Melhor Filme Estrangeiro e “Período. O Estigma da Menstruação.” venceu o Óscar de Melhor Curta-Metragem Documental.

Venda de filmes de estúdio à Netflix

2018 foi o ano em que grandes estúdios venderam à Netflix filmes com previsões de bilheteira duvidosas. Entre eles “Aniquilação” (Paramount), “Bird Box – Às Cegas” (Universal)“Mogli – A Lenda da Selva” (Warner Bros), “Extinção” (Universal) e “Shaft” (Warner Bros.).

No entanto, para além do êxito global de “Bird Box”, o filme cuja estratégia de marketing mais deu que falar foi certamente “O Paradoxo Cloverfield”. Vendido em segredo pela Paramount à Netflix por 50 milhões de dólares, a plataforma de streaming lançou o primeiro trailer do filme durante o intervalo da SuperBowl, a anunciar que o filme estaria disponível na mesma noite, assim que a final do campeonato de futebol americano acabasse.

Mas afinal, o que pensar desta estratégia de vender filmes do grande ecrã a uma plataforma de streaming?

MR: Todos os anos há filmes originais que são êxitos surpresa, tal como há sequelas/prequelas/spin-offs… que se revelam autênticos desastres de bilheteira. Um estúdio descartar um filme só porque acha que não vai ter sucesso é mau. Vai contribuir para que no final só fiquem blockbusters tipo Marvel e Star Wars, que são bons mas não são tudo.

JST: A verdade é que o caso não tem a ver com falta de confiança no produto e resultado nas bilheteiras. Tem a haver com liquidez. Ao vender à Netflix recebem o dinheiro no imediato, o que para o sistema de produção é um problema constante. A questão de pensar que só um filme com má qualidade teria lugar no serviço é completamente errada, apesar de ser um serviço streaming, isso não impede que os filmes não tenham qualidade cinematográfica e muitos deles têm também lançamento limitado nos cinemas para quem deseje ver no grande ecrã.

MR: Para o ‘Cloverfield Paradox’ compreendo, ganharam logo 50M$ com um filme que correu mal e iria danificar o “universo” Cloverfield. No caso do ‘Annihilation’ foi claramente falta de confiança. Acho que o filme recuperaria muito bem o seu dinheiro só com o mercado asiático, quanto mais quando se juntasse as receitas do mercado europeu e sul-americano. Precisava só de uma boa estratégia de marketing.

SS: Acho que ora é uma medida de precaução ora é uma medida para tentar chegar a mais público ou até a um novo público. Eles sabem que as pessoas gostam cada vez mais de assistir às séries e filmes no conforto da sua casa e por um preço mais baixo do que indo ao cinema, por isso, naturalmente, investem nessa tendência.

AM: É uma estratégia que a curto prazo funciona para os estúdios, mas não parece sustentável a longo prazo. Têm lucro garantido hoje, mas a verdade é que o talento criativo por trás desses projectos deve ver a venda à Netflix (e outras plataformas de streaming) como uma facada nas costas. Do outro lado está a Netflix, que só deve ter retorno financeiro a longo prazo. A Netflix está a tentar aumentar o volume de produções originais e esta jogada de comprar filmes a alguns estúdios é para chamar novas subscrições e dizer “venham ver os nossos filmes”, não somos só séries. Sinceramente acho que esta moda, não é uma moda. É uma necessidade do momento de ambos os lados.

RF: Sendo breve. É uma opção que se entende a nível económico, o cinema não deixa de ser um indústria. Porém, era preferível que passassem no cinema. Mesmo que não desse sequer para recuperar o que investiram, não deixa de ser cinema. É uma arte! O “não dar para chegar ao público todo” não deve ser impeditivo de se fazer filmes, nem de os mesmos irem para o cinema.

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Miguel Revel

Miguel Revel

Apaixonado por cinema desde criança, dos clássicos modernos de Nolan e Fincher às obras intemporais de Hitchcock e Welles. Licenciado em Ciências da Comunicação na Universidade Nova de Lisboa. Colaborador do Cinema Pla'net desde Agosto de 2015.