As grandes liberdades de “As Andorinhas de Cabul”

“As Andorinhas de Cabul” é um improvável e (demasiado) discreto filme de animação, que faz com que o espetador deseje por vezes que tivesse mais voz e mais impacto.

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Será este desejo o reflexo de um cinema e de uma sociedade com demasiado ruído ou um legítimo anseio?

O filme trazido a cena por duas mulheres, a atriz e realizadora Zabou Breitman e a ilustradora Élea Gobé Mévellec é discreto e, no entanto, aquilo de que fala revela-se como uma implosão ou a queda de uma árvore numa floresta quando não está ninguém por perto para ver ou ouvir.

O silêncio de “As Andorinhas de Cabul” é o silêncio dos homens bons que nada dizem quando testemunham a crueldade dos maus homens e sobre as consequências das ações que levam a uma cada vez mais controlada e fechada sociedade como é o caso da afegã.

Filme baseado na famosa obra homónima de Yasmina Khadra, alter ego do argelino Mohammed Moulessehout, toma algumas liberdades no modo como retrata as histórias de Mohsen e Zunaira ou de Mussarat e Atic.

Se a algumas liberdades os argumentistas Sébastien Tavel, Patricia Mortagne e a própria Zabu Breitman se puderam dar ao luxo de ter na adaptação do filme, tal se deverá ao facto de viverem em liberdade e não sob o jugo talibã.

A história passa-se no verão de 1998 e retrata de forma amarga a sociedade afegã sob o efeito terrível dos talibãs e na repressão a que todos estão sujeitos, mas sobretudo o modo como as mulheres são profundamente ostracizadas.

Há esperança e futuro nos pequenos gestos, há futuro no desejo de ensinar as futuras gerações, ao longo dos 81 minutos deste belíssimo e discreto filme de 2019 que passou na secção “Un Certain Regard” de Cannes e um mês depois esteve em Annecy.

A produção esteve a cargo de Les Amateurs, estrutura que esteve por detrás de “Belleville Rendez Vous” e envolveu um enorme processo de aprendizagem e trocas entre as duas realizadoras para chegar ao resultado final, mas sobretudo um enorme trabalho de Élea Gobé Mévellec em definir o que e como animar a partir dos frames de Zabou Breitman, que filmou na realidade com os atores que dão a voz aos personagens – incluindo Hiam Abass, a atriz da série da HBO “Succcession”, no papel de Mussarat.

É durante um ambiente e período de enorme repressão e retrocesso social que o filme se foca nas pequenas trocas diárias, nos pequenos gestos, no amor que se decide, nos sacrifícios, nas prisões dentro das prisões.

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A chegada ao poder dos talibãs significou um retrocesso em muitas das liberdades vividas na capital do Afeganistão, até mesmo no hábito aparentemente inofensivo de ir ao cinema ou dançar. A educação é a exclusivamente religiosa e as mulheres são julgadas e mortas na praça pública sob o olhar atento dos homens que as julgam segundo preceitos exigentes e irrealistas.

Na seclusão do lar, algumas liberdades são permitidas, desde que longe dos olhares e ouvidos mais críticos, e é nessa base que o amor de Mohsen e Zunaira se desenrola, um casal progressista que pensa até em ensinar na clandestinidade, até que a morte os separe.

“As Andorinhas de Cabul” é um filme de animação para adultos sobre a esperança e isso está bem patente no constante piar das andorinhas, que insistem em voar livres, quase desafiantes dos termos dos homens, mesmo quando os mais cruéis atos são cometidos.

É um filme de silêncio que remete para a estabilidade que a falta de liberdade traz, uma falsa sensação de estabilidade e segurança sob a qual se escondem as mais abjetas ações secretas, escondidas, um silêncio que lentamente mata até os pensamentos.

Por isso, em “As Andorinhas de Cabul” parece nada acontecer, muitas vozes ansiarão por um pouco mais movimento, mas é a falta de movimento a chave para este muito discreto, mas portentoso filme.

O belíssimo traço da aguarela ilude e remete para a placidez do deserto, os tons oscilam entre o intenso azul do céu, quase branco de calor, o amarelo da areia e dos edifícios, e uma espécie de névoa que paira sobre a tela, em contraste marcado com as imagens de um passado recente coloridas e intensas.

O desespero e desejo por um futuro menos baço levará os personagens centrais a tentar subverter as regras, caindo apenas uma derradeira vez nas mãos da misericórdia que é concedida por vezes a quem tenta.

O final de “As Andorinhas de Cabul” é um enorme murro no estômago, mas envolve um misto de emoções. Há amor e entrega, resiste uma centelha no âmago dos homens que consegue dar origem a barulho e caos quando tudo o que resta é a ausência de som.

A ausência é o segredo de “As Andorinhas de Cabul”, a existência, mesmo que atroz e mortalmente ferida, é a prova de que é humano tentar, é humano cair em tentação e é humano desejar. Facilmente se fecha a boca e se agride e se julga, não dizer nada magoa mais que as pedras, o silêncio mata mais do que as armas.

É por isso que em “As Andorinhas de Cabul” o que se passa é para ler nas entrelinhas, nos gestos das mãos que ainda se movem para tocar e acariciar, nos esforços e riscos que se correm por um beijo ou até mesmo ficar a olhar as andorinhas que, alheias às mesquinhas maquinações humanas, volteiam para lá das barras de metal da prisão e anunciam sempre a Primavera, mesmo quando no interior das prisões humanas se instala o mais profundo dos Invernos.

Estreou a 10 de Junho nos cinemas.