DestaquesEntrevistasLet's TalkLet’s Talk #62 – Rémi Bezançon e “A Biblioteca dos Livros Rejeitados”

Nomeado a 4 Césares, Rémi Bezançon passou por Portugal para apresentar a adaptação cinematográfica do best-seller "A Biblioteca dos Livros Rejeitados".
Miguel Revel Miguel RevelNov 15, 2019

Nomeado a 4 Césares, Rémi Bezançon passou por Portugal para apresentar a adaptação cinematográfica do best-seller “A Biblioteca dos Livros Rejeitados”.

Há 10 anos apresentou “O Primeiro Dia do Resto da Tua Vida” aqui em Lisboa na Festa do Cinema Francês. Muito mudou desde 2009…

Lisboa mudou muito e parece-me que para melhor. Quanto ao filme, desde que o apresentei aqui, teve um grande sucesso e ainda passa muitas vezes na televisão em França. Marcou as pessoas e acabou por se tornar num filme de culto.

Qual a recordação mais bonita que guarda deste filme?

Mostrá-lo pela primeira vez e ser bem recebido. Ver que o público conseguia verdadeiramente identificar-se com aquela família. Lembro-me que o poster dizia “Esta família é a sua.” e as pessoas sentiram isso.
Acho que uma das coisas que compõe a beleza do cinema é o facto de às vezes enquanto espectador poder sentar-me a ver um filme e conseguir identificar-me com o que está à minha frente.

É curioso que fale nisso, porque na “Biblioteca dos Livros Rejeitados” a personagem principal diz que nos revemos sempre no protagonista de um livro. Como é que esta adaptação lhe veio parar às mãos?

Na verdade foi o escritor David Foenkinos que me contactou há 10 anos para eu adaptar um livro dele. O projeto não andou para a frente mas tornámo-nos amigos e acabei por ler tudo o que ele lançou e ao deparar-me com “A Biblioteca dos Livros Rejeitados” vi logo que dali podia sair um bom filme. Amei aquela ideia de salvar os livros rejeitados pelas editoras, achei-a muito poética. Também gostei do facto de ser uma investigação literária um pouco à Agatha Christie, só que neste caso não procuramos quem matou mas sim quem escreveu, tem um lado ‘whodunnit’ que me agrada muito. A partir daí perguntei ao David se concordava com uma adaptação e ele cedeu-me os direitos.

Dado que é uma história bem complexa a adaptação deve ter sido desafiante…

Expliquei-lhe o que queria fazer, porque o livro era muito mais rico, com inúmeras personagens, mas era preciso fazer escolhas e por isso eu decidi focar-me apenas no crítico literário que faz a investigação e na filha do Henri Pick (o pizzaiolo que do dia para a noite torna-se uma estrela da literatura).
Na escrita do argumento havia o desafio de manter a vertente do thriller, dosear as falsas pistas, para no final ficarmos surpreendidos sem nos sentirmos traídos. Senti a necessidade de manter um aspeto lúdico em que o espectador questiona constantemente quem poderá ser o verdadeiro escritor sem nunca ter a certeza.
Por outro lado, durante as filmagens o desafio era encontrar o tom certo na direção de atores, para não cair na caricatura. O objetivo é não vermos o ator mas a personagem que está a interpretar.

Quanto à escolha de Fabrice Luchini para protagonista…

Ao ler o livro pareceu-me evidente que o crítico literário apaixonado pelas palavras só podia ser o Luchini, pois é o ator francês mais literário, um verdadeiro amante de literatura, que pega nos grandes textos franceses e leva-os para o teatro. Escrevi a pensar nele e felizmente aceitou participar no filme, porque não sei a quem mais poderia ter oferecido o papel.

Qual é a sua opinião sobre as emissões literárias hoje em dia?

Praticamente desapareceram. Gosto muito de ler e costumava ver as emissões literárias mas atualmente só me recordo de uma: “A Grande Livraria”. Antigamente via “Apóstrofo” e “Direito de Resposta”.

Enfim, todos concordam que faz bem ler, mas praticamente ninguém encontra tempo para o fazer.

É verdade que é mais fácil sentarmo-nos à frente da televisão a ver uma série que a ler um livro. Infelizmente, cada vez menos pessoas lêem.

Entre “O Primeiro Dia do Resto da Tua Vida” e “A Biblioteca dos Livros Roubados” fez “Um Feliz Evento”…

… a comédia “Nos futurs” e “Zarafa”, um desenho animado que me durou 4 anos a fazer.

Ao longo do tempo sente que algo mudou na forma como realiza?

Sim, penso que mudei no sentido em que os meus primeiros filmes eram mais introspetivos, mais próximos de mim e inspirei-me muito nas minhas vivências. Tinham um lado mais geracional. Agora começo a entrar num ciclo mais lúdico em que falo menos de mim mas em que me divirto mais a cada filme que faço.

E falava de um filme de animação…

Que tenho quase a certeza de que estreou aqui em Portugal.

… Estreou sim, creio que há uns 5 ou 6 anos. Como correu a experiência?

Foi excelente. No fundo, estamos a contar na mesma uma história, mas a forma de a ‘fabricar’ é que é diferente. Co-realizei o filme com um animador, Jean-Christophe Lee, e é um processo longo mas apaixonante, porque ao invés de um filme em imagem real, quando fazemos um filme de animação decidimos tudo, cada gesto, não há atores a propôr algo, somos nós que decidimos tudo e é um controlo total da história.

É uma experiência que pretende revisitar?

Absolutamente, estou neste momento a desenvolver um novo projeto de animação. Entrentanto, acabei de escrever um argumento para um filme que também contará com o Fabrice Luchini, que se passa no mundo da arte contemporânea, uma amizade entre um pintor e o dono de uma galeria, um filme que vai misturar duas paixões minhas, a pintura e o cinema.

“A Biblioteca dos Livros Roubados” passou pela 20ª Festa do Cinema Francês e encontra-se em exibição nos cinemas portugueses. Foi visto por quase 1 milhão de espectadores em França.