Tenet | O épico de espionagem de Christopher Nolan (sem spoilers)

“Tenet” chegou finalmente às salas de cinema para impulsionar uma indústria que neste momento precisa de toda a ajuda possível.

Grande defensor da verdadeira experiência cinematográfica, perante o maior ecrã de cinema possível, Christopher Nolan apresenta a sua nova obra:

TENET

[SEM SPOILERS]

 Desde que começou a pandemia que já sentia falta de ir ao cinema. Em março vi o “The Invisible Man” de Leigh Whannell e desde então que nunca mais entrei numa sala de cinema. Nunca desde pequeno fiquei tanto tempo sem ir ao cinema e posso dizer que realmente senti falta da grande sala escura na qual vi tantos filmes. Talvez não seja a melhor altura para estarmos no cinema, porém existem diversas medidas de segurança que nos permitem voltar a apreciar a grande tela a par de um balde de pipocas e Coca-Cola. Assim sendo foi desta forma que volto ao cinema para ver o novo filme do senhor Christopher Nolan!

 Ainda ano passado tive o prazer de poder ir a uma sessão do primeiro filme de Nolan “Following”. Nesta sessão, o protagonista Jeremy Theobald abriu o espaço para perguntas e respostas com as quais reforçou o cuidado meticuloso que o realizador tem na construção das sua obras. Seja em viagens espaciais com filmes como “Interstellar”, a viagens pela mente com “Inception” e a uma das melhores trilogias de sempre com “The Dark Knight”, Nolan está mais do que consagrado como um dos melhores realizadores das últimas duas décadas.

Ver também: Do pior para o melhor: A filmografia de Christopher Nolan

 No seu novo trabalho, o cineasta traz diversos elementos de obras anteriores e leva-os a um novo degrau. Desde o puzzle cerebral, aos diálogos extensos, excelentes performances e incrível uso de efeitos práticos, está tudo aqui presente para criar uma aventura de espionagem cheia de adrenalina e com um conceito diferente de qualquer filme do género.

 E realmente é impressionante! O argumento também escrito por Nolan volta mais uma vez a tocar na questão do tempo, algo que o realizador usa quase de forma obsessiva nas suas obras. Desta vez, ele brinca com a inversão do tempo ou tal como ele explica “a mudança da entropia de um objeto”. Parece confuso, porém garanto que tudo é muito bem explicado, ainda que por vezes o possa ser em demasia.

 “Tenet” é um filme frenético. Desde a cena de abertura até ao último frame do filme senti-me bombardeado por informação atrás de informação acompanhadas por excelentes cenas de ação. O ritmo é de facto acelerado e por vezes difícil de acompanhar mas a experiência vale muito a pena. Já é costume em vários filmes dele boa parte dos diálogos serem pura exposição e este filme não é exceção.

Estamos sempre a ser lembrados sobre as regras do mundo em longas conversas que nos dão pistas novas sobre esta “inversão” que vemos no ecrã e muitas vezes explicam o que está a acontecer à nossa frente. A meu ver, admito que preferia que algumas destas explicações fossem visuais e não tão literais. Porém, também acho que não foi tudo entregue de mão beijada e para um filme que se monta quase como um puzzle, cada diálogo era uma peça que faltava no panorama geral e serviu para uma excelente construção de mundo.

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 São poucos os realizadores de blockbusters em tempos atuais que conseguem trazer algo diferente ao género. Entre vários filmes de super heróis a seguirem fórmulas semelhantes, cada vez mais temos filmes parecidos. Trazer algo novo é arriscado, principalmente quando esse algo novo custa cerca de 200 milhões a ser produzido.

No tempo em que vivemos, no qual o limite de atenção de muitos é reduzido a Instagram Stories de cinco segundos, parece difícil fazer um filme que exige a atenção do público a todas as cenas. Assim sendo, mais uma vez tenho de bater palmas a Nolan por entregar mais um épico de ação que se distingue ao trazer um novo conceito que não se limita a mastigar tudo mas nos obriga a refletir sobre o mundo que nos é apresentado no filme.

 As performances são incríveis, em especial John David Washington, com uma personalidade incrível cheia de carisma, classe e um grande sentido de humor. Também Robert Pattinson está muito bem no filme, com um tom um tanto sarcástico, serve como um grande parceiro à personagem de John David Washington. Elizabeth Debicki talvez seja a personagem mais interessante do filme. Isto porque é a única que tem bastante desenvolvimento, algo que no que toca às outras personagens acho que faltou.

 Existem duas cenas de diálogo nas quais a edição parece um tanto fora de tempo. Falo de cenas que exigiam um ritmo mais calmo no corte, algo que talvez pudesse beneficiar o ritmo frenético no filme. Também a banda sonora, apesar de acompanhar muito bem o filme e dar muita energia ao filme, não é memorável principalmente em comparação aos outros filmes do realizador.

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 As cenas de ação são fenomenais. Foram várias as partes em que me perguntei “Como é que eles conseguiram fazer aquilo?”. Nota-se mais uma vez um uso excelente de efeitos práticos seja a conduzir um avião contra um armazém ou na cena de perseguição de carros que talvez seja a melhor parte do filme. É certamente um filme que aposta mais no espétaculo e criação de universo do que na emoção, algo que o realizador fez no seu trabalho anterior com “Dunkirk”. Se no filme anterior a excelência técnica não foi suficiente para eu gostar do filme, desta vez o carisma das personagens a par da excelente história e realização criou uma ótima aventura repleta de adrenalina que merece ser vista na maior sala que conseguirem!

 Ao final do filme todas as peças encaixaram, ou pelo menos todas as que consegui apanhar! Mais uma vez, Nolan entrega um filme corajoso e ambicioso que nos leva de volta ao cinema na melhor forma possível! Preparem-se, é confuso e como vários filmes dele provavelmente irá beneficiar de múltiplas visualizações.

“Tenet” já se encontra em exibição nos cinemas, em todos os formatos.