MOTELX 2020 | Amulet – O feminismo como arma de justiça

Este ano, a 14ª Edição do MOTELX fez questão de assinalar o crescimento do feminino no terror. E se há filme que comprova isso é Amulet, a primeira longa-metragem de Romola Garai.

A produção, que está na Competição de Longas-Metragens Europeias deste ano, foi trabalhada maioritariamente por mulheres (80% do staff) e isso é notável em vários aspetos da obra.

Amulet prende a tensão do espectador do começo ao fim e consegue com mais do que um plot-twist dar volta à cabeça de qualquer pessoa.

O argumento conta a história de um homem Tomaz (Alec Secăreanu), um ex-soldado sem-abrigo que se encontra perturbado pelas experiências do seu passado – é através da dimensão do seu inconsciente que vamos descobrindo mais sobre si.

A longa-metragem faz uso durante bastante tempo desta narrativa paralela, estamos com Tomaz quando este está consciente e também quando está a sonhar. Quando dorme, o protagonista começa a ver uma mulher do seu passado, Miriam (Angeliki Papoulia).

Apesar de ser dada muita informação ao espectador através de ambas as dimensões, não se consegue imediatamente fazer sentido de tudo. E essa é a grande vantagem inicial do filme – partir de uma premissa que não é previsível. Pelo contrário, consegue, de facto, surpreender.

Quando uma freira (Imelda Staunton) cruza o caminho de Tomaz, este recebe uma proposta irrecusável: ter um teto gratuitamente, sendo que em troca só precisa de fazer alguma manutenção na habitação que já é bastante antiga e encontra-se desgastada. No local, vive Magda (Carla Juri) e a sua mãe (Anah Ruddin), que está batante doente.

Apesar de estar quase às portas da morte, a mãe de Magda surge como alguém que aprisiona e mal trata a filha. Logo, Tomaz vê-se o obrigado a proteger a jovem, mal sabendo ele que como se costuma dizer – as aparências enganam.

O clímax do filme acontece no terceiro ato e é bastante satisfatório ao ponto de até gerar risos na plateia.

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A produção só peca por querer entregar muitas ideias em simultâneo, complexificando o que podia ser mostrado de forma simples. Há um momento em específico que o filme insiste em mostrar imagens para não deixar dúvidas do principal plot-twist criado, como se os espectadores não fossem inteligentes para entender a trama.

Fora isso, Amulet tem ótimos momentos gore e confesso que me apanhou com um jump scare. Trata-se de um filme assumidamente feminista que sobressai pela sua capacidade de manter o interesse do público. De o enganar várias vezes e de o chocar com a verdadeira women power.

Além disso, condena a violação, algo que The Trouble with Being Born, outra produção realizada por uma mulher e exibida no festival internacional de terror, não foi capaz de fazer.