Hollywood | Nova série da Netflix é mais fantasia do que drama e emoção

Depois de meses à espera da nova série de Ryan Murphy, Hollywood, esta finalmente estreou na Netflix! Ficou rotulada como uma série emotiva e uma ode à indústria cinematográfica… Mas valeu a pena a espera?

Depois de meses à espera da nova série de Ryan Murphy, que prometia o melhor e o pior da indústria cinematográfica, “Hollywood“… Cai no cúmulo do exagero. A série quebrou todas as barreiras que existiam (algumas delas ainda existem actualmente) nesta indústria sem qualquer impedimento. Tudo pareceu tão fácil que deixa o espectador desiludido à medida que os episódios vão passando… Até chegarmos a um final muito improvável de acontecer numa história vagamente baseada em factos reais.

Hollywood” não perde tempo em apresentar-nos as personagens principais: um grupo de minorias cujos destinos se cruzam nesta La La Land. Ninguém disse que seria fácil atingir o estatuto de estrela em Hollywood e, ainda para mais, numa indústria a recuperar da Guerra Mundial. Jack Castello (David Corenswet), casado e prestes a ser pai, continua a perseguir o seu sonho de ser ator. A falta de trabalho nesta área obriga-o a trabalhar nas bombas de gasolina de Ernie West (Dylan McDermott), uma personagem baseada na história de Scotty Bowers. Na realidade, este negócio de Ernie é uma máscara para a sua verdadeira profissão: todos os seus empregados são prostitutos. Castello fica de pé atrás mas rapidamente toma consciência que precisa de um emprego… E este paga muito bem.

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Castello acaba por conhecer Archie (Jeremy Pope), um argumentista, negro e homossexual. Ao trabalhar nas bombas de Ernie, Archie conhece Rock Hudson (Jake Picking), um aspirante a actor e os dois acabam por se apaixonar. A este trio também se junta Raymond (Darren Criss), um aspirante a realizador meio-asiático; a sua namorada Camille (Laura Harrier), negra e também aspirante a atriz; e Claire (Samara Weaving), a rival de Camille e filha do director do estúdio mais popular de Hollywood, Ace Studios.

Estas personagens têm todas alguma coisa no currículo para serem rejeitadas: homossexuais, negros, asiáticos, mulheres, sem experiência na representação ou impedidos pela família de atingir os seus sonhos. No entanto, numa série sobre Hollywood, tudo parece encaixar perfeitamente para este grupo atingir sucesso.

A série apresenta-nos a cada episódio personagens bondosas, altruístas e sempre coma necessidade de mudar a fórmula da indústria cinematográfica. A história das bombas de Ernie acaba por ser uma espécie de fábrica para aspirantes a actores, visto que eles conhecem mulheres ligadas à indústria – desde esposas de directores de estúdios ou produtoras de filmes, aquela bomba é absurdamente popular. E no final, ainda acabamos por simpatizar com Ernie! Quem diria que seria um homem verdadeiramente incrível e com boas intenções?

A única personagem desprezível da história é Henry Wilson, interpretado por Jim Parsons. Wilson é um dos agentes de Hollywood capaz de tudo pelos seus actores, no entanto, também tem a sua montanha russa de emoções. Wilson também é homossexual e acaba por abusar emocionalmente dos seus pupilos. Esta personagem dá um certo nojo a quem assiste à série, mas no fim, vemos o seu momento de redenção. Wilson acaba por pedir à directora de Ace Studios para fazerem um filme sobre a história de amor entre dois homens. Em 1940 e tal. Em Hollywood. E a ideia é aceite. Nunca na vida isto iria acontecer.

A certa altura já nem estamos a torcer por nenhuma das personagens principais. Passam todas uma imagem tão positiva e bondosa, que até ficamos com a ideia que trabalhar na indústria cinematográfica é facilmente alcançável. Estas personagens juntam-se para criarem o filme Meg. Realizado por Raymond, com o argumento de Archie, este filme tem Camille no papel principal e Jack, Claire e Rock como secundários. Após muitas voltas no argumento, Meg é um filme sobre uma aspirante a atriz negra que não consegue atingir o estrelato em Hollywood que tanto desejava e vê os seus sonhos despedaçados.

Este filme que as personagens acabam por construir, juntamente com a nova directora do Ace Studios, Avis Amberg (Patti LuPone), sofre muito racismo. Os  membros da equipa são constantemente ameaçados mas Avis recusa a ceder e lança na mesma o filme. Com algumas estratégias de marketing, surpreendemente, este filme é um sucesso depois de vermos tanto ódio sobre ele.

É no último episódio que Hollywood acaba por cair (ainda mais) no rídiculo. O filme Meg é nomeado para diversas categorias nos Óscares. E… Acaba por ganhar as principais! Melhor Filme, Realizador, Atriz, Argumento Original… Esta série acaba de fazer com que um filme, realizado e produzido por uma minoria, acabasse por ser o grande vencedor da noite na VIGÉSIMA edição dos Óscares?? Dei por mim a torcer que o filme não levasse nada. Afinal, atingir as nomeações já era difícil na altura, quanto mais sair vencedor. O espectador acaba por se aperceber da fantasia toda criada e dizer para si mesmo “isto nunca iria acontecer”.

Teria sido muito mais interessante ver um final onde este grupo saísse derrotado dos Óscares, mas com a cabeça erguida, continuasse a trabalhar para fazer melhores filmes. Afinal, Hattie McDaniel foi a primeira mulher negra a ganhar um Óscar em 1940, na categoria de Melhor Atriz Secundária; Halle Berry foi a primeira mulher negra a ganhar um Óscar em 2002 na categoria de Melhor Atriz Principal. Ang Lee foi o primeiro realizador asiático a ganhar um Óscar em 2006 na categoria Melhor Realizador. Bong Joon-ho entrou para a história com o filme Parasitas a arrecadar vários óscares, entre eles Melhor Filme, Melhor Realizador e Melhor Filme Estrangeiro.

São estes factos verídicos que destroem uma série como Hollywood de ser mais um excelente trabalho de Ryan Murphy. Parece que a solução para todos os problemas de Hollywood está em ganhar estatuetas. Qual era o verdadeiro propósito desta série? Estará Murphy a dizer que Hollywood tem que ter uma mente mais aberta? Ou é apenas mais uma crítica à forma como esta indústria se comporta?

A série prende ao ecrã e cenários, guarda-roupa e maquilhagem estão sempre no ponto. A menção honrosa vai para Jeremy Pope e a sua brilhante personagem Archie. Foi sempre muito consciente que não seria fácil vender os seus argumentos, por ser negro. Continuou a lutar pela sua carreira e ainda lutar para que a sua relação homossexual fosse aceite.

No final, acabamos por ver mais uma série de fantasia, do que um drama sobre a carreira deste grupo recheado de minorias. A mensagem que passa é que qualquer um de nós pode verdadeiramente ser uma estrela em Hollywood, se der o máximo, trabalhar muito e ter uma pitada de sorte. Na vida real, sabemos que a história acaba por ser bem diferente…