Muito conhecida dos portugueses por novelas como “Ouro Verde” e “A Única Mulher”, Joana de Verona fala ao Cinema Pla’net sobre os seus projetos mais recentes no cinema.

Joana de Verona
Grace Passô e Joana de Verona em “Praça Paris”

Num ano em que participa em três filmes que estrearam nas salas de cinema portuguesas (“Pedro e Inês”, “Praça Paris” e “Amor, Amor”), Joana de Verona cuja carreira passou por filmes como “Mistérios de Lisboa”, “As Mil e uma Noites” e “Como Desenhar um Círculo Perfeito” fala sobre o Brasil, Inês de Castro e os desafios de conjugar as filmagens das telenovelas com outros projetos.

“Praça Paris” (de Lúcia Murat) é um filme muito relevante para o Brasil da atualidade…

Foi bastante exigente. É um filme muito pertinente que acho que as pessoas têm de ver. A Lúcia Murat é uma mulher que tem uma filmografia crítica incrível. É uma resistente de esquerda numa época em que se lutou contra uma ditadura militar. É uma mulher que foi torturada, exilada política, portanto ela tem imensa capacidade para falar de sistemas de poder, sobre violência e neste filme ela fala através da minha personagem que é a Camila.

A Camila é a representação de uma mulher de classe média branca europeia, a presença da colonização num Brasil em que há uma psicóloga e uma paciente que é a Grace Passô, dentro do enquadramento social de ser uma mulher negra, desfavorecida do ponto de vista social, moradora numa favela e irmã de um traficante.

Logo, em termos dos arquétipos da personagem, são completamente opostas, o que nos leva a refletir como é que cada uma existe e se relaciona num Brasil socialmente e politicamente conturbado. É um filme imperdível desse ponto de vista principalmente tendo em conta tudo o que está a acontecer neste momento. Até agora “Praça Paris” fez um percurso incrível no Brasil, ganhou prémios no Festival do Rio de Janeiro e eu gostava que as pessoas cá também o vissem.

Joana de Verona
O realizador António Ferreira com Diogo Amaral e Joana de Verona em “Pedro e Inês”

Do lado de cá do Atlântico interpretou Inês de Castro em “Pedro e Inês”

O António [Ferreira, realizador] chamou-me para um casting, tivemos uma reunião e fomos para a frente com o projeto. Gostei muito de explorar este fio de ser uma personagem real e histórica mas com uma camada ficcional e transgressiva muito grande, que se relaciona não só com o lado histórico mas com o mito, com o livro [“A Trança de Inês”, de Rosa Lobato Faria] e com o ponto de vista criativo do António.

É muito interessante ver como é que a personagem atravessa os três tempos e existe de formas diferentes, condicionada por características diferentes em cada tempo, mas que mesmo assim, com este amor muito cruel que é tão intenso e grandioso, supera todos os obstáculos. Gostei do facto de ela existir nestas três dimensões.

Vê também: Let’s Talk #50 – António Ferreira, realizador de “Pedro e Inês”

Para além do cinema, como se conjuga uma telenovela com todos os outros projetos?

“A Única Mulher” era muito longa e nesse sentido, para um ator que quer conciliar com outros trabalhos era mais difícil. Esta novela [“Valor da Vida”] é mais curta, são seis meses de projeto, vai acabar em Dezembro e tenho feito outros projetos ao mesmo tempo. Na verdade eu tenho feito uma performance no projeto da Christiana Jatahy, que é uma artista da cidade, uma brasileira que está cá com “Moving People”, dentro da perspetiva de dar voz a pessoas refugiadas que estão em Portugal e que querem partilhar as suas vidas. Entre a ficção e o documentário, a performance teatral e o cinema, contam as suas histórias. Estou a fazer isso durante a novela e fiz uma série brasileira para a HBO Brasil sobre o Santos Dumont [aeronauta e inventor brasileiro] que se chama “Mais Leve que o Ar” e vai estrear para o ano. Portanto, tenho feito coisas ao mesmo tempo que “Valor da Vida”, o que é bom.

Joana de Verona
Joana de Verona em “Valor da Vida” (TVI)

O que gostas mais no trabalho de atriz?

É uma pergunta que dava para estarmos à conversa três horas. Mas eu acho que é esta espécie de privilégio ou quase que dádiva de podermos transmitir coisas aos outros. Somos veículos, colocamo-nos em situações imaginárias, sensitivas, reais, ficcionais, colocamo-nos em situações e evocamos coisas. Transmitimos algo ao público e as pessoas podem ser tocadas e acho que isso é um trabalho bastante bonito.

Joana de Verona
Vera Kolodzig, Diogo Amaral e Joana de Verona na apresentação de “Pedro e Inês”

“Pedro e Inês” encontra-se em exibição nos cinemas, estando a poucos dias de se tornar no filme português mais visto do ano. “Praça Paris” estreou a 4 de Outubro.