No seguimento da celebração do BFI Flare, que mostra o que de melhor há no cinema queer, trazemos-te a entrevista com o realizador do filme Monsoon, Hong Khaou.

Sentámo-nos no Mayfair Hotel nos finais do ano passado onde ainda poderíamos usufruir de algo tão banal como estarmos todos juntos a conversar entre doses de cafeína e risos. Hong estava um pouco nervoso mas assim que a conversa se desenrolou tudo foi mais fluido. Falámos sobre o seu filme, a imigração e Milan Kundera.

É a primeira vez que vens ao London Film Festival?

Primeira vez sim! É um pouco intenso mas no bom sentido. Eu já vim como membro da audiência mas é a primeira vez que venho com um filme meu. Sabe bem! É fantástico!

Já tiveste a oportunidade de ver o teu filme com uma audiência? Como foi essa experiência?

Sim! Quando tivemos a primeira estreia, vimos o filme com uma audiência de quase duas mil pessoas, era um cinema enorme! É sempre difícil ter uma perspectiva porque eu nessa noite estava muito nervoso (risos).

Este filme fala de temas como a imigração e eu, enquanto imigrante, senti os temas que estavas a abordar. O que te fez escolher contar esta história?

Sou como tu, no meu caso eu sou um refugiado e vim para aqui em ’83. Quando vim era ainda muito novo e acabei por assimilar esta cultura e esta língua como a única que conheço. Mas os meus pais ainda carregam outra identidade cultural pela qual eu não cresci e eu queria abordar isso já há algum tempo, mas não sabia como.

Lembro-me que estava a escrever algo deste género há uns três anos atrás e nessa altura os refugiados estavam a ser mencionados como algo negativo e as pessoas não estavam preparadas para discutir esse assunto. O tema tornou-se demasiado político e eu queria contar uma história que lhe colocasse uma face humana.

Ninguém queria humanizar refugiados e imigrantes. Havia pessoas a dizer que ‘vêm apenas para tirar o que é deles’ e isso é simplificar o assunto. Eu queria fazer isto como um inglês que quer voltar ao local onde nasceu mas não tem quaisquer memórias ou raízes desse país. 

O teu filme retrata o tema da imigração mas de forma mais pessoal e íntima. A personagem principal, protagonizada pelo actor Henry Golding [Last Christmas, The Gentlemen], vive numa espécie de limbo. Ele não tem uma conexão com o país onde nasceu mas também se sente um estranho no país onde vive.

Tens razão, é exactamente esse sentimento de deslocação, e é mesmo desse sentimento que queria falar neste filme. Esta pessoa que não tem qualquer memória ou raízes e sente que não pertence a este sítio, mesmo que tenha lá nascido.

O truque foi arranjar uma maneira de falar sobre isso e neste caso é a historia dos pais, que fugiram de um país em conflito e que estão a construir algo de forma a esquecer o trauma que sofreram. Encontrar um jeito de humanizar a situação e não tornar o filme em algo educacional. Apenas deixar estes temas virem à superfície.

Inspiraste-te na tua própria experiência?

Não é completamente autobiográfico. Algumas coisas eu experienciei, mas mudei de forma a que resultasse em filme. Para mim, eu nasci no Cambodja mas a minha família fugiu para o Vietname. Então eu não tenho memórias do Cambodja, apenas do Vietname.

Para o filme eu tinha várias versões da personagem mas acabei por escolher uma que resultasse melhor e fosse mais simples então tornei-o Vietnamita porque eram as memórias que eu tinha. Eu usei certos sentimentos meus no argumento de forma a que resultasse.

Uma das coisas que me lembrei quando vi o teu filme foi o livro de Milan Kundera “A Ignorância”, em que a personagem principal não tem quase nenhuma memória do país de origem e acaba por romantizar essas memórias.

Não conheço esse livro e agora gostaria de o ter lido antes de fazer o meu filme (risos). Mas é uma óptima observação! Era outra coisa que queria contar, essa noção romântica de que tens que voltar à tua origem para descobrires algo ou teres resolução.

No meu caso quando eu voltei não tinha qualquer memória, senti-me inglês. E isso é o que queria mostrar com o meu filme, as coisas não são assim tão simples, as pessoas não são só uma coisa. 

Para terminarmos vou fazer uma pergunta que faço a todos os realizadores: Se fizessem um filme sobre a tua vida, quem escolherias para o realizar e porquê?

Interessante…Não sei se a minha vida vale a pena ser contada (risos) mas penso que escolheria o realizador tailandês Hou Hsiao-Hsien. Adoro os visuais do filmes dele. Ele é fantástico.

“Monsoon” estreia brevemente.