A segunda edição do FICLO (Festival Internacional de Cinema e Literatura de Olhão) chega a 15 de Julho e o Cinema Planet esteve à conversa com as diretoras do festival, Débora Mateus e Candela Varas.

Que balanço tiraram da primeira edição do FICLO? Certamente que adiaram algumas novas ideias para a edição do próximo ano?

O balanço da 1ª edição do FICLO foi muito positivo. Para um festival nos seus primeiros passos, conseguimos ter várias estreias nacionais, uma retrospectiva inédita da realizadora soviética Kira Muratova, entre outros ciclos e actividades paralelas, como por exemplo os passeios fílmicos, onde traçamos uma rota de filmes rodados na região (de Olhão a Castro Marim), de realizadores como Manoel de Oliveira, João César Monteiro, Teresa Villaverde ou Tony Gatlif. A nível de público também estamos contentes, para uma 1ª edição contámos com bastantes espectadores. E ficamos muito contentes quando vemos que desde a 1ª edição o festival levantou muito a curiosidade dos meios de comunicação, mesmo a nível nacional o que nos mostra que havia uma lacuna na exploração desta velha relação entre cinema e literatura, que vai muito além da questão das adaptações.

Em relação a esta 2ª edição que se viu adiada de Março para Julho deste ano, efectivamente, tivemos de cancelar algumas actividades e outras foram adiadas. O Ciclo do Gótico Tropical foi um dos adiamentos por ser, paradoxalmente, actual por excesso, por tratar temas que agora nos estão muito próximos devido à pandemia que vivemos.

Ver também: Site Oficial do FICLO

Para uma segunda edição, não podia ter sido num ano mais turbulento. Quais foram os principais desafios apresentados pela pandemia?

Sem dúvida está a ser um ano turbulento. Sim, teve um impacto muito grande. Tivemos de reagendar tudo, com o que isto implica, novos gastos, mais contratações. Este ano quase não contamos com patrocínios privados, portanto, mais gastos e menos recursos. O grande desafio é conseguir manter a serenidade para trabalhar com inúmeras variáveis, e conseguir os apoios do ICA para festivais, estreitar os laços com a Câmara de Olhão e com todas as instituições que tornem possível a continuação do FICLO para o ano que vem. Para os espectadores, o mesmo, manter a calma e a serenidade, e respeitar o distanciamento nos recintos, porém sem deixar de desfrutar do maravilhoso cinema que ao longo dos anos, sempre acompanhou os momentos mais difíceis, alentando poeticamente as nossas vidas.

A secção internacional, para além de muito eclética, tem escolhas bem arrojadas e 6 estreias nacionais! Um bom feito para um festival apenas na sua segunda edição…

Sem dúvida! Até porque não é fácil contar com estreias uma vez que os festivais são muitos e quase todos exigem a estreia mundial, europeia ou nacional dos filmes que seleccionam. Isso nunca acontecerá no FICLO, não deixaremos de trazer filmes por já terem andado nos circuitos de festivais, mesmo que em Portugal. Primeiro porque apresentamos os filmes numa nova luz, que se prende sempre nessa relação do cinema com a literatura. Segundo, porque não achamos que essa deva ser uma medida de selecção dos filmes, escolhemos os filmes porque os consideramos bons filmes e porque trazem uma nova relação com a literatura. Mas claro que já perdemos filmes que não podiam vir ao FICLO por questões de estreias noutros festivais.

A retrospetiva de Albert Serra é um dos pontos altos desta edição. Como correu a presença do realizador em Março? Tem uma carreira talhada para um festival de cinema e literatura como o FICLO.

Albert Serra esteve em Março em Olhão para ministrar um Seminário de ‘Metodologia e Cinema Contemporâneo’, que correu maravilhosamente bem. Serra é um artista muito interessante e poder estar 3 dias a conhecer melhor e em relação directa com o seu trabalho foi muito gratificante. Acho que todos os que participámos ficámos com um entendimento diferente da sua obra depois do seminário.

Serra, de facto, é uma escolha natural para um festival que promove a relação entre cinema e literatura. Todos os seus filmes partem da literatura, especialmente da literatura universal, ainda que não conte com nenhum filme que seja uma adaptação propriamente dita. “Honor of the Knights” é livremente inspirado nas personagens principais de El Quijote; “Birdsong” vai beber à Bíblia; “Story of My Death” foca-se nas memórias de Casanova e na figura de Drácula; “The Death of Louis XIV” inspira-se nas memórias de Saint Simon, e por aí a fora… A literatura universal ou a grande literatura serve de inspiração para os seus filmes. Mas podemos mesmo ir mais longe e dizer que Serra é para além disso tudo um poeta das imagens.

A retrospectiva permite conhecer a obra do autor a fundo, pois trata-se de uma retrospectiva integral, onde podemos acompanhar toda a evolução, do primeiro ao último filme, do realizador. Ressalvamos um dos seus filmes da retrospectiva pela singularidade dentro do seu universo. “The Lord Worked Wonders in Me” é, segundo o próprio realizador, uma brincadeira em forma de ‘Making of’ dos seus filmes passados e dos seus futuros filmes. Mostra-nos o lado divertido ou lúdico com que Serra trabalha juntamente com a sua equipa, na realização dos seus filmes, que normalmente o público não vê no formalismo dos seus outros filmes.

Esta edição do FICLO conta ainda com um ciclo do grande cinema italiano, com obras icónicas dos eternos Pasolini, Visconti, Rossellini e Antonioni. Com que critérios foi feita a escolha dos filmes?

O Ciclo de Cinema Italiano integra grandes clássicos de Rossellini, Visconti, Antonioni e Pasolini. O ciclo começa no pós-guerra com o Paisan de Rossellini, com um neo-realismo que se nutre de variadas influências literárias até ao cinema – poesia de Pasolini.

Uma das características mais sobressalentes deste ciclo é que está composto por filmes que reflectem magistralmente sobre o desafio de levar a nova narrativa contemporânea ao cinema, procurando o seu equivalente visual cinematográfico. Desde Journey to Italy (1954), inspirado nas últimas páginas de “Os Mortos”, conto do “Dublinenses” de James Joyce que, segundo os Cahiers, inaugura um novo tempo no cinema, até ao Antonioni do Nouveau Roman com The Passenger (1975), onde se emprega a ambiguidade da imagem como recurso especificamente cinematográfico (para expressar a dissociação da consciência).

Uma característica interessante a destacar é a Obra Criativa Ficlo. O que nos podem revelar sobre esta aposta original?

A Obra Criativa do FICLO é parte integrante da proposta estrutural do festival. A criação é uma aposta clara do festival de ter obras artísticas originais a cada edição.

Na 1ª edição a Obra Criativa consistiu no convite a 4 escritores (Alexandra Lucas Coelho, Gonçalo M. Tavares, Nuno Moura e Candela Varas) para escreverem um texto em diálogo com um filme mudo, que foi depois apresentado em modo performance com a exibição dos filmes e leituras dos escritores ao vivo.

Nesta 2ª edição convidámos o realizador Tiago Hespanha (que também tem o seu último filme, Campo, na competição Oficial), para vir em residência artística a Olhão para escrever um argumento que se relacione com as vivências do realizador na região. A residência contou com 3 partes, uma das quais está a ter lugar agora mesmo. Tiago chegou a Olhão ontem, dia 7 de Julho, e nesta última parte da residência ficará alojado num barco, que estará atracado uns dias na ilha da Culatra e outros no porto de Olhão. Esta residência continha um alargamento com o convite ao encenador Rogério de Carvalho para fazer uma Leitura Encenada a partir do argumento escrito pelo Tiago Hespanha. Esta actividade ficará para a 3ª edição em 2021.

E podemos desde já dizer que a Obra Criativa para a 3ª edição está pensada e terá grande impacto na cidade.

A 2ª edição do FICLO decorrerá em Olhão de 15 a 21 de Julho e tem oportunidades a não perder, num dos únicos festivais a ser realizado este verão em Portugal!