Uma conversa com Tomm Moore e Ross Stewart, realizadores de “Wolfwalkers”, um brilhante filme de animação que vai dar muito que falar…

“Wolfwalkers” estreia na Apple TV+ a 11 de Dezembro e é um dos filmes imperdíveis de 2020!

Let’s Talk #79 – Tomm Moore e Ross Stewart

O cinema de animação foi sempre algo pela qual eu tenho uma grande paixão! Crescer com a Disney e mais tarde com o Studio Ghibli, há sempre histórias e personagens que me têm vindo a marcar. “Wolfwalkers” foi o filme que me marcou este ano.

Do mesmo estúdio que nos trouxe “O Segredo de Kells” (“The Secret of Kells”, 2009) e “A Canção do Mar” (“Song of the Sea”, 2014) chega-nos um filme sobre o poder da união e de encontrarmos o equilíbrio entre a Natureza e a Humanidade.

No passado mês de Outubro tive o privilégio de estar numa conversa virtual com os criadores e descobrir porque eles tocam nestes temas e o que podemos esperar do futuro do Cartoon Saloon.

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Antes de mais tenho de dizer que ver animação em 2D traz-me sempre muita alegria. Talvez porque cresci apenas com animação em 2D, este estilo transporta-me para a minha infância. É esta a razão pela qual vocês escolheram este estilo?

Tomm: Nós também crescemos com esse estilo e de certa forma este filme é uma continuação do trabalho que tenho feito com o Ross desde que fizemos o “The Secret of Kells”. Começámos a trabalhar em animação porque adoramos desenhar, bandas-desenhadas, livros ilustrados para crianças e toda a História de Arte. E queríamos continuar isso, em vez de nos mergulharmos em tecnologia, quando podíamos continuar com o desenho à mão. É mais no sentido de reinvenção do que continuar com algo ‘old school’. Apesar de fazermos os desenhos e algumas pinturas à mão usamos tecnologia também. Queremos encontrar uma nova direção mas mantendo os valores tradicionais.

Ross: A forma como trabalhámos no “Wolfwalkers” é apenas a nossa maneira natural de trabalhar e não pensarmos se estamos a ser fiéis ao estilo tradicional. Muitos dos artistas que trabalham connosco são pintores, sketchers, etc.

Tomm: Houve uma decisão que tomámos, depois de ver o filme “O Conto da Princesa Kaguya (“The Tale of Princess Kaguya”, 2013), em que ao contrário de “The Song of the Sea” e “The Secret of Kells” em que limpámos arestas e fizemos o desenho mais claro, em “Wolfwalkers” decidimos explorar como ficaria se deixássemos alguns esboços em cena. Não vemos isso o suficiente nos filmes de animação. Pensámos em como poderíamos contar uma história com estilos de desenho diferentes. Então fizemos os puritanos com linhas bem traçadas e limpas e tudo o resto relacionado com a floresta, que fosse livre, com esboços e movimento. E isso é uma celebração daquilo que só consegues atingir através de desenho à mão.

É triste saber que apenas alguns estúdios fazem animação tradicional. Eu como fã da Disney tenho muitas saudades desse género, e já passou tanto tempo desde que eles fizeram ” A Princesa e o Sapo”. Perderam algo que os tornava tão especiais…

Tomm: E eles tem os melhores animadores! Nós tivemos sorte em poder trabalhar com alguns como James Baxter que agora trabalha para a Netflix, e ele é um grande fã de animação tradicional e até animou algumas cenas para o nosso filme só porque queria trabalhar em algo com desenho à mão. Mas o que me deixa mais entusiasmado são os estúdios mais pequenos como o que trouxe “Klaus” (2019) para a Netflix. Essa geração é sem dúvida a dos campeões que inspiram a nossa geração a continuar a apostar no desenho à mão. Muita gente que treinou na Disney continua a querer ver este estilo.

O público quer ver mais animação tradicional apesar dos estúdios acharem que não. Mas os resultados estão à vista.

Tomm: Sim, já se começa a ver. Eu acho que também com a Apple TV+ a apoiar-nos vamos mostrar que as pessoas querem ver este estilo de animação.

Os vossos filmes tiram muita inspiração do folclore celta e os seus mitos e lendas. Isto é algo que vão continuar a explorar nos próximos projetos?

Tomm: Agora estamos a seguir um rumo diferente, a Cartoon Saloon nem sempre se focou nos mesmos temas, mas talvez sempre na mesma sensibilidade, que nós e o resto dos artistas neste estúdio temos em comum. Temos muito mais interesse nas filosofias mais antigas e pagãs. Atualmente, tenho investigado muito sobre a cultura indígena americana e culturas pré-cristãs que são mais matriarcais e vês isso nos filmes do estúdio Ghibli. Eu acho que o mundo precisa disso. Mas voltando à tua pergunta, julgo que este será o último filme dentro desta temática e fica um bom conjunto com os outros dois. E neste momento acho que temos liberdade para pensar “Okay, o que podemos explorar agora?”

Ross: Sim, os nosso próximos projetos irão ser diferentes, talvez para um público-alvo diferente ou mais em torno do ambientalismo. É sempre bom poder mudar enquanto artista e ter outros desafios e mudar o teu estilo e não ser conhecido apenas por uma coisa.

“Wolfwalkers” toca em temas como família e encontrar um lugar onde pertencer mas também há uma temática que une os vossos outros filmes que é a união entre Natureza e Humanos através da magia. Vão continuar a explorar isso?

Tomm: Nós sempre achámos que os humanos não são superiores ou ‘mais que’ os outros animais. Queríamos mostrar que não estamos a proteger a natureza como um jardim bonito mas sim que ‘fazemos parte de’ e ‘somos da’ Natureza. Não conseguimos evitar isso porque está na nossa maneira de ver as coisas.

Ross: Agora há imensos artistas que estão envolvidos no ambientalismo e se isso não ajudar a mudar as opiniões das pessoas, não sei o que irá (risos).

Tomm: Eu acho que os cientistas já fizeram a sua parte. Eles já provaram que as práticas antigas eram as corretas, que existe uma conexão com a Natureza e que estamos fora desse equilíbrio e agora cabe aos criadores mostrar e contar essas historias para que a próxima geração entenda isso.

Se pudessem escolher um realizador para fazer um filme sobre as vossas vidas, quem escolheriam?

Ross: Tim Burton.

Tomm: É dificil escolher porque todos os meus favoritos já faleceram…(pensa) Talvez o Genndy Tartakovsky (“Hotel Transylvania”, 2012). Assim ele fazia de mim um bad-ass como o “Samurai Jack” (2001-2017) (risos).

“Wolfwalkers” vai estrear na Apple TV+ a 11 de Dezembro. Fiquem atentos à nossa crítica, que será publicada no dia de estreia.