“Rainha de Copas” – Carta Fora do Baralho

Uma relação proibida é posta à prova neste “Rainha de Copas”, um drama dinamarquês que tem recebido elogios de quem o viu desde 2019.

Antes de tudo, convém esclarecer um pequeno ponto relativamente a este “Rainha de Copas” – a pessoa que não estiver à vontade para ver momentos sexuais ou tiver algo contra isso, não deve fazer planos para ver este drama. 

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Apesar de não ser tão explícito nem recorrente como certos programas de entretenimento, há cenas sexuais neste filme que parecem realistas e, apesar de não serem realizados de forma altamente sensual, pode ferir algumas susceptibilidades.

Para aqueles que estão curiosos, “Rainha de Copas” segue a história de Anne (Trine Dyrholm) uma advogada de renome que, numa tentativa de colocar alguma adrenalina e rebeldia à sua vida quotidiana, coloca o seu emprego e a relação com o seu marido em risco ao envolver-se com o Gustav (Gustav Lindh), o seu enteado. 

Realizado pela dinamarquesa May el-Toukhy, este drama coloca-nos numa posição de mosca, que se infiltra na casa deste casal e que a vê a sucumbir aos desejos de liberdade e juvenilidade de Anne. 

A grande nota a realçar são as interpretações do elenco, em especial Trine Dyrholm. Para além de toda a fisicalidade da sua performance, consegue transmitir ao espectador, muitas das vezes sem recurso a diálogo, todos os seus pensamentos, vontades e receios. Apesar de não concordarmos com as decisões dela, conseguimos perceber a sua perspectiva e como ela poderia encontrar justificação para as suas acções. 

De um modo geral, todos os actores nos fazem acreditar nas relações entre eles, de forma natural, como se fosse um retrato de uma realidade tão intimista. Até mesmo Gustav Lindh, com apenas 23 anos, mostra uma grande capacidade artística e uma entrega desmesurada a este papel.

Com uma fotografia cuidada e uma banda sonora minimalista, guiada por um violoncelo, May el-Toukhy toma um rumo de prudência e de calma enquanto nos conta esta história. Lentamente, vamos vendo a mudança de posições das personagens as consequências de certas decisões nas suas vidas. 

Como que um jogo de gato e rato, vamos vendo as personagens a conviver entre si, deixando o espectador a questionar-se até aos momentos finais qual o rumo que a história irá tomar. E, de facto, é surpreendente e não tem medo de mudar a nossa perspectiva sobre a situação.

A abordagem ponderada pode, por momentos, fazer com que o enredo se prolongue mais do que seria necessário em alguns momentos, enquanto que noutros os acontecimentos são demasiado rápidos, retirando parte do impacto que poderia dar ao espectador. 

Com uma duração a rondar as 2 horas e 5 minutos, sente-se os minutos a passarem com este “Rainha de Copas”. Principalmente numa transição entre segundo e terceiro acto, a edição poderia ter sido um pouco mais focada e não retiraria qualquer detalhe ou impacto da história, muito pelo contrário. 

Devido à sua temática e frontalidade, “Rainha de Copas” não é para todos. Mas a beleza do filme, a conjugar com excelentes interpretações, tornam este filme uma bela gema vinda da Dinamarca e afirma May el-Toukhy como uma realizadora em ascensão.

“Rainha de Copas” está disponível na Filmin a partir de 7 de Maio e estreará brevemente nos cinemas portugueses. Ainda esta semana vamos divulgar uma entrevista com a realizadora May el-Toukhy.