“Silêncio”, de Martin Scorsese | Amor em forma de fé

Há Amor em forma de Fé neste Silêncio

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O filme Silêncio, a obra-prima do realizador americano Martin Scorsese,  retrata a história de dois padres jesuítas portugueses perseguidos durante a sua missão no Japão, no século XVII.

A partir do romance homónimo de Shusaku Endo, Scorsese dá-nos a conhecer a história de  dois padres jesuítas vindos de Portugal – Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e Francisco Garrpe (Adam Driver) –  até ao Japão, na esperança de encontrarem o seu mentor, o padre Cristóvão Ferreira (Liam Neeson), que alegadamente cometeu apostasia (pisou a imagem de Jesus). Os jovens jesuítas testemunharam a perseguição aos japoneses cristãos por parte do regime de Xogunato Tokugawa.

Ver também: Crítica: “La La Land” de Damien Chazelle

Credit Kerry Brown

Silêncio é um filme de excelência que nos eleva para a temática da Fé e impõe uma reflexão individual profunda acerca da mesma. Como tal, tive de reflectir sobre a minha fé, a profundeza da mesma e até que ponto vivo ou não, em paz com essa crença ou falta dela. Sou baptizada e nesta temática não tive escolha, portanto devo considerar-me uma católica não praticante e não crente na igreja, enquanto instituição. Demorei alguns anos a concluir isto e só agora o escrevo, como se de certa forma o assumisse. Não posso contudo, dizer que sou desprovida de crenças pois acredito que os meus antepassados olham por mim e me protegem, mas não consigo ser religiosa, lamento! Deparei-me vezes demais com o silêncio de deus perante tanto sofrimento. E o silêncio pode mesmo ser o mais mortal dos sons.

Acredito no amor e no seu poder. Há amor em forma de Fé neste Silêncio. Há a força de se ter a coragem de morrer pelo que se acredita. Morrer pela religião com calmia e religião, é aqui, amor.

Silence-ScorseseA verdade é Universal? Será? Terá de ser? Porquê discutimos o conceito de verdade?

A verdade é um encontro.

Vivemos numa era em que a tecnologia é que importa e julgamos que somos tão avançados…mas não somos, o que emociona o ser humano é o mesmo ao longo dos séculos e independentemente da cultura e da vivência de cada um, todos queremos ser amados e não morrer sozinhos. Se fossemos seres plenos não teríamos medo da morte! Porque deixámos de cultivar a ideia de paraíso? Porque se deixou de acreditar?

Mas afinal, o que é a vida?

A vida é um DOM! E é tão relevante que se a considerar-mos bem perdemos a capacidade de acreditar no humano, muitas vezes fraco, e quase que somos obrigados a atribui-la ao divino. Independentemente das crenças é muito importante sentir gratidão por este dom que é viver.

A vida de Scorsese está recheada de fé, uma fé cristã que lhe traçou o caminho. Apesar de considerar que a fé cristã, a vivência e a cultura das gentes é muito distinta, não desistiu de fazer este filme e viveu-o durante vinte e cinco anos.

Creio que esta demora e o processo de discórdia apenas permitiram ao realizador encontrar-se com esta história que tinha de ser contada e fazê-lo na sua plenitude, de forma profunda, com compaixão e sem medo de assumir a sua crença.

Silence-Andrew

Afinal, o que é a Fé?

É uma peregrinação, é uma caminhada constante, que nunca acaba, é como tentar responder às perguntas quem somos e no que cremos.

“Não tenho todas as respostas, nem sequer todas as perguntas, estou sempre a colocar mais perguntas a mim próprio. Surgem sempre perguntas novas, mas perante as diferentes situações é que vamos elaborando as respostas e também esperando por elas”, ensina-nos Jorge Mario Bergoglio.

Quem tiver a sorte e audácia de ir ver este filme, não pode duvidar que as categorias técnicas são extraordinárias e que ele não é só uma obra-prima pela temática, mas pela união das sete artes que o cinema aglomera. Os actores tão bem que servem a história! A direcção de fotografia de Rodrigo Prieto é extraordinária. A composição musical é divina. E Scorsese é o corajoso sem medo de nos emocionar e de nos impor a ideia de que a Fé nos salva…

… e no que à fé diz respeito devemos sempre fazer perguntas às respostas que julgamos ter, “até porque os arrogantes cedem”!

silencio

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