Versatilidade, engenho, elegância e o inexistente medo de arriscar definem o ator nascido na Cidade LuzVincent Cassel.

Vincent Cassel, nascido na cidade de Paris, em 1966, deu início à sua carreira de ator numa série francesa no ano de 1988. Foi porém com a sua sexta presença em filmes exibidos no grande ecrã que chegou o seu primeiro papel como protagonista ou, neste caso, de co-protagonista, partilhando o mesmo com outros dois dos seus pares. Foi também com esta longa-metragem, “O Ódio”, que adquiriu uma maior visibilidade, que até então era praticamente nula.

O ator tem como palavra-chave da sua carreira, versatilidade. Teve a sua primeira participação num filme cuja língua não era a sua de origem, no ano de 1995. A partir daí não mais parou de arriscar e de alargar os seus horizontes. Conta já com mais de meia centena de filmes no currículo, sendo, porém, a grande maioria em língua francesa.

O ator também conta com algumas participações em longas-metragens noutros idiomas, como o português, no filme brasileiro “À Deriva” de 2009. O ator que fala um português quase perfeito, já participou até num sketch do “Porta dos Fundos”.

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Vincent Cassel já tocou nos pólos que compõem o cinema no que toca aos estilos, fazendo filmes mais populares e que atingiram uma grande proporção internacionalmente, como são os casos das sagas “Ocean’s” e “Bourne”, mas também filmes mais independentes, com um estilo muito próprio e difícil de agradar à maioria, mas que foram também reconhecidos nos principais festivais em todo o mundo, como são os exemplos “Nos Meus Lábios”, em 2001, “Partisan”, em 2015 e “Tão Só o Fim do Mundo”, em 2016.

1. Vinz em “O Ódio” (1995)

Vinz

Personagem: Um jovem bastante rebelde que põe à prova os seus limites.

As 24 horas da vida de 3 jovens franceses que vivem nos subúrbios, após um violento tumulto constituem, muito provavelmente, o melhor “documentário ficcional” do cinema. A forma como os atores interpretam as suas personagens, e principalmente Cassel, é sublime.

A interpretação de Vincent é visceral. Tão íntima, tão profunda. O ator mostra como sua a personagem está enraizada no conceito do filme. É como se fosse real e não ficção. É como que Vinz não fosse uma personagem, mas sim uma pessoa que sempre viveu nos subúrbios da cidade. Nada parece ser encenado, mas sim puro, genuíno.

A preto e branco, a realidade é mostrada de forma crua, fria e sem cair na tentação de embelezar. Não é só a personagem que está enraizada no conceito do filme. É também o talento e o engenho de atuar que está intrínseco em Vincent Cassel.

Realizador: Mathieu Kassovitz

2. Marcus em “Irreversível” (2002)

Marcus

Personagem: Um homem que tenta vingar-se de um terrível crime cometido sobre a sua namorada.

O puzzle vai-se montando peça a peça, de fora para dentro. E como tal, as peças que ficam mais ao centro vão surgindo assim que este começa a ganhar corpo, até chegar o momento de colocar a peça central. A mesma do filme (Alex – personagem interpretada por Monica Bellucci) surge já depois do primeiro terço, percebendo-se a sua essência por inteiro apenas no final, quando se está prestes a finalizar o tal puzzle.

Com uma realização agoniante, a importância das personagens, e os respetivos atores, assim como o que os guia, surge mais tarde. Porém, para além da tal peça central, uma das peças que mais peso tem no filme, a personagem de Cassel, surge com irreverência e bastante fulgor. O ator, com este desempenho, cimenta o bom trajeto que vinha fazendo. Sempre com rigor e precisão, Cassel tem sempre muito cuidado, não defraudando nos detalhes, sendo também sempre muito metódico.

Realizador: Gaspar Noé

3. Kirill em “Promessas Perigosas” (2007)

Kirill

Personagem: Filho de um Vor pertencente à máfia russa, que usa o estatuto do pai para conseguir o que almeja.

(Não é) A típica personagem que é descendente de um nome grande da máfia e que pensa que pode fazer o que quer devido ao estatuto que o seu pai tem. Cassel consegue fazer com que a personagem não caia no erro de ser apenas só mais uma e que muitas vezes nada acrescenta, sabendo-se, na maior parte dos casos, qual o seu fim. Não por ser diferente ou não o seu fim, mas pela forma como Vincent Cassel representa e trata a personagem.

Os quase inexistentes obstáculos que (não) surgem ao ator, muito se deve à sua tremenda capacidade de resiliência. Não existe a necessidade de se ter que desenvencilhar.

Realizador: David Cronenberg

4. Jacques Mesrine em “Instinto Assassino” e “Inimigo Público Nº 1” (2008)

Jacques Mesrine

Personagem: Um gangster francês que foi considerado “Inimigo Público Nº 1”.

Quem vê, assim como o próprio filme, é tomado de assalto por parte de Vincent Cassel. Fugindo completamente ao já habitual e normal tipo de filmes feitos, onde é contada a história e o percurso de vida de alguns nomes grandes do crime, “Instinto Assassino” e “Inimigo Público Nº 1”, consegue criar algo novo. Não propriamente pelo argumento e, por conseguinte, pela história que o filme conta, nem pela personagem e por tudo o que foi feito por ela, mas sobretudo pelo ator que a interpreta. Pela forma como Cassel agarra a personagem, consegue, com características que lhe são muito próprias, uma atuação sublime.

Não obstante, a personagem e a história da mesma são deliciosas. Muitos disfarces, diferentes façanhas, fugas incríveis da prisão e grandes assaltos a bancos são o mote para aquele que é um excelente filme sobre gangsters e, talvez, o melhor que não em língua inglesa.

Realizador: Jean-François Richet

5. Thomas Leroy/The Gentleman em “Cisne Negro” (2010)

Thomas Leroy

Personagem: Diretor de uma companhia de ballet. É ele o responsável pela seleção dos bailarinos para os diferentes papéis da peça “O Lago dos Cisnes”.

Cassel volta a mostrar que a sua capacidade de resiliência é enorme. Prova que sabe adaptar-se ao perfil da personagem e também àquilo que lhe é exigido por ela. Vincent Cassel disse sobre a sua personagem: “Eu acho que ele se apaixona realmente pela perfeição e pela beleza (…) E ele quer que ela (Nina – personagem interpretada por Natalie Portman) chegue lá, não importa o que é preciso fazer”.

A busca pela perfeição e todas as consequências que dela advêm. A vontade insaciável de atingir o inatingível e a consequência de causar o pior dos cenários possíveis e de provocar danos irremediáveis. A (ausência de) culpa daquela que é perseguida e importunada por todos, utopia. De tudo isto deve emergir o imprescindível pensamento crítico que de modo a impulsionar toda uma reflexão que se quer que vá para além da Descontinuidade de Lehmann.

Realizador: Darren Aronofsky