Let’s Talk #69 – Agnès Jaoui “Na Praça Pública”

Nomeada aos Óscares pelo seu primeiro filme e mulher vencedora do maior número de prémios César, Agnès Jaoui fala “Na Praça Pública” sobre política, jornalismo e youtubers…

Pelo que percebi fala português…

Um pouquinho!

De onde vem o seu conhecimento de português?

Vivi no Brasil durante três meses.

Não se preocupe, que vamos prosseguir com a entrevista em francês…

Obrigada!

Num filme como “Na Praça Pública”, em que se caminha por vários diálogos de grupo, como é que gere todos esses pequenos momentos? Está tudo no argumento ou há lugar para improviso?

Não, não há improvisação. Olhei para este argumento como um puzzle. Mesmo que uma personagem só tenha duas curtas cenas, estas são trabalhadas em prol de um desenvolvimento da narrativa, tal qual uma corrida de estafetas em que cada um passa o bastão ao seguinte. Tento assim divertir e proporcionar bons momentos com todas as personagens.

Tem vários atores recorrentes na sua filmografia. Como é que decide qual é que vai ficar com que papel?

É verdade que se forma um grupo de amigos com o passar do tempo e logo à partida já tenho uma ideia de quem vai ficar com um determinado papel. Neste caso, escrevemos o papel para a Léa Drucker e para nós os dois [Agnès Jaoui e Jean-Pierre Bacri são co-argumentistas, mas também atores em “Na Praça Pública”]. Os outros papéis ‘foram entregues’ ao longo da escrita do argumento e claro que no final há sempre os castings para as restantes personagens.

É verdade que inicialmente deveria ter ficado com o papel da Léa Drucker?

Sim é verdade, porque no início eu queria ter muitas cenas com o Jean-Pierre [que interpreta Castro, um apresentador de televisão prestes a ser despedido do seu programa] e era um papel muito interessante [Nathalie era a produtora e agente de Castro]. Mas no final optei por interpretar a Helène [irmã de Nathalie e ex-mulher de Castro].

Como funciona a sua colaboração com Jean-Pierre Bacri? Porque dura há muito tempo, mesmo apesar da ‘alteração’ pelo caminho… [O antigo casal divorciou-se em 2012, mas continua a trabalhar em conjunto.]

Essa situação nem mudou muito as coisas, porque continuamos a escrever sempre das 15h às 19h, dois cadernos, duas canetas, sempre a dialogar e a discutir até nos colocarmos de acordo com o tema, uma história, uma personagem… Pode-se dizer que apesar de tudo a colaboração permanece imutável. Não mudámos o método e continuamos a ter de encontrar um princípio, meio e fim para as histórias que queremos contar!

De onde partiu a ideia para “Na Praça Pública”?

Sobretudo queríamos um filme com um cenário único, porque no filme anterior que realizei – “E Viveram Felizes Para Sempre…?” – tínhamos 53 décors! E depois a ideia da festa agradava-nos porque permitia ter muitas classes sociais reunidas e podíamos explorar o tema do envelhecimento, porque, enfim, estamos a envelhecer e é algo que nos diz respeito. A sociedade muda tão rápido que talvez os velhos se sintam ainda mais ultrapassados que antigamente, principalmente com a tecnologia por toda a parte. Para além de que há uma inquietude social. Quando escrevemos o argumento era ano de eleições e o Emmanuel Macron ainda nem era candidato, mas a verdade é que mesmo hoje a realidade continua a ser muito inquietante.

[“E Viveram Felizes Para Sempre…?”]

As filmagens terminaram em 2017, certo?

Mas escrevemos entre 2016 e 2017. Demoramos sempre muito tempo! E não é só em França que há um fosso entre elites mediáticas e a população menos representada, menos audível, menos considerada. O facto das sondagens se terem enganado em muitos países na Europa e não só causa uma instabilidade em que a violência pode surgir a qualquer momento. Queríamos inferir isso no filme.

Que está logo presente na primeira cena…

A ideia de pensar se aquele homem vai disparar ou se alguém vai morrer… claro que eu nunca faço filmes com mortes e violência, mas ao menos mostramos ao espectador, que a situação está à beira de se tornar explosiva!

Outro tema presente é o da divergência entre apresentadores e youtubers e de como a realidade dos media também está a mudar.

O Jean-Pierre e eu nascemos numa época em que havia menos canais e mesmo depois quando foram surgindo mais, todos continuavam ver a mesma coisa na televisão. O poder da televisão era colossal e pouco a pouco foi-se dissipando e mesmo sem ter desaparecido vacilou, porque as crianças e o adolescentes já quase não ligam a televisão. Propositadamente escolhemos um verdadeiro youtuber para o papel do youtuber [Mister V no papel de Biggistar], porque é alguém que os mais novos reconhecem imediatamente e no entanto quem tem mais de 30 anos não faz a menor ideia de quem ele é. É incrível e interessante de observar que as várias gerações que habitam a mesma casa e são tão próximas, ao mesmo tempo são tão ignorantes umas das outras.

Às vezes penso se fosse mais novo agora, se seria apanhado por esta onda de fanatismo pelos youtubers.

Pois eu também não sei, é um fenómeno muito grande. Mas acredito que no futuro seja substituído por outra coisa. Todos estes adolescentes agarrados aos youtubers vão ser os adultos de amanhã, mas nessa altura já os novos adolescentes terão encontrado outra coisa qualquer… com hologramas e assim! Vão-se sentir tão desfasados deles como nós agora.

[“O Gosto dos Outros”]

Em 2001, o seu primeiro filme como realizadora, “O Gosto dos Outros”, foi nomeado aos Óscares! Como foi toda essa experiência de reconhecimento internacional.

Foi uma experiência lisonjeira e agradável, mas… ao mesmo tempo… foi um bocado mitigada. Sobretudo porque queriam à força que eu vendesse os direitos para um remake e eu não queria vendê-los e não queria ir viver para os EUA. Portanto, a experiência… não correu tanto como sonhei que seria.

Tomou uma boa decisão. São raros os bons remakes de comédias francesas, pode-se ver pelo resultado de “Os Visitantes” e “O Jantar de Palermas”…

E nunca cheguei a vender o argumento para um remake!

Por outro lado é também a mulher vencedora de mais Césares! [6 Prémios da Academia Francesa em 11 nomeações]

É verdade sim, mas de qualquer maneira está na altura de eu ceder o meu lugar aos mais jovens para que também aproveitem. Já não me é tão relevante se o meu novo filme não tem tantas nomeações como antigamente. Já tenho muitos Césares!

O que gostou mais neste filme?

O lugar onde fizemos a rodagem [Saint-Remy-l’Honoré, Yvelines, França]. Parecia saído de uma peça de teatro. Todas as rodagens são exaustivas mas agradáveis porque trabalhamos sempre com pessoas muito dinâmicas.

Como é para si realizar e interpretar uma personagem no mesmo filme. Como gere tudo?

O Jean-Pierre está sempre lá para ajudar-me e os papéis, como somos nós que os escrevemos, são próximos daquilo que somos. Portanto, demoro um pouco mais de tempo a preparar tudo, mas não tanto como seria de pensar, porque como de qualquer maneira fazemos sempre muitas repetições, o processo é agilizado. É uma questão de preparação.

“Na Praça Pública” teve uma passagem muito breve pelos cinemas portugueses em Outubro de 2019, mas está agora nos Canais TVCine, com novas exibições para já a 28 de Abril (TVCine Edition), 1 de Maio (TVCine Top), 5 de Maio (TVCine Emotion) e 8 de Maio (TVCine Top).

[Óscares, 2001]