Na década de 90 houve uma vaga de cinema erótico que tomou conta do pequeno e grande ecrã, filmes como “Instinto Fatal” e “Nove Semanas e Meia” são talvez dos mais populares. Porém não há nenhum como “Showgirls”

… nenhum que se tenha tornado num filme de culto tão acarinhado pelo público, mais predominantemente na cultura queer. “Showgirls” é uma experiência, um acontecimento que julgo nunca ter acontecido igual em mais nenhum filme. Neste artigo irei falar sobre os melhores momentos, diálogos e o que faz deste filme algo tão especial. Peguem num saco de batatas fritas e preparem a manicure!

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“Showgirls” tem provavelmente a melhor sequência de abertura que alguma vez vi. Em menos de cinco minutos Nomi Malone (Elizabeth Berkley) apanha boleia de um estranho, vai para um casino jogar, ganha o jackpot, perde o jackpot, o estranho rouba-lhe as coisas, ela quase é atropelada e conhece a Molly. Um verdadeiro carrossel de emoções em tão pouco tempo. Nomi é rodeada de mistério, com uma constante atitude defensiva em que o seu temperamento vem sempre ao de cima quando o assunto é demasiado pessoal. É impossível não gostar dela logo ao início.

Este filme tem a premissa de quase qualquer musical: rapariga de cidade pequena muda-se para uma grande metrópole para se tornar numa estrela. Porém em vez de Nova Iorque ou Los Angeles, temos Las Vegas e em vez de ser um musical na Broadway é um show erótico num casino. Só esta mudança faz com que este filme seja único e promissor de entretenimento.

Mas “Showgirls” vai mais além, pinta com neons coloridos que brilham à noite o quão falso é o sucesso e a fama. Uma alegoria sobre Hollywood: Apesar de tudo Nomi foi sempre respeitada pelo patrão e pelas colegas quando era stripper no Cheetah (e sem dramas) mas quando chega ao Stardust começamos a ver que toda a gente é falsa e tentam suplantar-se umas às outras. Mesmo quando és a estrela do show, és facilmente substituída e ninguém pisca.

“Showgirls” vive e respira as suas personagens e relações entre elas. A dinâmica que mais gosto é entre Nomi e Crystal (Gina Gershon), um jogo de gato-e-rato com talvez dos melhores diálogos no filme. A cena que melhor descreve o que se passa entre estas personagens é quando Crystal convida Nomi para almoçar:

Esta cena está tão bem realizada que se prestarmos atenção há um jogo de câmara fantástico: no início Nomi está no lado esquerdo a falar com Crystal, ambas partilham parte do seu passado, há um “espelho” que reflete que elas não são assim tão diferentes uma da outra. Quando passa para o brinde Nomi já se encontra no lado direito, um foreshadowing em que eventualmente ela irá tomar o lugar de Crystal.

Todo este diálogo (como se fosse uma peça de Harold Pinter mas sem o subtexto) só vem cimentar que Nomi quer a vida de Crystal porém ela ainda não se apercebeu do custo que isso tem. Dos meus diálogos favoritos é quando Nomi lhe diz “I hate you” e Crystal responde com “I know” como se ambas tivessem visto a Guerra das Estrelas e estão a recriar a cena à sua maneira.

Como seria de esperar, este filme está preenchido de nudez e sex scenes e há momentos que tenho que chamar a vossa atenção: a lap dance que Nomi dá a Zack (Kyle MacLachlan) que na realidade é um power play entre Nomi e Crystal e o Zack está ali apenas como um peão num jogo de xadrez. Essa cena, mais tarde, é quase idêntica quando Nomi e Zack estão juntos na piscina e nesse momento ela é o peão.

Dos momentos que mais aprecio é quando Nomi está a pintar as unhas para se preparar para ir ter com o homem que abusou da sua melhor amiga, como se fosse um super-herói num filme da Marvel a colocar o seu fato. Nomi entra no hotel num total badass gear, eles já descobriram quem ela realmente é, não há mais razões para se esconder. Toda esta sequência a seguir é uma catarse. Não é só de Molly que ela se está a vingar, é ela mesma, a mãe e quem já sofreu abuso de uma maneira ou outra.

“Showgirls” pode ter sido um fracasso na altura que saiu mas o seu sucesso depois é incomparável! Quando saiu em vídeo lucrou 100 milhões $ apenas em vendas. Em 2019 ainda era um dos filmes mais bem sucedidos com a classificação ‘interdito para menores de 17 anos’ e com uma das maiores distribuições em cinema (outros exemplos são “O Último Tango em Paris”, “Henry e June” e “Sedução, Conspiração”).

Hoje em dia tem o título de filme de culto, especialmente na comunidade queer e o documentário “You Don’t Nomi” realizado por Jeffrey McHale vem provar isso mesmo! A entrevista será aqui publicada em breve!