A par da retrospetiva “Delphine Seyrig, Insubmusa” a decorrer na Cinemateca Portuguesa e por ocasião da Festa do Cinema Francês, estive à conversa com Nicole Fernández Ferrer.

Por estes dias, ainda é possível assistir na Cinemateca a “Femmes au Vietnam”, “A Doll’s House”, “La musica”, “Le journal d’un suicidé”, “Pour mémoire”, “Calamity Jane & Delphine Seyrig, A Story”, “L’année dernière à Dachau” e “Muriel ou le temps d’un retour”.

Atual diretora do Centro Simone de Beauvoir, fundado em 1982 por Carole Roussopoulos, Delphine Seyrig e Ioana Wieder, para a conservação e criação de obras de apoio à causa feminista, Nicole Fernández Ferrer tem boas recordações de Portugal…

Trabalhei aqui há cerca 20 anos e é interessante que foi numa colaboração com o atual diretor da Cinemateca, José Manuel Costa. Foi um trabalho desenvolvido para o primeiro encontro internacional de cinema documental, em Serpa, no Alentejo. Mas mesmo antes disso já tinha visitado Portugal.

Nicole Fernández Ferrer

O que representa para si ser diretora do Centro Simone de Beauvoir?

Para mim é muito importante e agradável. Primeiro porque descobri o Centro logo nos anos ’80. Comecei a trabalhar lá em 1982, mas apenas por dois anos e meio, depois fiz outras coisas. Entretanto, o Centro fechou entre 1993 e 2003, mas tornei-me diretora-geral em 2004, após a reabertura. A partir daí, entrámos numa trajetória de recriação, de acordo com o que tinha sido feito pela antiga diretora, de conservar, valorizar e difundir todo o material gravado por mulheres e sobre o feminismo.

Mas também concretizar o objetivo original de fazer novos filmes. Temos a missão de manter essa vertente do Centro, bem como a digitalização de todos os filmes. Através de um acordo com a rede da Biblioteca Nacional de França, tornámos todo o arquivo disponível para consulta, permitindo às pessoas um acesso mais amplo.

A isto tudo, que já fazia parte dos objetivos do Centro original, juntámos um certo número de ações, que penso que são muito importantes, como a educação para a imagem, a luta contra os estereótipos junto dos mais jovens, apoios a artistas, difusão de filmes nas prisões… Portanto, isto representa um compromisso, uma componente muito importante em mim, enquanto feminista, mas também profissional do cinema.

E depois há todo um percurso internacional das obras…

Sim, quando apresentamos os filmes da Delphine Seyrig, neste caso temos uma retrospetiva que embora não seja completa, permite-nos apresentar grande parte dos seus projetos para além da representação. A maioria das pessoas vê a Delphine apenas como uma atriz de teatro e de cinema, no entanto, a divulgação destas obras, permite-nos apresentar, para além do lado artístico, o seu ativismo, o compromisso com as causas feministas.

Sobretudo, permite divulgar a diversidade de filmes que as mulheres fizeram desde os anos ’70 e mostrá-los em países onde se desenrolaram lutas semelhantes, ou onde é possível encontrar pontos de convergência. Por exemplo, um dos filmes exibidos em Portugal foi “Les trois portugaises”.

Por outro lado, esta homenagem da Festa do Cinema Francês, permitiu que todos os filmes fossem legendados em português, o que facilita a que numa próxima oportunidade possam ser apresentados noutros países lusófonos.

Como é que o seu percurso se cruzou com o de Delphine Seyrig?

Creio que foi em 1975, porque éramos ambas feministas e militantes, e fomo-nos cruzando várias vezes em manifestações e eventos. Claro que já a conhecia de a ver em peças de teatro, mas só começámos mesmo a falar durante as manifestações. Foi também por essa altura que conheci a Carole Roussopolos, com quem fiz um estágio de vídeo, e ela contou-me que também conhecia a Delphine e que estavam a desenvolver um projeto em conjunto. Foi aí que comecei a trabalhar no Centro Simone de Beauvoir, diretamente com a Delphine Seyrig, em 1982.

“Delphine et Carole, insoumuses” (2019), de Callisto McNulty
Ver também: Festa do Cinema Francês chega hoje com antestreias e oportunidades!

Os movimentos feministas foram decorrendo ao longo das décadas na sociedade e aos poucos foram surtindo efeito na indústria do cinema. Nos últimos anos assistimos a protestos no Festival de Cannes e na Cerimónia dos Césares, que levaram a algumas mudanças, mas considera que estão a ser colocadas em prática as medidas necessárias?

Nos últimos anos, o movimento Me Too, mas sobretudo em França, o Collective 50/50, pretende ajudar as mulheres não só à frente das câmaras, mas também na realização e nos restantes postos de trabalho, ao longo de toda a escala de produção, até que seja atingida a igualdade no cinema.

Um momento marcante foi a subida da escadaria do Festival de Cannes, por 80 mulheres da indústria, incluindo Agnès Varda e Cate Blanchett, entre muitas outras profissionais do cinema. Isso deu origem a outros momentos importantes ao longo do ano, que foram escalando até aos protestos durante a Cerimónia dos Césares, que é muito mediática e que fez ‘correr muita tinta’. As mulheres têm consciência do pouco espaço que ocupam na indústria do cinema, principalmente enquanto parte da equipa técnica. E mesmo as atrizes, muitas vezes só têm acesso a personagens estereotipadas.

Há também uma dificuldade em obter financiamento para filmes realizados por mulheres. É quase tão difícil como para os jovens realizadores. Essa consciência coletiva dos problemas que existem no meio do cinema, mais a polémica nos Césares, fez ‘rebentar a bolha’ e ajudou a que o CNC (Centre National du Cinéma et de l’Image Animée) criasse um apoio especial para os filmes com uma proporção considerável de mulheres em cargos técnicos.

Essa percentagem extra de financiamento, ajuda a favorizar o emprego de mulheres em áreas de onde estavam praticamente excluídas e provoca uma mudança de rumo junto dos estúdios e dos sindicatos.

O trabalho de mulheres como Delphine Seyrig, na divulgação dos problemas existentes, ajudou a que ‘grão a grão’ uma nova geração pudesse ter ferramentas suficientes para acabar com um movimento perpétuo, pois o cinema não pode estar sozinho no seu planeta. O cinema deve acompanhar as mudanças que ocorrem na sociedade.

La Montée des Marches, Cannes 2019

Algo que se via numa quantidade considerável de filmes franceses (e que por vezes ainda se vê) é a presença de homens mais velhos acompanhados por mulheres muito mais jovens em que, de repente, numa cena sem qualquer contexto e que não traz nada de relevante para a narrativa do filme, a jovem rapariga aparece em nu integral. De seguida, o filme prossegue como se a cena não existisse e por vezes, a jovem nem nunca mais aparece no filme. Neste contexto, considero este tipo de cenas como erradas e degradantes para as mulheres. Qual é a sua opinião?

Pois é… Não estou na cabeça dos realizadores, mas é verdade que tentam defender essas cenas como indispensáveis para a narrativa, quando na realidade não trazem absolutamente nada de relevante para o filme. É como se tivessem esse estereótipo enraizado na mente. E depois os realizadores mais jovens acabam por sentir a necessidade de replicá-lo, em homenagem aos realizadores cujos filmes acompanharam ao longo da vida. São ideias que circulam entre os homens no mundo do cinema e que acabam por ficar presentes por mais que os anos passem.

Por outro lado, o homem velho com a mulher muito mais nova, acaba por ser um reflexo da sociedade, em que vemos muito mais esse caso que o inverso. Mas para as atrizes isso reduz muito as ofertas de trabalho, é como se lhes colocassem um prazo de validade. Enquanto são novas, são ‘apetecíveis’, ‘consumíveis’, depois chegam aos 40/50 anos e recebem muito menos papéis de qualidade e com variedade.

Delphine Seyrig e Carole Roussopoulos
Ver também: 12 comédias francesas a descobrir nos cinemas até ao final do ano

Esta retrospetiva na Cinemateca mostra que o cinema reflete a sociedade e quando a sociedade evolui, o cinema evolui também…

Uma das coisas que eu considero mais interessante nesta retrospetiva é que mostra que a atriz não está fechada na sua profissão. Pode ser feminista, pode ser militante, e aquilo que são os problemas pessoais, os problemas da vida em comunidade, podem ser algo a debater através da sua posição.

A Delphine Seyrig enquanto atriz comprometeu-se a lutar não só pela representação da mulher nos filmes, como pelo acesso das mulheres ao trabalho. Por causa disso, pagou caro na sua carreira. Passou a ter menos propostas de trabalho, porque os produtores ficavam incomodados com a perspetiva de ter alguém que quisesse impor novas ideias e que os importunasse durante as filmagens. O seu ativismo acabou por travar um pouco a sua carreira no cinema, não tanto no teatro. Mas no cinema, de certeza absoluta que se ela tivesse continuado no seu papel de diva, da bela mulher sedutora, certamente teria continuado na ribalta por mais alguns anos. De qualquer maneira, como ativista acabou por chegar a um patamar diferente.

Em vez de ficar no papel que a sociedade aguardava dela, mudou o tipo de projetos em que participava e o tipo de pessoas com quem trabalhava…

Sim, até há uma peça televisiva em que ela participou com a Marguerite Duras e uma Chantal Akerman ainda muito nova, onde debatem as escolhas estéticas dos seus filmes, mas também da representação do feminismo no cinema.

Delphine Seyrig e Chantal Akerman

Que tipo de atividades estão a realizar agora no Centro Simone de Beauvoir?

Como sempre, as pessoas podem vir fazer as suas pesquisas nos nossos arquivos, quer para trabalhos escolares, como universitários ou até como objeto de estudo para a criação de novos filmes e documentários. Neste momento estamos a programar projeções regulares, algumas antestreias no Forum des images, um parceiro nosso em Paris.

Temos também um ciclo de cinema em que artistas e universitários escolhem excertos de filmes do nosso arquivo e depois comentam-nos numa palestra. Brevemente, vamos ter uma palestra sobre o percurso de uma realizadora na indústria do cinema em África e em Dezembro exibiremos um filme sobre a luta dos direitos das mulheres agricultoras no Brasil.

Como é que a pandemia afetou o trabalho no Centro e a programação?

É verdade que só há duas semanas fizemos a nossa primeira projeção desde o encerramento no mês de Março. Ficou tudo completamente parado. Fizemos apenas um atelier em Julho e só agora no final de Outubro é que vamos retomar as sessões nas prisões. Todas as sessões escolares estão totalmente anuladas.

Parámos todas as deslocações ao estrangeiro. Portugal foi uma exceção, porque a situação parecia melhor, mas é verdade que nos últimos dias também tem agravado. Mesmo assim, fiquei muito contente com a sessão de ontem. Foi bom poder voltar a falar perante um público e de voltar a ver pessoas numa sessão de cinema. Enfim, fico muito contente que apesar de tudo tenha sido possível haver Festa do Cinema Francês este ano.

©Ana Viotti | Conversa na esplanada da Cinemateca, com Nicole Fernández Ferrer

A retrospetivaDelfine Seyrig, Insubmusa” decorre na Cinemateca Portuguesa até 21 de Outubro. Este ano, a Festa do Cinema Francês está a decorrer em Lisboa, Coimbra, Porto, Almada e Oeiras.