EntrevistasLet's TalkLet’s Talk#65 – Uma peculiar entrevista com Bruno Caetano

Na semana passada estive á conversa com Bruno Caetano para falarmos sobre a sua mais recente curta-metragem "O Peculiar Crime do Estranho Sr.Jacinto". Este gênero de animação sempre me fascinou desde os tempos em que era criança e via programas infantis na RTP2. Mais tarde, com filmes como "A Fuga Das Galinhas" e o "Pesadelo Antes Do Natal", sempre me trouxeram uma sensação de que passei para um Universo paralelo. Uma versão em que um Criador/a gostou tanto de brincar com plasticina que lhes deu vida própria.

Na semana passada estivemos à conversa com Bruno Caetano para falarmos sobre a sua mais recente curta-metragem “O Peculiar Crime do Estranho Sr.Jacinto”.

Este género de animação sempre me fascinou desde os tempos em que era criança e via programas infantis na RTP2. Mais tarde, filmes como “A Fuga Das Galinhas” e o “Estranho Mundo De Jack”, sempre me trouxeram uma sensação de que passei para um Universo paralelo. Uma versão em que um Criador/a gostou tanto de brincar com plasticina que lhes deu vida própria…

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Este filme (que de pequeno só mesmo a duração) conta-nos a historia do Sr.Jacinto que vive numa local onde não existe mais Natureza. Mas no decorrer da sua monótona rotina algo acontece que irá mudar a sua vida. Eu em Londres e Bruno Caetano em Portugal, estivemos à conversa sobre este trabalho que já começa a acumular prémios. E algo me diz que é apenas o começo!

 Quando vejo trabalhos assim uma das primeiras perguntas que me vem é: porquê o stop-motion animation?

“(Risos) Essa pergunta é-me feita a toda a hora, principalmente por malta que trabalha em animação. Provavelmente seria mais fácil fazer um projecto como este noutra técnica de animação, uma que permita alterações no decorrer do projecto e bastante menos logística, mas não seria a mesma coisa. A meu ver, a animação de volumes (vulgo stop motion) tem algo de especial, algo de mágico, construir cenários à escala e depois dar vida às marionetas que ali “habitam” é não só um desafio incrível, como algo extremamente gratificante no final. Foi uma técnica pelo qual sempre tive um fraquinho, especialmente quando era usada em filmes de imagem real.

Ray Harryhausen (Jason and the Argonauts, Clash of the Titans, The 7th voayge of Sinbad, etc…) e Phil Tippet (Robocop, Star Wars, Starship Troopers, etc…) são referências que carrego comigo em tudo o que faço. Mais tarde veio o “Nightmare Before Christmas”, “Wallace and Gromit”, a série “The PJ’s”, Robot Chicken, entre outros. Mas a primeira vez que me lembro de ter ficado realmente interessado em perceber como é que a coisa funciona foi com a cena do “Menino de Ouro” em que uma lata de Pepsi Cola começa a dançar, foi algo incrível para o Bruno pré-adolescente. Só anos mais tarde é que comecei a experimentar animação, já na faculdade, inteiramente por culpa de um amigo, o João Gargaté, que estava também a dar os primeiros passos.”

  Esta historia é baseada num conto. O que te levou a escolher este trabalho para adaptar?

“Em 2012 fui convidado por um amigo, Manuel Ruas Moreira, o autor do conto original “O Sr Jacinto” e co-argumentista de “O Peculiar Crime do Estranho Sr Jacinto”, a auxiliar na parte técnica/multimédia de uma peça de teatro adaptada desse mesmo conto. Depois das várias sessões da peça o Manuel lançou-me o desafio e eu, fã do universo que ele tinha criado, aceitei de bom grado. Juntos criámos um argumento passado nesse universo, mas com bastante alterações em relação às anteriores vivências do Sr Jacinto. No total foram 12 ou 13 versões do argumento.”

Promover uma mensagem ecológica não é algo novo mas parece ser cada vez mais urgente nos tempos actuais. Fala-nos da importância, para ti, da mensagem deste filme.

“Uma das razões que me fez gostar desta história foi essa forte componente ecológica. Hoje em dia as coisas estão a acontecer rápido demais e muitas vezes nem damos atenção ao que realmente se passa à nossa volta até ser demasiado tarde para voltar atrás. É importante dar a entender, principalmente às gerações mais novas, que temos a responsabilidade de cuidar do planeta. Projectos em animação são a ferramenta perfeita para isso.

Enquanto escrevíamos o argumento, em 2013, costumávamos dizer que a escassez de água seria, num futuro próximo, o principal problema do planeta. Em 2018, enquanto filmávamos a curta, chegou a notícia sobre o “dia zero” na Africa do Sul, que não era nada mais do que o inicio do que estávamos aqui a retratar. É assustador pensar que o controle total de um recurso que deveria ser gratuito e acessível a todos, como a água, pode estar na mão de meia dúzia de pessoas num futuro próximo. A mensagem tinha que estar bem presente, mas não era só isso que o filme teria de retratar. A sensibilização de que uma pessoa pode fazer a diferença era essencial, e o Sr Jacinto era o veiculo perfeito para isso. Um anónimo que fez o que acha correcto, desencadeando consequências inesperadas. Gostei muito dessa faceta do argumento.”

Conta-nos um pouco sobre o processo deste estilo de animação.

“A animação de volumes é uma técnica de animação muito própria. É exigente a nível logístico (equipamento fotográfico e de iluminação, espaço físico, materiais de construção, etc…), e bastante complexo de animar pois as marionetas são tri-dimensionais e obrigadas, nas mãos dos animadores, a terem comportamentos específicos e por vezes muito exigentes.

Neste projecto em particular animámos a dois, ou seja, cada movimento era fotografado duas vezes, sendo isto repetido 12 vezes por segundo. Ao contrário de outras técnicas de animação, em que um animador pode sempre voltar atrás e adicionar frames/imagens para resolver problemas na animação, aqui somos obrigados a animar de forma continua. Depois, na montagem, podemos sempre retirar frames, adicionar pausas e afins, mas é impossível adicionar frames animados porque iria envolver voltar a montar os cenários, replicar a iluminação, colocar a câmera no sitio exacto…como disse, impossível. Mas são estas imposições que dão gozo, com a equipa certa conseguimos dar conta do recado e a sensação de superação do problema é constante e praticamente diária. Animação, seja em que técnica for, é realmente um trabalho de equipe.”

Este género de animação, popularizado por Tim Burton e Aardman, o que achas que faz deste estilo de animação tão especial e inesquecível?

“Durante a produção de “O Peculiar Crime do Estranho Sr Jacinto” tivemos várias visitas ao estúdio e uma coisa é certa, ninguém fica indiferente quando vê um cenário montado, ou quando têm uma marioneta nas mãos. Todos nós criámos cenários e aventuras com os nossos brinquedos quando éramos crianças, quando vemos isso levado a um extremo, é coisa para deixar um sorriso na cara de qualquer um. Mas creio que não fica por ai. Costumo brincar e dizer que este é o verdadeiro 3D, aqui não há iluminação simulada em personagens simuladas, tudo é real. Isto confere uma credibilidade, uma veracidade, ao universo criado. Dá-lhe algo que nenhuma outra técnica de animação consegue fazer da mesma forma e com o mesmo resultado. Lá está, é quase mágico.”

Se tivesses á tua disposição qualquer filme para fazer uma versão em stop-motion qual escolherias e porquê.

“Ui, pergunta difícil. Creio que não há nenhum filme que gostaria de replicar em stop motion. Primeiro porque os filmes que realmente gosto são perfeitos como são. Replicá-los em stop motion seria uma façanha insana e definitivamente não ficariam tão bons. São perfeitos como são. Mas há universos que seriam interessantes meter lá o “pézinho”.

Star Wars é o primeiro que me vem à cabeça, mas há muitos outros que poderiam ser interessantes pela riqueza de personagens e cenários. Mas o que gosto mais é o desafio de desenvolver uma história do zero. Todo o processo de criação, antes da produção, é incrível. Neste momento é isso que estou a fazer, não faltam estímulos todos os dias que ajudam a acender o rastilho da imaginação, principalmente quando temos uma filha pequena em casa que gosta que o pai lhe conte histórias. Neste momento quero muito fechar o próximo projecto que tenho na cabeça. Depois resta procurar financiamento para tentar tornar a coisa em pé. Mas isso é outra luta.”

Para verem esta curta-metragem estejam atentos aos festivais de cinema nacionais, podem ter uma surpresa!