Em apenas quatro filmes, Vicente Alves do Ó já é uma grande referência no cinema nacional. Este mês apresenta o seu filme mais pessoal, “Al Berto”.

Ver também: O realizador Vicente Alves do Ó em 7 filmes de alma portuguesa

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Que grandes desafios enfrentou até à sua primeira longa-metragem, “Quinze Pontos na Alma”?

Resumindo, porque senão estávamos aqui muitas horas! O meu percurso é um bocadinho “sui geniris” porque eu não consegui entrar na Escola de Cinema nos anos ’90. Rapidamente percebi que teria de entrar nesta área de outra forma e como eu gostava muito de escrever e os produtores portugueses quando iam à televisão queixavam-se tanto da falta de argumentistas, dediquei-me a escrever histórias para cinema e foi graças a um desses guiões que escrevi e mandei para um produtor, que ele me foi buscar a Sines, trouxe-me para Lisboa e comecei a trabalhar para ele e para outros.

Se esse era o meu desejo inicial, não, claro que não, o meu desejo inicial era escrever e realizar os meus próprios filmes. Comecei a escrever projetos para mim e a tentar fazer curtas-metragens e conseguir entrar nos concursos públicos das longas metragens até ganhar com o “Quinze Pontos na Alma”. Todo o processo tem sido esse, escrevo as minhas coisas, realizo as minhas coisas, porque era essencialmente isso que eu queria fazer.

Não ponho de parte um dia escrever para outra pessoa, já pensei nisso ou realizar um filme escrito por outra pessoa. Acho que era um exercício muito fixe, para ver como é que lidava com as palavras e as histórias dos outros, mas para já continuo a escrever estas histórias e a fazer estes filmes que são muito pessoais e aos quais eu dou muito de mim e mais uma vez cá estou com um poeta, da minha terra, e cruzo-me com ele e a minha família e as minhas pessoas e tudo, é um bocadinho uma espécie de biopic alargado sobre o Al Berto, eu e Sines.

Vicente Alves do Ó
“Quinze Pontos na Alma”

Como decorreu a passagem de um filme biográfico sobre a poetiza Florbela Espanca para a vida de um outro poeta que lhe é muito mais próximo, Al Berto?

Bem, eu pelo meio fiz uma comédia, “O Amor é Lindo… Porque Sim!”. A seguir ao “Florbela”, as pessoas acho que se calhar estavam a catalogar-me numa coisa e eu como detesto que me cataloguem e enfiem numa gaveta penso assim:

Agora vou fazer uma comédia palerma com a Maria Rueff!

E diverti-me imenso! Vou voltar à comédia de certeza. A passagem foi natural, eu fiz o “Florbela”, que me correu muito bem. Estive muito tempo com aquele filme às costas, estive muito tempo sem fazer nada e decidi fazer a comédia porque já estava a trabalhar no Al Berto e nunca mais o conseguia pôr de pé e quando finalmente conseguimos, o “Al Berto” tornou-se o segundo filme da trilogia de poetas que eu quero fazer. E depois fecho a trilogia, mas provavelmente pelo meio ainda vou fazer outras coisas que estão no segredo dos deuses… coisas completamente diferentes! Acho que não me vejo só a fazer um tipo de cinema um tipo de filme.

“O Amor é Lindo… Porque Sim!”

E em que outros géneros se vê a realizar uma longa-metragem?

Acho que o único género que não vou fazer e mesmo assim não sei porque acho que precisa de uma excelente ideia é terror. Adorava fazer um filme de terror, mas há muito cinema de terror que tens de ter uma ideia brilhante para aguentar aquilo. Para não se perder nos clichés todos do serial-killer, dos fantasmas, da casa assombrada, do assassino psicopata, da possessão sobrenatural… Acho que tenho de ter uma ideia que ainda não tive e acho que um dia ainda vou pensar nisso – fazer um filme de terror.

Qual foi o processo de criação de “Al Berto”?

Quando já tens muitos anos disto acabas por dominar as coisas, ter uma certa técnica e para o “Al Berto” eu tinha um grande espólio, muito valioso, de um personagem do filme que é o meu irmão João Maria. Tinha a sorte de eu próprio ter vivido muito perto deles, eles mais velhos claro, mas ouvia muitas histórias e conhecia muitas das pessoas que ainda estão vivas e que são personagens presentes no filme. Portanto é como um puzzle. Selecionar a informação dentro da história que eu queria contar e escrevê-la.

E como foi o contacto com essas pessoas que ainda estão vivas?

Foi maravilhoso! Maravilhoso! Obriguei-as a relembrar muita coisa que elas já se tinham esquecido e trazer cá para fora muitas memórias de um período pelo qual elas continuam a ter muito carinho, mesmo com os dramas que existiram naquela casa. Muito carinho e muita nostalgia porque de facto foi uma história que ficou para sempre na vida deles, que os marcou, os definiu e foi o momento onde viveram mais o apogeu da sua liberdade, do seu sonho, da sua vontade, de que naquela altura tudo nos pode acontecer, tudo é possível quando somos jovens. A maior parte deles são pessoas da minha intimidade.

O meu problema maior não era a falta de material mas o material em excesso que eu tinha, que dava para um filme de 3 ou 4 horas, o que não podia ser porque depois não tinha distribuição! Tinha que reduzir aquilo a um filme de menos de 2 horas ou 2 horas no máximo, como o “Florbela” que também tem 2 horas. Portanto o processo foi muito bonito e emocional e algumas vezes difícil quando tinha de falar ou tratar das cenas com a minha mãe, porque é normal é a nossa mãe, a nossa família, temos de tratar com pinças, com cuidado, mas nunca desvirtuando a ideia da história. O que lá está é o que lá está.

Há uma cena entre a personagem do João Maria e da mãe que é muito difícil, um horror e filmá-la foi muito difícil. Os atores estavam um bocadinho assustados a pensar quando é que eu ia dizer:

CORTA! Esta cena acabou de cair, não está no filme, acabou!

Mas eu tinha de coragem de – Se vou falar na vida do Al Berto, então também tenho de falar na minha, também tenho me expôr dessa maneira.

Vicente Alves do Ó
“Al Berto”

Qual foi o seu processo de escolha dos atores, uma vez que todos eles estão a interpretar pessoas que lhe eram próximas?

Durante dois anos andei à procura. Andei a ver teatro, vi televisão, vi curtas, peças de teatro independente como de teatro comercial… conheci pessoas. Outras pessoas já conhecia ou queria trabalhar muito com elas e fui buscá-las. Foi-se construindo assim devagarinho, não foi nada depressa. Aliás, nada neste filme foi feito depressa, foi feito com muito cuidado, para ele ser exatamente aquilo que eu queria que fosse e acho que pelo menos a mim não me traí. Depois as pessoas podem gostar mais ou gostar menos agora a história que eu tinha para contar era esta. Se depois querem ouvir esta história ou não, são livres de o fazer como quiserem.

O que pretende que as pessoas retirem do seu filme? Qual a mensagem que pretende transmitir?

Eu primeiro gostava que as pessoas fossem ver o filme, porque acredito que este filme pode chegar a muitas gerações, e há temas nos quais toca que são fundamentais e universais. Acima de tudo queria que refletissem sobre duas coisas, o preconceito, que continua a imperar em Portugal mesmo depois de esta história ter acontecido, e a liberdade, a forma como as pessoas tanto a pregoam e desejam, mas depois respeitam tão pouco a dos outros. O Al Berto é um homem da liberdade, que nunca interferiu na liberdade do outro mas que viu muitas vezes a sua liberdade ser alcançada e colocada em questão, e sempre enfrentou isso com muita força e acho que 40 anos depois desta história ainda continuamos a ter muitos problemas na sociedade portuguesa que estão no filme e que ainda estão presentes hoje.

O que o marcou mais na rodagem deste filme?

Momentos memoráveis são todos, a partir do momento em que estás a filmar na tua cidade, onde cresceste a sonhar em vir a fazer filmes. Tudo era uma espécie de sonho tornado realidade. Tinha uma equipa incrível com pessoas incríveis que deram tudo o que tinham a dar pelo projeto. Acho que foi o filme em que trabalhei em que mais sentia isso. Se calhar é porque as pessoas sentiam que era muito pessoal para mim e então ainda deram mais de si emocionalmente, mas foi uma rodagem extraordinária. Estás na tua terra a fazer um filme onde vivias há 20 anos com as pessoas que agora estás a retratar! E não é assim tanto tempo. Não é como a Florbela que foi há 100 anos e que eu não conheci. Eu filmei sítios onde cheguei a estar com essas pessoas a beber café, era um miúdo e 20 anos depois estou a filmá-las a beber café naquele sítio. É muito poderoso isso, do ponto de vista emocional, foi uma rodagem forte, mas no bom sentido graças a Deus.

Sente que o grau de dificuldade aumenta ou diminui de filme para filme?

Acho que me vou tornando um bocadinho mais exigente e procurando caminhos novos e coisas novas que ainda não tenha feito. Eu por exemplo sou muito cioso das minhas palavras. Eu sou terrível – “tens de dizer aquela palavra e aquela” – mas por exemplo este filme tem muitas conversas de improviso e eu dei-lhes liberdade para isso, eles já dominavam tão bem a personagem e isso é uma coisa nova para mim.

Outra coisa nova foi desmontar a minha precisão formal a nível de câmara. Eu gosto muito dessa precisão formal, aliás o “Quinze Pontos na Alma” também é isso. O “Florbela” já é menos e o “Al Berto” ainda menos. Muitas vezes eu filmo como vejo e nesse sentido acho que este filme foi um desbravar de caminho e os próximos que farei também serão. Vai construindo e destruindo consoante vai fazendo até encontrar a sua personalidade. E as pessoas olharem para um filme seja ele qual for e dizerem – “Este aqui é um filme do Vicente, de certeza.” – Aí é quando chegaste àquele sítio mesmo top! É quando as pessoas por uma imagem conseguem identificar o realizador.

Vicente Alves do Ó
“Florbela”

Tem referências ou inspirações para os seus filmes?

Cada vez menos. No início via muito mais cinema que eu achava que me influenciava, hoje em dia não. Não é só uma questão de criar uma assinatura, o que eu sinto é a ideia do filme. Aquilo que eu quero passar que depois faz com que eu construa tudo à volta. Eu não penso, isto é um drama biográfico então deixa-me ir lá ver filmes biográficos. Eu não faço isso. Eu penso:

Que tipo de emoção e de sensação e de ideias… o que é que eu estou a tratar?

E depois com base nisso eu construo, acerto com o diretor de fotografia, falo com a pessoa que faz a música, com a direção de arte… Tenho uma ideia central que quero desenvolver e que depois se desenvolve nas áreas todas. Não posso dizer que hoje em dia me sinta influenciado por alguém. Se calhar sou sem perceber. Tanto filme, tanta coisa que já vi na vida, que se calhar até sou influenciado. Mas aqui se fui influenciado por alguma coisa é por Sines e pela presença destes fantasmas da minha vida.

Que conselhos daria às novas gerações do cinema?

Essas perguntas são terríveis! Não há conselhos. Há fazer. O conselho é uma coisa que cai sempre em saco roto. As pessoas têm que falar menos e fazer mais. Hoje em dia a nova geração tem uma sorte incrível. Com as novas tecnologias o cinema tornou-se profundamente mais acessível. Ainda há pouco tempo esteve no Festival de Cannes um filme feito com telemóvel [“Tangerine”, de Sean Baker]. Não há conselhos de como fazer, de como encontrar espaço. É fazer uma, e duas e três e quatro curtas e longas e bater às portas. Não é falar sobre cinema. É fazê-lo! Até porque quando as pessoas começam a fazer ganham uma percepção muito diferente e percebem aquilo de que gostam. Escrever, lutar, fazer. Digo isto porque já conheci muita gente que fala muito e não faz nada. Está à espera que o filme lhes caia no colo!

Na minha altura tinha 20 anos, ainda era película. Ninguém fazia cinema só porque queria, isso não funcionava. Hoje em dia vais à loja e compras uma câmara para fazer um filme. Se visses a câmara que eu usei para fazer “O Amor é Lindo.. Porque Sim!” e teve nos cinemas pelo país todo! O cinema tornou-se muito mais possível.

Vicente Alves do Ó“Al Berto” já se encontra nos cinemas. Vicente Alves do Ó encontra-se a preparar um novo filme… “ainda no segredo dos deuses”.