CinemaCríticas de CinemaDestaquesOs Irmãos Sisters – Western à francesa

A morte iminente do clássico faroeste americano é um fenómeno cada vez mais consolidado. É preciso que os pais do cinema venham salvar isto tudo. “Os Irmãos Sisters” não só é um título curioso, mas também o projeto que (como outros tantos) ressuscita minimamente a esperança de o género cinematográfico dos cowboys voltar a conquistar públicos. No passado LEFFEST, Jacques Audiard falou sobre o jantar que teve com Joel Coen, um dos artistas atuais mais...
Duração
121 minutos
Género
Western, Comédia, Crime
Estreia
21 FEV. 2019
Distribuidora
NOS Audiovisuais
Overall Score
Rating Overview
Realização
95%
Interpretações
90%
Argumento
85%
Fotografia
80%
Banda Sonora
85%
Rating Summary
"Os Irmãos Sisters" tem quantidades bem dosadas de humor, drama, violência e lição moral. É um filme que se encarrega de contar uma boa história no western americano, caminhando por territórios distintos, nomeadamente uma interação entre os dois personagens inclusiva de uma maior comicidade e uma exploração introspetiva e surpreendentemente emotiva do elemento humano.

A morte iminente do clássico faroeste americano é um fenómeno cada vez mais consolidado. É preciso que os pais do cinema venham salvar isto tudo.

“Os Irmãos Sisters” não só é um título curioso, mas também o projeto que (como outros tantos) ressuscita minimamente a esperança de o género cinematográfico dos cowboys voltar a conquistar públicos. No passado LEFFEST, Jacques Audiard falou sobre o jantar que teve com Joel Coen, um dos artistas atuais mais responsáveis por assegurar que os westerns ainda vejam a luz do dia. No entanto, é importante realçar: por muito que gostemos de filmes como “O Bom, o Mau e o Vilão” e “Aconteceu no Oeste”, o cinema de autor moderno reserva muitas possibilidades para que os pistoleiros solitários continuem a cavalgar por esses imensos terrenos, sem jamais deixar que sensação de repetição e esgotamento esteja presente. E o filme do realizador francês é a mais recente prova.

Baseado no livro homónimo do canadiano Patrick DeWitt, publicado em 2011, o filme começa em 1850, no estado americano de Oregon, e acompanha dois irmãos encarregados de matar um famoso químico e prospetor de ouro.

Os Irmãos Sisters

Depois de contar histórias de crime como “Nos Meus Lábios” e “Um Profeta”, Jacques Audiard concretiza o seu desejo de contar uma que decorra no oeste americano. E, como no caso do estreante S. Craig Zahler, as armas de um artista autoral e deslocado são, muitas das vezes, as melhores para se oferecer a um género, digamos, esquecido (para não dizer subestimado). Com uma abordagem cómica declarada, insinuações de uma extrema violência e imagens especificamente gráficas, “Os Irmãos Sisters” torna-se, deste modo, num dos melhores filmes do ano.

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Esteticamente falando, o filme não destoa muito do que estamos à espera: uma fotografia calorosa e flavescente que posiciona os protagonistas na frente dos locais do conflito e no meio de sequências de ação bem coreografas, auxiliadas por um trabalho de câmara simultaneamente minimalista e ágil. Há um lindo e efémero plano em particular transitório entre cenas que inclui apenas um personagem a dar uma informação, acompanhado unicamente pelo fumo do cigarro e pelo massivo escuro atrás de si.

Aliás, ao contrário de “Hostiles”, do Scott Cooper, “Os Irmãos Sisters” sabe usar o escuro a seu favor. Sobretudo o dos desertos e florestas. A quase inexistente iluminação em cenas noturnas está na medida certa. Para além de desenvolver a ambientação de um perigoso e inexorável espaço, a música do Alexandre Desplat contribui imenso para equilibrar as mudanças de tom e de visual do filme. Depois de “The Grand Budapest Hotel” e “A Forma da Água”, o francês faz novamente um trabalho impecável. Fiquem para escutar a maravilhosa música dos créditos finais.

De seguida, tematicamente falando, típica de filmes recheados de violência, uma das primeiras camadas encontradas é a de um divertido western bang-bang. No entanto, o foco aqui não é idêntico ao de filmes como o recente remake de “Os Sete Magníficos”. O propósito não é apenas entreter, mas sim contar uma história profunda e emotiva sobre dois irmãos que exploram os seus demónios e habilidades destrutivas, assim como as possibilidades de redenção que aparecem no fim de uma carreira que fora além das suas ambições juvenis.

Os Irmãos Sisters

Com o mérito do autor original (claro), mas também do Jacques Audiard e do Thomas Bidegain, “Os Irmãos Sisters” beneficia-se de um texto que, por sua vez, eleva as interpretações. O filme fala sobre a particularmente fortíssima ligação entre irmãos, família, os maus genes que herdamos (o chamado bad blood, partindo para temas como alcoolismo e violência doméstica), a falta de companheirismo conjugal, dinheiro, ganância, o sonho e oportunismo americano e o sentido geral de moralidade. Posto isto, havia vastas maneira de o filme progredir e de terminar. “Os Irmãos Sisters” é um filme, sobretudo, agradavelmente imprevisível.

E sustentando um excelente material está um excelente elenco. Destaque obviamente para o duo principal. Estes são temidos e impiedosos assassinos, porém fundamentalmente compostos por um carisma abundante. O John C. Reily vai ganhar o mundo neste final de ano. De todas as suas prestações dadas em 2018, esta certamente é uma das melhores. Como um irmão mais velho, observamos uma figura quase paternal, um homem cheio de intuições benevolentes e boas intenções, que sai quase sempre prejudicado pela imaturidade e descontrolo do irmão. É um assassino contratado, está certo, mas o ator vende perfeitamente o lado meigo, sensível, fragilizado e até eticamente flexível do personagem. Diga-se que este tem um charme contraditório à sua profissão. No entanto, como o público espera, é um homem que, nos momentos mais críticos, faz um autêntico espetáculo com uma arma.

Os Irmãos Sisters

O Joaquin Phoenix está igualmente ótimo. Cheio de demónios disfarçados de típicos e broncos comportamentos constituintes de uma masculinidade autodestrutiva e um vício desmedido. Mesmo sendo o irmão mais novo, este assegura o leme na maior parte dos conflitos e demonstra consequentemente uma apatia amedrontadora e até sádica, característica de um passado trágico e, por isso, útil na prática de atos de extrema violência, mantendo uma postura de superioridade arrogante e maliciosa.

Os Irmãos Sisters

É uma pena que o Jake Gyllenhaal receba inúmeros papéis que pressupõem uma imediata personalidade carismática sem receber qualquer, digamos, personalidade. O ator é um dos melhores em atividade, não haja dúvidas, mas o personagem não tem quaisquer elementos distintos. São pouquíssimos os momentos que me farão lembrar dele neste filme. A única coisa mais marcante é a narração acentuadamente presente no primeiro ato, que, mesmo não absolutamente necessária, não é excessiva e conduz bem a narrativa.

O Riz Ahmed, desta vez, fez um bom trabalho, mesmo sendo ainda um ator com necessidade de amadurecer. O seu personagem é facilmente manipulado, mas gradualmente revela um lado cada vez mais inteligente, mantendo uma postura fisicamente seca e fraca.

Os Irmãos Sisters

A Rebecca Root não faz muita coisa, mas está competente. Já o Rutger Hauer não faz absolutamente nada. Faz uma aparição de segundos (um cameo basicamente) e não é dada sequer nenhuma profundidade ao seu personagem. Tudo o que sabemos sobre ele é expresso verbalmente, ficando tudo subentendido. Ele não é o antagonista principal, mas é uma figura supostamente temida pelos protagonistas. Desperdício de talento.

Francisco Quintas

Francisco Quintas

Amante compulsivo de cinema, clássico e moderno. Sintra, 18 anos, estudante na Área de Economia. Colaborador com o Cinema Pla'net desde Novembro de 2017.